Brenna da Silva Dias 

acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Dona de papéis que mudaram a história da cinematografia brasileira, Zezé Motta ganhou reconhecimento nacional e internacional, tanto por seus papéis, quanto por seu ativismo em prol da igualdade e representatividade racial.

Maria José Motta nasceu em 27 de junho de 1944, porém registrada apenas meses mais tarde, em 5 de setembro de 1944, em Campos dos Goitacazes, no norte do Estado do Rio de Janeiro. Filha de uma estilista e músico, sua infância foi em um colégio interno e desde essa época já mostrava aptidão para as artes. Anos depois, já em 1956, ela retorna a morar com seus pais e, já em uma nova escola, teve sua primeira experiência com o teatro, foi como a mãe de Anne Frank em uma montagem amadora de ‘Terror e Miséria no Terceiro Reich’. Anos mais tarde ela recebe uma bolsa para cursar no “O tablado”, uma das escolas de atores mais importantes do Rio de Janeiro.

Sua estreia no teatro e na TV ocorreu ambas no mesmo ano, em 1968. Sua primeira peça foi “Roda Viva”, peça de Chico Buarque dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Já na TV foi na TV Tupi, na novela “Beto Rockfeller, devido seu desempenho, logo depois Zezé foi para Globo e atuou na trama A Patota’ (1972), de Maria Clara Machado, e ‘Supermanoela’ (1974), de Walther Negrão.

Em 1976, Zezé estreia no papel de Xica da Silva, o verdadeiro divisor de águas na sua carreira. A história da escrava que virou rainha no século 18 no Brasil, fez um enorme sucesso nacionalmente e internacionalmente, Zezé contou que com o sucesso da novela, foi convidada a divulgá-la em mais de 20 países. Apesar da fama que o papel trouxe, Zezé não ficou isenta do racismo da época, a atriz conta que após a escolha para interpretar o papel, uma revista publicou com o seguinte título “Quem passou no teste para Xica da Silva foi uma atriz feia, porém exuberante, Zezé Motta” (Revista Raça, 2022)

Em 1984, estreia a novela “Corpo a corpo” de Gilberto Braga, na trama, Zezé namorava o ator  Marcos Paulo, um homem branco, contudo parte do público recebeu mal a história de amor. A atriz revelou durante uma entrevista que recebeu inúmeros comentários maldosos e até mesmo agressivos

“Teve uma moça que disse que toda vez que o casal se beijava, ela mudava de canal porque não acreditava naquele amor e aquele gato apaixonado por aquela mulher, e aí aquelas, os adjetivos vêm teve um homem que chegou a ponto de dizer que não acreditava que o Marcos estava precisando tanto de dinheiro para passar por essa humilhação, teve um outro maluco que chegou ao ponto de dizer que se ele fosse funcionário da Globo e fosse obrigado a beijar na boca, ele lavaria boca com água sanitária todos os dias, então quer dizer, é uma doença o racismo. “

(Revista Raça, 2022)

Zezé nos anos 70 participou do  Movimento Negro Unificado (MNU) contra a discriminação racial, grupo fundado nos anos 1970 que se reunia de 15 em 15 dias para debater questões raciais. Em 1984 ela criou o  o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro, CIDAN, instituição que produziu um banco de dados no qual é possível encontrar artistas negros de diversas faixas etárias.

Ao analisar a vida de Zezé Motta, é possível relacionar a atriz, cantora e ativista ao conceito “Colonialidade do poder” do autor das Relações Internacionais Aníbal Quijano. Segundo Quijano, a estratificação social e o surgimento do conceito de “raça” surgiram como instrumentos de dominação social entre os grupos dominantes (colonizadores) aos grupos dominados (colonizados) a fim de promover fortes e intensas relações de produção e de capital nos períodos das colonizações.

Zezé atualmente está com sua vida de atriz pausada, um dos seus últimos trabalhos foi na novela da Globo, Salve-se quem puder (2020). Em 2021 ela lançou o single “o grito”.

REFERENCIAS

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade de Poder, eurocentrismo a América Latina, 2005.

Zezé Motta e o legado de Xica da Silva. Disponível em: <https://revistaraca.com.br/zeze-motta-e-o-legado-de-xica-da-silva-3/&gt;. Acesso em: 29 out. 2023.

Zezé Motta. Disponível em: <https://memoriaglobo.globo.com/perfil/zeze-motta/noticia/zeze-motta.ghtml&gt;. Acesso em: 29 out. 2023.