
Fabiana Barros, acadêmica do 4º semestre de Relações Internacionais
O passaporte musical dessa semana é sobre a icônica voz do continente africano que é símbolo da luta anti-apartheid na África do Sul, Miriam Makeba.
Popularmente conhecida como “Mama África”, Miriam Makeba nasceu no ano de 1932 em Joanesburgo na África do Sul e atingiu o público internacional levando consigo os ritmos das etnias africanas Xhosa e Zulu. Por ter crescido em Sophiatown, bairro de Joanesburgo segregado pelo apartheid, Makeba expõe criticamente nas suas músicas a experiência de viver sob o regime segregacionista (Augustyn, 2019).
Famosa pelas músicas “Pata Pata”, “The Click Song” e “Malaika” (Acervo África), e pela participação no documentário “Come Back Africa” lançado em 1959, Makeba atraiu o interesse do músico Henry Belafonte, ao qual ajudou a cantora a se estabelecer nos Estados Unidos e assim, continuar a trabalhar em suas obras (Augustyn, 2019).
Por conta das denúncias ao apartheid presentes em suas músicas e no documentário “Come Back Africa”, em 1960 Makeba foi proibida de regressar a África do Sul por se expressar contra o regime segregacionista, tendo suas músicas banidas do país e o próprio passaporte revogado, assim, vivendo em exílio por mais de 30 anos nos Estados Unidos e em Guiné (Correio Braziliense, 2008).
Em 1990, Miriam Makeba foi convidada a voltar à África do Sul pelo líder político e ativista sul africano Nelson Mandela, após o mesmo ter sido liberado da prisão prolongada, dessa maneira, a artista conseguiu performar em seu país de origem no ano de 1991, após passar 3 décadas exilada (Augustyn, 2019).
Infelizmente, Makeba faleceu em 2008 e deixou como legado a luta pela liberdade e equidade na África do Sul (Correio Braziliense, 2008). Sendo um símbolo de resistência, a artista se encaixa na Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais por repensar as relações entre colonizado e colonizador (Oliveira, 2017) que originaram o regime do apartheid na África do Sul.
O cientista político da área dos estudos pós-coloniais, Frantz Fanon (2005, p. 52 apud Oliveira, 2017) argumenta que o mundo ocidental colonial dividiu as pessoas entre as categorias de colono e colonizado, numa dinâmica a qual o colonizado se encontra submisso e é tratado como objeto em meio a sociedade racista. Isso exemplifica exatamente o regime de segregação racial implementado na África do Sul, onde pessoas negras e indígenas sul africanas eram discriminadas por um conjunto de regras, que privilegiavam apenas a população branca (Brasil de Fato, 2022).
Dessa forma, entende-se que Miriam Makeba foi e continua sendo relevante para o avanço do debate racial e para a resistência de minorias que foram e ainda são oprimidas por narrativas racistas.
REFERÊNCIAS
AUGUSTYN, A. Miriam Makeba | Biography, Songs, & Facts, 2019.
África do Sul presta última homenagem a Miriam Makeba. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2008/11/15/interna_mundo,48872/africa-do-sul-presta-ultima-homenagem-a-miriam-makeba.shtml>. Acesso em: 20 out. 2023.
Conheça o legado social de Nelson Mandela para a humanidade. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2022/12/05/conheca-o-legado-social-de-nelson-mandela-para-a-humanidade>.
Miriam Makeba – Acervo África. Disponível em: <https://acervoafrica.org.br/artistas/miriam-makeba/>.OLIVEIRA, P. H. S. DE. O pós-colonialismo nas relações internacionais: uma proposta para repensar teoria, estrutura e racionalidade no Sistema Internacional. Revista Liberato, v. 18, n. 30, p. 163–176, 21 dez. 2017.
