
Thais Vitória Borges – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Um dos grandes impasses teóricos das Relações Internacionais é o défit da perspectiva feminista no campo. Sarfati (2005), afirma que dentro da disciplina, o objetivo do feminismo é mostrar a construção androcêntrica do mundo, que é empírica, ideológica e excludente. O destaque desse ponto é seguido pela busca da desconstrução desses discursos e construção de um pensamento que inclua a visão feminista dentro das relações internacionais. No período dos idebates de introdução das perspectivas feministas aplicadas à disciplina nos anos 80, Sara Ruddick traz a questão da maternidade para discussão.
Professora de filosofia e estudos femininos por quase 40 anos na New School for Social Research, a teórica desenvolveu uma abordagem para a criação de filhos que alterou o foco da maternidade como uma instituição social ou um imperativo biológico, para considerá-la como um conjunto de atividades essenciais para o cuidado e desenvolvimento de uma criança e que pode ser tanto exercida por uma mulher, quanto por um homem.
Desenvolvendo sua principal obra “Maternal Thinking: Toward a Politics of Peace” (1989) no decorrer de quase uma década, este nasceu em um período dentro do qual os estudos filosóficos, ocidentais e androcêntricos, constantemente contrastavam o “pensamento racional” e de natureza objetiva do campo às práticas de cuidado empregadas na maternidade, excluindo também desses estudos, quaisquer atributos e experiências associados à feminilidade, tais como: a emoção, conexão e sensibilidade (LLOYD apud RUDDICK, 1995, p. 10). A divisão entre mente e mãe, assim como da razão e do feminino são hoje discussões contestadas e ultrapassadas. Sob esse viés, é importante analisar a contribuição de Ruddick para o alcance desse feito.
A autora afirma que a “mãe” não deve ser identificada pela condição fixa biológica ou por um status legal de relacionamento para com a criança, mas sim pelas atividades que um indivíduo está disposto a cumprir. Nessa perspectiva, “mãe” se trataria da pessoa que busca responder às demandas de uma criança com cuidado e respeito ao invés de com indiferença ou agressão; Ruddick defende que essa concepção de maternidade como um trabalho de cuidado com a criança, desconstrói a idéia de que existe uma resposta maternal biológica feminina, afirmando que mulheres podem responder com negligência e indiferença as responsabilidades maternas (RUDDICK, 1995).
Desse modo, encarando a maternidade como um trabalho construído e não como uma relação biológica, Sara afirma que uma pessoa pode ser vista como “mãe” apesar das mais determinadas variações sexuais e sociais, e também em diversos períodos de tempo de suas vidas. Logo, a maternidade não está atrelada e nem exige algum padrão sexual, podendo portanto, ser um conjunto de práticas exercidas tanto por pessoas heterossexuais, gays, lésbicas ou trans. Além disso a maternidade não exige um arranjamento familiar particular, existindo desse modo mães que cuidam de uma ou mais crianças, mẽs solo, ou pessoas que compartilham o trabalho da maternidade de tal modo que seja impossível identificar apenas uma mãe, a partir disso, a realização da maternidade assume diferentes formas de configuração (RUDDICK, 1995).
Apesar de existirem teóricos que já tratavam anteriormente sobre a maternidade em seus estudos, Ruddick, foi a primeira a examinar a experiência da maternidade desenvolvendo uma visão teórica e construindo um vocabulário para essa análise (BAILEY, 1994). A autora propõe, baseada nos pensamentos de Ludwig Wittgenstein e Jurgen Habermas, a idéia de que existem tipos de pensamentos e conhecimentos distintos, e que estes, sejam científicos, históricos, religiosos e, introduzindo também a maternidade nesse grupo, surgem a partir de práticas distintas. Nesse sentido, Sara sugere que as atividades maternas dão origem a conhecimentos e formas únicas de pensar (RUDDICK, 1995).
Alegando que a maternidade foi censurada, distorcida e sentimentalizada por teóricos, ideologias e visões sexistas, Ruddick acreditava que chegaria um momento no futuro onde o pensamento materno, assim como os estudiosos dessa linha, seriam respeitados. Andrea O’Reilly (2009) afirmou que o momento imaginado pela autora havia chegado, mas não só isso, foi o pensamento sobre a maternidade manifestado nos estudos de Sara que possibilitou o desenvolvimento e articulação das diversas vozes maternas que criaram e agora formam a disciplina e o conjunto de estudos sobre a maternidade.
REFERÊNCIAS
BAILEY, Alison. Mothering, diversity, and peace politics. Hypatia, v. 9, n. 2, p. 188-198, 1994.
O’REILLY, Andrea. I Envision a Future in Which Maternal Thinkers Are Respected and Self-Respecting”: The Legacy of Sara Ruddick’s” Maternal Thinking. Women’s Studies Quarterly, v. 37, n. 3/4, p. 295-298, 2009.
RUDDICK, Sara. Maternal thinking: Toward a politics of peace. Beacon Press, 1995.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. Saraiva, 2005.
