Matheus Castanho Virgulino, Internacionalista.

Aqueles mais familiarizados com a história das primeiras civilizações da humanidade poderiam traçar paralelos entre as muitas lendas de deuses vingativos que puniram a humanidade nas lendárias terras do Oriente. Sejam os deuses mesopotâmicos que trouxeram a ira dos céus sobre os homens, os deuses egípcios com suas enchentes, ou a vingança do Deus dos hebreus na destruição de cidades como Jericó, Sodoma e Gomorra por sua impiedade. A ironia hoje é que nós, meros mortais, possuímos armas com mais poder destrutivo do que até mesmo os poetas mais imaginativos destes povos antigos poderiam ter tecido em palavras: as armas nucleares. E sua visagem familiar assombra os cedros e areias do Oriente-Médio mais uma vez.

Os decênios que seguiram a última grande guerra foram caracterizados por uma relativa ausência de conflitos diretos entre as grandes potências e um crescimento econômico sem precedentes resultante do advento da globalização. Esta “longa paz” como dito por John Lewis Gaddis (1989) levou à um otimismo acerca do futuro do sistema internacional, que a partir de então seria definido por ganhos relativos e cooperação multilateral inter pares, hoje nos aparenta risível. Como brilhantemente colocado por Paul Poast (2023) em um artigo recente para o Foreign Affairs, ainda vivemos em um mundo de poder e medo, de tal forma que o realismo, se não como postura de política externa e sim como ferramenta analítica, demonstra-se perene. 

Ucrânia, Nagorno-Karabakh, Palestina, Taiwan, África Ocidental. Todos flashpoints de conflitos considerados dormentes ao final do último século, e que hoje ressurgem como assombrações sobre a ordem mundial liberal. No passado está a longa era mantida pela manopla de ferro do poder hegemônico americano, uma nova era de competição multipolar entre grandes potências desenrola-se diante do cenário internacional. Nesta nova época, é de se esperar que as potências revisionistas procurem aumentar o seu próprio poder e alargar as suas esferas de influência, mas tal é um processo que, como demonstrado por Kenneth Waltz (1979), deve ser ancorado em uma capacidade material credível.

O Tratado de Não Proliferação de 1968 tem sido muito bem-sucedido na prevenção da propagação de armas nucleares, em boa parte devendo-se a ampla aderência a esse regime internacional nos países terceiro-mundistas (TRINDADE, 2017). Quando se trata do Médio Oriente, a situação sempre se revelou mais desafiadora para os policy makers. Os muitos fatores que contribuem para a ocorrência de conflitos na região também facilitam o aparecimento incremental de corridas armamentistas no cálculo estratégico. 

Até agora, a única potência nuclear da região é Israel, que adota uma política de “ambiguidade nuclear” (GILES, 2009) mas a possibilidade de o Irã adquirir um arsenal nuclear, uma prospectiva cada vez mais provável dado o fim do acordo nuclear na administração Trump, torna o cenário de um “Oriente-Médio Nuclear” mais próximo. Muitos realistas estruturais, tais como Kenneth Waltz, já acreditaram que a proliferação nuclear seria um fator contribuinte para a ausência de conflitos armados. Esta lógica parte da estratégia de dissuasão nuclear, caracterizada pela prevenção de conflitos baseada no pressuposto da destruição mutuamente garantida, de tal forma que os malefícios de uma ação são maiores que os benefícios (CIMBALA, 2017).

Contudo, é útil para a presente análise considerar a natureza paradoxal das armas nucleares de um ponto de vista estratégico. O fato é que, por mais que as armas nucleares criem uma dissuasão credível contra a agressão, a sua existência contínua aumenta as chances das mesmas serem eventualmente utilizadas por uma mera questão de probabilidade matemática dado tempo suficiente.

Conforme explicado por Thomas Schelling (2008) em Arms and Influence, a dinâmica de alarmismo mútuo faz com que as corridas armamentistas aumentem as chances de conflito devido à natureza da ação preventiva. Um exemplo mais tangível disto seria o lento desenvolvimento da capacidade militar dos poderes Europeus nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, o que, por sua vez, fez com que uma crise relativamente menor, como foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, se transformasse num conflito verdadeiramente global.

No caso do Médio Oriente, é evidente que a proliferação nuclear contribuiria para a inflamação das tensões já presentes. Um Irã nuclear poderia levar a uma Arábia Saudita nuclear, como admitiu o antigo chefe dos serviços de inteligência, Príncipe Turki bin Faisal que disse: “O que quer que os iranianos tenham, nós também teremos” (HAFEMEISTER, 2016, p.240, tradução nossa). Esse cenário por sua vez poderia levar a uma Turquia nuclear e assim por diante, então, bastaria uma única faísca para explodir o barril de pólvora já transbordando. A prevenção deste cenário só pode ser alcançada através de uma combinação de coordenação estratégica regional, tratados sólidos com garantias no domínio da segurança e uma poderosa dissuasão contra a posse de tais armas.

REFERÊNCIAS

WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. Massachusets: Addison-Wesley Publishing Company, 1979.

HAFEMEISTER, David. Nuclear Proliferation and Terrorism in the Post-9/11 World. Suíça: Springer, 2016.

POAST, Paul. A World of Power and Fear: What Critics of Realism Get Wrong. Foreign Affairs, 2023. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/articles/ukraine/2022-06-15/world-power-and-fear. Acesso em: 10 out. 2023.

TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A Obrigação Universal de Desarmamento Nuclear. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2017.

GADDIS, John Lewis. The Long Peace: Inquiries Into the History of the Cold War. Oxford: Oxford University Press, 1989.

SCHELLING, Thomas C. ARMS AND INFLUENCE. Yale: Yale University Press, 2008.

GILES, Gregory F. Continuity and Change in Israel’s Strategic Culture. In: JOHNSON, Jeannie L.; KARTCHNER, Kerry M.; LARSEN, Jeffrey A. (ed.). Strategic Culture and Weapons of Mass Destruction: Culturally Based Insights Into Comparative National Security Policymaking. Nova York: Palgrave Macmillan, 2009. cap. 7, p. 97-117.