Caira Queiroz, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

De estrela mirim da Disney à símbolo global de diversidade e autenticidade, a atriz, cantora e dançarina norte-americana Zendaya é uma das recentes revelações do cinema hollywoodiano. Zendaya se destacou não apenas por suas atuações, mas também por sua postura firme em desafiar padrões estéticos e culturais eurocêntricos, especialmente para mulheres negras.

Nascida na Califórnia, 1996, Zendaya Maree Stoermer Coleman passou grande parte da juventude frequentando o California Shakespeare Theater, conhecido como Cal Shakes, graças ao trabalho de sua mãe como gerente de palco no local (Biography, 2024). Assim, envolta em um ambiente familiar artístico, desde criança Zendaya despertou interesse pela atuação, participando de programas teatrais locais e interpretando diversos papéis na Escola de Artes de Oakland. Além disso, esteve envolvida em produções escolares de hula com a Academy of Hawaiian Arts e danças de hip hop com o grupo Future Shock Oakland, o que ajudou a aprimorar sua arte (Britannica, 2025).

Sua carreira começou como modelo infantil e dançarina, onde conseguiu trabalhos com empresas como Macy’s e Old Navy. Mas despontou mesmo na série Shake It Up (2010–2013) como Rocky Blue, série que exibiu suas habilidades de atuação e a apresentou como uma dançarina talentosa. Depois protagonizou K.C. Undercover (2015–2018) no Disney Channel. Estes primeiros papéis popularizaram o nome de Zendaya entre os adolescentes (Trends Magazine, 2025).

Porém, alguns anos depois a atriz precisou desvincular sua imagem com a Disney para buscar papéis que lhe desafiassem como artista, com o intuito de não ser encaixada em um tipo de personagem. Esta transição foi marcada por sua interpretação de MJ na série Homem-Aranha do Universo Cinematográfico Marvel, começando com Homem-Aranha: De Volta ao Lar em 2017, onde seu protagonismo em grande produção ganhou fama global, e também consolidou seu lugar no mainstream de Hollywood (Aidar, 2022).

Entre tais produções, uma de suas atuações mais marcantes foi de Rue Bennett em Euphoria (2019), série da HBO sobre uma adolescente em crise. Sua atuação foi amplamente elogiada e lhe rendeu o Emmy de Melhor Atriz Dramática, tornando-a a mais jovem a conquistar o prêmio na categoria. Já na franquia Dune, interpretou Chani nos filmes de 2021 e 2024, ampliando sua presença em papéis de impacto (visual e narrativo) e reafirmando sua versatilidade como atriz em projetos de ficção científica e drama (Biography, 2024).

Para além do seu talento cinematográfico, Zendaya redefine padrões globais de beleza e se consolida como uma pioneira em estilo, utilizando suas escolhas de moda como uma forma de expressar orgulho cultural e autenticidade. Suas aparições no tapete vermelho chamam atenção da mídia, com produções ousadas que celebram a diversidade e a individualidade, especialmente ao valorizar seus cabelos naturais, como no emblemático Oscar de 2015, em que exaltou a estética negra e inspirou identificação em milhões de pessoas (Guglielmetti, 2015).

Inclusive, um dos momentos mais emblemáticos da trajetória de Zendaya na luta contra o racismo e os padrões eurocêntricos aconteceu justamente durante o Oscar de 2015. Na ocasião, ao aparecer no tapete vermelho usando dreadlocks, a atriz foi alvo de um comentário racista da apresentadora Giuliana Rancic, que sugeriu que seu cabelo “provavelmente cheirava a óleo de patchouli ou maconha”. Zendaya respondeu com elegância e firmeza, utilizando suas redes sociais para defender a diversidade dos cabelos afro e denunciar os estigmas racistas associados a eles. Sua reação repercutiu amplamente, gerando um debate importante sobre representatividade negra na mídia (BBC, 2018).

Em outra frente, Zendaya se destacou por levantar discussões sobre o colourism, a discriminação baseada na tonalidade da pele entre pessoas negras. Durante eventos como o BeautyCon Festival, reconheceu publicamente seu privilégio por ter pele mais clara, declarando-se como “a versão aceitável de uma mulher negra em Hollywood”. Sua fala foi um chamado por mais inclusão e visibilidade para mulheres negras retintas e de diferentes tonalidades de pele (Araújo, 2021).

