
Thaís Carvalho, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Ficha técnica:
Ano: 2019
Direção: Sam Mendes
Distribuidora: Universal Pictures
Gênero: Drama. Guerra.
Local de origem: Estados Unidos da América, Reino Unido, Irlanda do Norte.
Vencedor do Oscar de Melhor Fotografia e Mixagem de Som em 2020, “1917” é um filme que se passa na Primeira Guerra Mundial e conta a história de dois soldados britânicos. Os cabos Schofield e Blake recebem a missão de entregar uma carta de extrema urgência a um batalhão aliado, que se encontra em trincheiras distantes, esta carta, alertará sobre uma armadilha do exército alemão, que pode resultar na morte de 1.600 soldados, incluindo o irmão mais velho de Blake.
Assim, envoltos em diversas emoções, e, pelo dever em prol de um bem maior, os dois jovens buscam realizar a missão designada que acaba se tornando uma corrida contra o tempo, e ao longo de sua jornada, Will Schofield e Blake presenciam diversos perigos e o reflexo da violência da guerra nas cidades em que percorrem.
Ao atravessarem as trincheiras inimigas – agora vazias – Will e Blake percebem que assim como eles, os soldados os quais estavam nas trincheiras, eram tão humanos quanto eles, sendo possível perceber tal sentimento, na cena em que Schofield visualiza em um dos beliches presentes, a foto de uma família, provavelmente pertencente a algum soldado alemão. Porém, há uma desconstrução desse sentimento, ao passo que eles são abordados por uma das armadilhas deixadas pelos alemães, situação que justifica o maniqueísmo existente no discurso militar, utilizado pelos Exércitos da Tríplice Entente.
Percorrendo diversas cidades consumidas pela violência resultante da guerra, como casas queimadas, soldados e civis mortos violentamente, e até mesmo árvores e gados multilados, os dois jovens são confrontados constantemente pela carnificina, destruição e sofrimento gerados pela brutalidade da guerra e a desumanização que um conflito de grande escala, como a Primeira Guerra Mundial, gera nos indivíduos.
Essa experiência expõe os protagonistas a um contato direto com a fragilidade da vida e a indiferença dos poderes soberanos em relação aos indivíduos, pois ao serem enviados para efetivar tal missão, ambos os soldados se tornam meros aparatos de uma estratégia de guerra maior, dos Estados e de seus interesses.
Assim, ao longo da obra cinematográfica pode-se perceber como o Estado e as suas vontades são expressas nas Forças Armadas – onde o ponto de vista da obra centraliza a sua análise – e como se torna uma extensão do poder militar, social e bélico do Estado, exercendo uma intensa influência sobre os soldados.
Trazendo à tona os efeitos devastadores da guerra e como ela afeta a vida dos indivíduos, a obra cinematográfica “1917”, pode ser analisada sob a ótica da Teoria Pós-Moderna de Relações Internacionais, vertente esta, que busca analisar o discurso que constrói as narrativas sociais, isto é, as metanarrativas dos discursos, questionando as narrativas pré-existentes, destacando a natureza multifacetada e intensa das relações entre Estados e os atores internacionais e discutindo a importância dos discursos na política internacional (SARFATI, 2005).
Segundo o conceito de Biopoder, do filósofo francês Michel Foucault, o Estado – através de seu poder – exerce a gestão e regulamentação dos corpos humanos, onde medidas políticas, normas e leis são criadas para controlar os sujeitos e torná-los corpos dóceis. Para Foucault, na era do biopoder, os grandes conflitos existentes entre os Estados e a utilização do poder, nas mais diversas esferas de um país – ocasionando a morte de diversos soldados e civis – são formas de assegurar a existência de muitos, assim, existindo uma equivalência no controle e gestão de mortes e vidas dos indivíduos em uma sociedade (NOGUEIRA e APARECIDA, 2017).
Desse modo, o filme traz ao longo de sua trama a atuação do biopoder do Estado, por meio da mobilização em massa dos soldados e do controle exercido sobre suas vidas, representado pela missão designada a Schofield e Blake, os quais arriscaram as suas vidas em prol das vidas de 1.600 soldados aliados.
Por fim, “1917” nos permite compreender o controle, a subjetividade e as dinâmicas de poder, que permeavam as relações sociais e internacionais existentes durante a Primeira Guerra Mundial, nos levando a refletir sobre a complexidade das experiências individuais, em meio à violência e às brutalidades ocorridas na guerra.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MÜLLER, Marcelo. Crítica: 1917 (2019). Papo de Cinema. Disponível em: https://www.papodecinema.com.br/filmes/1917/ . Acesso em: 19 de jun. de 2023.
NOGUEIRA FURTADO, R; APARECIDA DE OLIVEIRA CAMILO, J. O Conceito de Biopoder no Pensamento de Michel Foucault. Revista Subjetividades, [S. l.], v. 16, n. 3, p. 34–44, 2017. DOI: 10.5020/23590777.16.3.34-44. Disponível em: https://ojs.unifor.br/rmes/article/view/4800. Acesso em: 19 jun. 2023.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. 1° ed. São Paulo: Saraiva, 2005.
