Keity Silva de Oliveira- acadêmica do 6º semestre de RI da UNAMA

Nascia há 64 anos atrás, em Nova York, a boneca mais conhecida e vendida do mundo, a Barbie. Ao longo das décadas, ela se tornou uma figura icônica da cultura popular, sendo um símbolo de moda e empoderamento feminino. Com mais de 58 milhões de unidades vendidas anualmente, em 150 países ao redor do globo, a boneca conquistou sucesso em diferentes ramos da indústria, seja ela de brinquedos, roupas, músicas e do cinema. Nessa perspectiva, o sucesso e expansão da Barbie na cultura popular pode ser atribuído ao mecanismo do Soft Power, cabendo analisar a evolução da boneca sob a perspectiva do fenômeno.

No campo da teoria neoliberal das Relações Internacionais, o teórico Joseph Nye apresenta o conceito de Soft Power no livro The Paradox of American Power (2002), defendendo a ideia de que um Estado é poderoso pela sua capacidade de influenciar outro Estado. Para Nye (2002), não cabe analisar apenas o poder-força de uma nação, mas, a sua capacidade em cooperar, influenciar e comunicar por meio de ideologias ou culturas, constituindo o que o fenômeno do Soft Power.

A presença dele consiste em mecanismos sutis, como, por exemplo, na indústria cultural e nas produções cinematográficas que exploram novas culturas e novas perspectivas de mundo e se aproximam de diversas outras sociedades, no qual podem ser utilizados como base analítica para a construção de narrativas, discursos, eventos históricos e propagação de ideologias (COSTA, 2015).

Em 9 de março de 1959, na cidade de Nova York, a primeira boneca Barbie é apresentada ao público na Feira Americana de Brinquedo. Com 28 centímetros de altura e uma ampla cabeleira loira, a Barbie foi a primeira boneca produzida em massa nos Estados Unidos com feições de adulta. A criadora por detrás da boneca era Ruth Handler, cofundadora com seu marido, em 1945, da fábrica de brinquedos Mattel Inc.

A ideia da Barbie foi inspirada numa boneca alemã chamada Bild Lili, da qual Ruth Handler teve conhecimento numa viagem à Europa. Bild Lili surgiu da mente do artista Reinhard Beuthien para a publicação de Hamburgo, Bild-Zeitung, como uma personagem de banda-desenhada (Lagarto, 2021). Lili, como ficou conhecida, tornou-se tão popular que, em 1953, o jornal decidiu começar a produzi-la enquanto boneca. No entanto, o seu público-alvo não eram as crianças e na Alemanha, era considerada um símbolo sexual, sendo maioritariamente adquirida para despedidas de solteiro ou para homens pendurarem nos carros, vendida em bares e tabacarias.

Na época, o mercado de bonecas era escasso e as únicas que existiam retratavam bebês, não sendo mulheres adultas como a Barbie. É neste contexto que Ruth Handler, ao observar sua filha Barbara e o modo como brincava, chega à conclusão de que suas opções se limitavam apenas em brincar e fingir ser uma mãe ou uma figura maternal. Dessa forma, Ruth adquiriu três bonecas Lili quando visitou a Alemanha e a partir disso, estudou-as e redesenhou-as, dando origem à Barbie, uma boneca que poderia ser tudo o que quisesse (Altman, 2022). A ideia foi apresentada ao marido Elliot Handler, co-fundador da Mattel, e a boneca veio ao mundo pela primeira vez em 1959.

Um dos principais motivos para o sucesso permanente da boneca foi sua constante “reinvenção”, acompanhando as mudanças sociais de cada ano e se alinhando as tendências da moda mundial. Seguindo a filosofia de sua criadora, a Barbie representou mais de 180 carreiras e possuiu inúmeras roupas e acessórios que se tornaram símbolo da boneca. Além disso, a Mattel desenvolveu, ao longo dos anos, bonecas Barbie de diferentes biotipos, devido às críticas sobre a falta de diversidade em seus produtos, o que incluiu bonecas de várias etnias, formatos de corpos e nacionalidades.

A Barbie passou a ser referência não só na indústria dos brinquedos, mas também na sociedade e na cultura popular. Foram feitos mais de 30 filmes onde Barbie é a personagem principal, que originaram posteriormente, representações nas bonecas. Em 20 de julho deste ano, o aguardado filme em formato de live-action sobre a boneca estreou nos cinemas, alcançando a segunda maior estreia da história do Brasil, sucesso alimentado pela onda de marketing rosa ao redor do mundo (Amendola, 2023). Ao se analisar a evolução da boneca sob a ótica de Joseph Nye, é possível perceber que ela se tornou uma importante ferramenta de Soft Power entre os países por se reinventar na indústria e promover diversidade e inclusão em diversas características que expressam a pluralidade de culturas e biotipos existentes.

Portanto, para além da representação no formato de brinquedos, a Barbie se estabeleceu como um importante marco para a indústria cultural ao redor do mundo, através do Soft Power exercido. 64 anos depois, a boneca continua a ser tão relevante como era no início, através não apenas da iconicidade da marca em si, mas também pelo papel que ela desempenhou no empoderamento das crianças. Apesar da necessidade contínua de incluir e diversificar as bonecas, o sucesso de Barbie configurou a filosofia de sua criadora de que as meninas, independente de sua etnia, raça ou corpo, conseguirão ser o que quiserem, desde que se identifiquem com o que veem, num trabalho constante para efetivar essa mudança e preencher o que sempre deveria ter sido representado.

REFERÊNCIAS

ALTMAN, Max. Hoje na História: 1959 – Primeira boneca Barbie é apresentada ao público nos EUA. Opera Mundi. Publicado em: 09 de março de 2022. Disponível em: < https://operamundi.uol.com.br/hoje-na-historia/34291/hoje-na-historia-1959-primeira-boneca-barbie-e-apresentada-ao-publico-nos-eua > Acesso em: 29 de julho de 2023.

AMENDOLA, Beatriz. Barbie tem segunda maior estreia de abertura no Brasil. Omelete. Publicado em: 21 de julho de 2023. Disponível em: < https://www.omelete.com.br/filmes/barbie-tem-segunda-maior-estreia-de-abertura-no-brasil > Acesso em: 30 de julho de 2023.

COSTA, Renatho. O efeito Hollywood nas relações internacionais. Núcleo de Estudos e Análises Internacionais – NEAI. 2015. Disponível em: < https://neai-unesp.org/o-efeito-hollywood-nas-relacoes-internacionais/ > Acesso em: 29 de julho de 2023.

LAGARTO, Ana. Barbie. 62 anos de sucesso da boneca mais conhecida do mundo. Espalha Factos. Publicado em: 09 de março de 2021. Disponível em: < https://espalhafactos.com/2021/03/09/barbie-62-anos-de-sucesso-da-boneca-mais-conhecida-do-mundo/ > Acesso em: 29 de julho de 2023.

NYE, Joseph Samuel Jr. The Paradox of American Power: Why the World’ Only Superpower Can’t Go It Alone. Oxford University Press, 2002. Acesso em: 29 de julho de 2023.