Beatriz Gaby de Oliveira, acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais da Unama

No dia 10 de setembro de 2023, o território do continente Africano que corresponde à cidade de Derna na costa leste da Líbia, foi fortemente atingido por uma tempestade parecida com um ciclone extratropical de grande intensidade, causando uma catástrofe na região com desdobramentos que exprimem o caos político e humanitário vivenciado no país. 

A formação da denominada Tempestade Daniel, que ocasionou o rompimento de duas barragens e a geração de ondas de quase 7 metros, teve origem no Mar Mediterrâneo, cujas águas apresentavam uma temperatura anormalmente elevada de 27,5°C, criando um ambiente propício para o desenvolvimento intensificado desse fenômeno meteorológico. Essa catástrofe resultou em mais de 5 mil mortes e foi agravada por fatores internos do país afetado, bem como pelas mudanças climáticas globais, que são atribuídas à influência antrópica descontrolada sobre o meio ambiente. Este evento na Líbia ilustra de forma marcante como as dinâmicas de poder, o terrorismo ocidental e a relação entre a humanidade e o meio ambiente podem culminar em crises políticas, econômicas e sociais em regiões que antes eram consideradas prósperas e desenvolvidas internacionalmente.

Ao analisar o contexto das mudanças climáticas nesse país africano, destaca-se o entendimento de que um Estado com baixo investimento em infraestrutura, como no caso da Líbia com investimentos estagnados desde a queda apoiada pela OTAN de Muammar Kadhafi em 2011, são mais propensos a situações críticas desenvolvidas pelas mudanças climáticas, como inundações e destruições em massa. 

Nesse contexto, Robert Bullard (1996) menciona sobre a questão do Racismo Ambiental, o qual se refere à prática discriminatória e tratamento injusto que países marginalizados enfrentam em relação ao acesso a um ambiente seguro e com boa infraestrutura. A situação da Libia reflete uma notória desigualdade ambiental, em um contexto que, por situações históricas que envolvem conflitos sociopolíticos internos e ações neoimperialistas ocidentais em busca da riqueza mineral da região, o país enfrentou diversas práticas de corrupção massiva e o abuso dos recursos públicos, no qual o dinheiro que deveria ser investido em infraestrutura, alimentou apenas os investimentos na guerra pelo poder do país e os aliados de cada lado do conflito. Ou seja, sem um poder centralizado no Estado, e com forte participação da influência política do ocidente, o território da Líbia exprime não só o caos deixado pelo terrorismo colonial na região, como também a suscetibilidade a ser fortemente impactado em caso de catástrofes climáticas, pela baixa manutenção estrutural. 

Ademais, é cabível ressaltar como essa bifurcação da política interna do país em busca de poder, com o oeste administrado por um governo interino reconhecido internacionalmente e com o leste comandado pelo Exército Nacional Líbio liderado por Khalifa Haftar, enfraquece uma tentativa de estratégia governamental integrada, em um contexto que não se consegue ter políticas sociais básicas como tratamento para água, transição energética ou cuidados com os efeitos das alterações climáticas. 

Além disso, essa instabilidade governamental interna dificulta uma cooperação global entre Estados que possa mediar essas questões sociais e estruturais em meio as mudanças climáticas, tanto em ajudas humanitárias, quanto na parte econômica. Nessa perspectiva, Joseph Nye traz uma importante abordagem sobre as relações de poder no sistema internacional, em um contexto que os desafios globais, como as mudanças climáticas, são situações que atravessam fronteiras e demandam a colaboração entre nações e ação conjunta (NYE, 2012). 

Entretanto, fazendo uma analogia a situação da Líbia, torna-se difícil realizar essas cooperações por não haver um Estado centralizado com uma ordem política, e pela existência de raízes de Soft Power de países ocidentais e suas disputas por poder/ hegemonia nos dois lados do conflito, o que desenvolve imbróglios à tentativa de estabilização política e social e fortifica o terrorismo neoimperialista. Ou seja, o mesmo sistema que criou o colonialismo está criando a destruição climática em níveis exacerbados (BULLARD, 2022), tanto pela necessidade de busca de poder e hegemonia dos meios de produção, em especial do petróleo da região, como pela não adesão total à tentativa de cooperação global para frear as mudanças climáticas. 

Em suma, o território que corresponde à Líbia explícita a necessidade de mudanças internas, pois a efetividade de uma reconciliação nacional em países com conflitos prolongados requer reconciliações prévias em níveis subnacionais. Isso envolve mediação contínua entre comunidades para alcançar uma paz sustentável (JOHN, GHAIS, 2014). Seguindo os princípios idealistas de Paz Perpétua de Immanuel Kant (1795) , uma reconciliação que possa ser alcançada tendo como base o exercício da cidadania como uma forma de desencorajar desigualdades e desenvolver  o compromisso com a causa da paz entres os atores sociais (GERHARDT, 2005), para assim, ser possível a efetuação de melhorias estruturais no território a fim de minimizar os impactos das mudanças climáticas que assolam o mundo. 

REFERÊNCIAS:

BROWNLEE, Jason. Masoud, Tarek. Reynolds, Andrew. The Arab Spring. Pathways of repression and reform. Oxford University Press. 2015.

BULLARD, R. D. A anatomia do racismo ambiental e o movimento por justiça ambiental. Tradução Regina Domingues. In.: Confronting Environmental Racism – Voices from the Grassroots. South End Press, Boston, 1996. 

GERHARDT, Luiza Maria. À paz perpétua, de Immanuel Kant. Porto Alegre, 2005. 

JOHN, Anthony Wanis-St; GHAIS, Suzanne. International Conflict Resolution: Form Practice to Knowledge and Back Again, 2014. 

KANT, Immanuel. À paz perpétua, 1795. 

NEMI, Suélvia S. R. Mediação local como método alternativo de resolução de conflitos e de construção da paz sustentável: o caso da Líbia. Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, outubro de 2022. 

NYE JR, Joseph S. O futuro do poder. São Paulo: Benvirá, 2012.

O mesmo sistema que criou o colonialismo e a escravidão está criando a destruição climática. Carta Capital, 2023. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/o-mesmo-sistema-que-criou-o-colonialismo-e-a-escravidao-esta-criando-a-destruicao-climatica/ Acesso em: 05/10/2023.

Tempestade Daniel deixa pelo menos 2.000 mortos e cria cidade fantasma na Líbia. CNN, 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/tempestade-daniel-deixa-pelo-menos-2-000-mortos-e-cria-cidade-fantasma-na-libia/. Acesso em: 04/10/2023.