Esse compromisso com a inclusão também se manifesta em sua colaboração com a grife Tommy Hilfiger, ao idealizar um desfile composto exclusivamente por modelos negras, de diferentes idades e gerações. A iniciativa ampliou os corpos visíveis nas passarelas, promovendo uma moda mais representativa e plural, tanto do ponto de vista racial quanto etário (VOGUE, 2018).

Nesse sentido, a trajetória e influência de Zendaya dialoga com a teoria pós-colonial, especialmente na perspectiva de Edward Said (Goldman, 2021) e Frantz Fanon (Awan, s.d.), ao desafiar a estética imposta pelo legado do colonialismo. Ao afirmar sua representatividade negra, ela questiona a hegemonia cultural branca e os estereótipos coloniais que persistem em Hollywood. Sua presença se torna resistência simbólica às normas coloniais impostas na mídia global.

Ou seja, Zendaya é muito mais do que uma atriz de sucesso: é exemplo contemporâneo de como cultura e visibilidade podem ser formas de influência representativa e crítica. Ao confrontar narrativas pós-coloniais e padrões eurocêntricos, ela contribui para redefinir o que é representativo no entretenimento e nas artes. Sua trajetória demonstra que a verdadeira mudança cultural pode surgir da combinação de talento, posicionamento e autenticidade, mesmo em um meio ditador como o hollywoodiano.

REFERÊNCIAS

AIDAR, Laura. Zendaya. Ebiografia, 2022. Disponível em https://www.ebiografia.com/zendaya/. Acesso em: 17 jul 2025.

ALLAIRE, Christian. Zendaya on Fighting for Representation in Hollywood: “You Have to Create Your Own Space”. Vogue, 2018. Disponível em https://www.vogue.com/article/forces-of-fashion-zendaya-hollywood-diversity-representation. Acesso em: 17 de jul. 2025.

ARAÚJO, Luísa. O que Zendaya pode nos ensinar sobre racismo e colorismo? Purebreak, 2021. Disponível em https://www.purebreak.com.br/noticias/zendaya-e-o-racismo-sou-a-versao-aceitavel-de-menina-negra/102474. Acesso em: 17 de jul. 2025.

AWAN, Arwa. The Work of Decolonization: Fanon and the Post-colonial Predicament. Projeto de Ciência Política do Oriente Médio (POMEPS), s.d. Disponível em https://pomeps.org/the-work-of-decolonization-fanon-and-the-post-colonial-predicament. Acesso em: 20 jul. 2025.

BBC. Zendaya: ‘Sou a versão aceitável de uma garota negra em Hollywood’. BBC, 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/news/newsbeat-43879480. Acesso em: 17 jul. 2025.

GOLDMAN, Elisa. Nacionalismo e Pós-Colonialismo: uma abordagem Historiográfica da obra de Edward W. Said. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH; São Paulo, 2011; pág. 5. Disponível em https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548855455_a1000b9a1609d3015e42553f08ce0d60.pdf Acesso em: 20 jul. 2025.

GUGLIELMETTI, Petra. Zendaya Responds to Giuliana Rancic’s Offensive Dreadlocks Comment. Glamour, 2025. Disponível em https://www.glamour.com/story/zendaya-dreadlocks-oscars-giuliana-rancic. Acesso em: 17 de jul. 2025.

SABINO, Luíza Wehbe. As teorias pós-coloniais, as teorias decoloniais, suas diferenças e a construção de uma nova forma de pensamento. Desconstrução Diária, 20 mar. 2023. Disponível em: https://desconstrucaodiaria.com/2023/03/20/as-teorias-pos-coloniais-as-teorias-decoloniais-suas-diferencas-e-a-construcao-de-uma-nova-forma-de-pensamento/.

Acesso em: 18 jul. 2025

SHIFFER, Emily. Zendaya. Biography, 2024. Disponível em https://www.biography.com/actors/zendaya. Acesso em: 17 jul. 2025.

TRENDS MAGAZINE. Zendaya: A Brilliant Multi-Talented Icon Revolutionizing Hollywood in 2025. Trends Magazine, 2025. Disponível em https://www.trendsmagazine.co.uk/zendaya/. Acesso em: 17 jul 2025.

ZELAZKO, Alicja. Zendaya. Britannica, 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Zendaya. Acesso em: 17 jul. 2025.