Cristine Oliveira, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais 

Ficha técnica:  

Ano: 2021

Diretor: Jonas Poher Rasmussen

Distribuidora: Diamond Films

Gênero: Documentário. Animação.

Países de origem: Dinamarca

Indicado a três Oscars no ano de 2022, “Flee: Nenhum lugar para chamar de lar”, é um documentário em forma de animação, que apresenta a história de Amin Nawabi, o qual escondeu por 20 anos o seu passado. O documentário mescla a animação 2D com filmagens reais, para apresentar o resgate das memórias de Amin sobre sua infância e adolescência, e todos os obstáculos que enfrentou enquanto refugiado.

Amin nasceu em Kabul, no Afeganistão, e é o mais novo dentre seus quatro irmãos. Sua infância foi marcada pela perda de seu pai, o qual foi capturado pela polícia, por ser considerado uma ameaça comunista ao Governo Afegão, vigente em 1979, desde então, o seu pai não foi visto. Devido aos desdobramentos da guerra civil do Afeganistão em 1989, Nawabi, sua mãe e irmãos, são forçados a buscar refúgio em outro país. Inicialmente, o objetivo de sua família era ir para Rússia, e posteriormente para Suécia, onde o seu irmão mais velho já residia.  No entanto, eles não conseguem sair da Rússia, devido ao tratamento hostil que eles recebiam das autoridades. Mais adiante, apenas suas irmãs conseguem ir para Suécia, após quase não sobreviverem às condições precárias do transporte.

Depois de uma tentativa traumática de sair da Rússia com o restante de sua família, a mãe e o irmão mais velho de Nawabi, decidem enviá-lo sozinho de forma segura para Suécia, entretanto, ele é mandado para Dinamarca, e para garantir que ele não seja pego pela migração, é orientado a contar que é o único sobrevivente de sua família. Durante anos, ele repete essa história a todos que conhece, até que ele decide contar ao diretor do documentário, a verdade sobre seu passado.

Ao longo do documentário, Amin relata as diversas formas de violência que ele e sua família passaram, como violência física, as péssimas condições de abrigo, o tráfico humano e a espetacularização do sofrimento dessas pessoas. Além de temas como migração e guerra, a animação aborda os traumas que esses eventos causam, como também a construção identitária de refugiados. Um ponto importante do documentário, é a sexualidade de Amin, a qual é abordada com sensibilidade e de forma natural. A homofobia estrutural afeta diretamente a vida dele, por ser gay, Amin acreditava que sua sexualidade era uma doença e também temia não ser aceito pela sua família, porém seus irmãos o aceitam por quem ele é, e o apoiam. No presente, Amin vive com seu marido e possui uma carreira bem consolidada, reconhecendo todos os esforços que foram feitos para ele chegar aonde chegou.

Diante das discussões complexas abordadas no documentário, é possível analisá-lo a partir da Teoria Pós-Moderna das Relações Internacionais. O teórico italiano Giorgio Agamben, destaca que o refugiado é “a figura que deveria, por definição, ser o objeto de direitos humanos mais que qualquer outro, mas que, ao contrário, exemplifica a crise radical do conceito” (AGAMBEN, 1998, p.19 apud LACERDA, 2012, p.8). Ao fazer essa afirmação, o filósofo denuncia a desumanização que refugiados enfrentam, e a forma com que eles são privados de direitos e proteção. Além disso, Agamben (2010) destaca o papel do Estado, no controle das fronteiras e gestão da migração, a partir desses mecanismos de exercício da soberania estatal, o Estado decide quem é incluído ou excluído.

Em última análise, o documentário “Flee: Nenhum lugar para chamar de lar”, traz discussões de extrema relevância, não só para denunciar as condições que as pessoas são submetidas enquanto refugiadas, como também refletir sobre questões que envolvem identidade como um todo. Logo, conclui-se que histórias reais como a de Nawabi, são fundamentais para os debates de pautas das Relações Internacionais, principalmente no campo dos direitos humanos.

Referências: 

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Tradução de Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010a.

LACERDA, Ana Luiza. Visões da Vida no Refúgio: Relações de Poder e Resistência. Revista Cadernos Internacionais, v. 6, n. 1, 2013.