
Por Victória Silva Vidal, acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da Unama
Que as mudanças climáticas já são uma realidade global que transcendem os limites das fronteiras dos estados, isso é fato. Nesse sentido, faz-se necessário compreender como as catástrofes que acontecem por consequência da crise climática tendem a afetar os mais versados pontos das relações internacionais.
Deste modo, segundo a revista Nature Sustainability, “as mudanças climáticas continuam sendo uma das maiores ameaças ambientais à subsistência e ao bem-estar dos povos do pacifico”. Pode-se mencionar em específico, Tuvalu, a nação insular do pacifico, de cerca de 12 mil habitantes, onde devido ao aumento do nível do mar, pode ficar submersa até o final do século (BRAGA; LANZA, 2016) e que com a iminência de desaparecimento do território, a nação ganhou destaque na mídia global por declarar que se tornaria a primeira “nação digital” do mundo e por alguns pronunciamentos marcantes do seu ministro das relações exteriores.
Sob este viés, Tim Flannery, cientista Australiano e autor de “Os senhores do clima: como o homem está alterando as condições climáticas e o que isso significa para o futuro do planeta”, publicado em 2005, traz uma teoria que debate sobre os impactos das mudanças climáticas nas relações internacionais, elucidando sobre os desafios globais, diplomacia climática, vulnerabilidade e Justiça, entre outros temas.
Flannery constata em sua obra que as consequências das mudanças climáticas e emissões de gases do efeito estufa perpassam fronteiras, e que atinge todas as nações, independentemente de sua localização, tornando o problema um dilema a ser resolvido por todas as nações, se fazendo necessário ações coletivas e cooperações internacionais (FLANNERY, 2005).
Tim ressalta que a diplomacia climática é ponto chave neste dilema, sendo necessária para lidar com as mudanças climáticas. O autor referencia o acordo de Paris como um exemplo de ferramentas que são importantes para a coordenação dos países frente a crise climática, levando a uma cooperação para a redução dos efeitos estufa.
Por fim, um dos pontos mais importantes abordados pelo teórico, elucida sobre a vulnerabilidade das nações menores ou em desenvolvimento, onde os impactos da crise climática são mais sentidos por essas nações e sua população, mesmo que contribuam menos para a atual crise, do que as grandes nações (FLANNERY, 2005).
Nesse sentido, António Guterres, atual secretário geral da ONU, disse que o pequeno estado insular “está na fronteira extrema da emergência climática global”, isso se dá pelo aumento do nível do mar que leva a regiões mais baixas, como Tuvalu, a serem ameaçadas mais rapidamente. Na região, já ocorre um processo de deslocamento do povo Tuvaluano, fazendo crescer o número de refugiados do clima no mundo (JÚNIOR, 2007)
Alguns dos efeitos diretos para o País incluem a erosão costeira, inundações frequentes, contaminação da água doce e dano as infraestruturas. Por consequência dessas ameaças, o governo de Tuvalu tem feito apelos internacionais, participando ativamente dos fóruns internacionais e ressaltando a importância da contenção da crise climática.
Um dos pronunciamentos mais emblemáticos ocorreu em 2021, na COP 26, onde o ministro das relações exteriores de Tuvalu, Simon Kofe, fez seu pronunciamento em meio ao mar do país, para alertar sobre as consequências das mudanças climáticas, como também, em 2022, na COP 27, onde alegou que “desde a COP 26, o mundo não agiu, e então nos do pacifico tivemos que agir”, ações essas que incluem tornar tuvalu a primeira nação digitalizada no metaverso, preservando sua estrutura, cultura, entre outros aspectos.
Sob esta perspectiva, Tuvalu é um exemplo vívido de como as nações são impactadas diretamente pela crise climática e em como isso tem papel fundamental nas relações internacionais, como Flannery aborda em sua teoria. Assim como explicitado pelo autor, a preocupação pela sobrevivência de Tuvalu, reflete a necessidade de cooperação global, onde também se vê uma busca incansável da nação por uma diplomacia climática que resulte no enfrentamento das desigualdades entre as nações ao tratar das questões climáticas.
Tim, ao esclarecer que as mudanças climáticas não são apenas um problema ambiental, mas sim também uma questão de justiça e equidade entre as nações, tornou possível refletir isso no pequeno estado insular, a medida que a crise ambiental afeta desproporcionalmente os mais vulneráveis, trazendo transformações para o cenário das relações internacionais a medida que os estados devem lidar com uma ameaça global nova e vívida.
REFERÊNCIAS:
HON. minister Simon Kobe speaks tá COP27. Government of Tuvalu, 21 de novembro de 2022, seção: Department off foreign affairs. Disponivel em: https://dfa.gov.tv/index.php/2022/11/21/hon-minister-simon-kofe-speaks-at-cop27/
Vousdoukas, M.I., Athanasiou, P., Giardino, Al. Small Island Developing States under threat by rising seas even in a 1.5 °C warming world. Nature Sustainability. 9 de outubro de 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41893-023-01230-5
TAVARES, M. MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO LIMPO: Analise Através da ótica do Desenvolvimento sustentável. Dissertação- universidade Federal de Pernambuco. Recife, P. 29-35. 2013. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/12306/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Marcos%20de%20Arruda%20Filho.pdf
PAÍS que pode desaparecer com mudanças climáticas vai criar cópia no metaverso. Exame, 22 de novembro de 2023 às 10h58. Seção: Future of Money. Disponível em: https://exame.com/future-of-money/pais-que-pode-desaparecer-com-mudancas-climaticas-vai-criar-copia-no-metaverso/
BRAGA, P.; LANZA, F. Tuvaluanos Desassistidos globalmente em face Da mudança climática: documentos oficiais, direitos humanos e o “não futuro”? SCIELO, P. 139-150. Outubro de 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/xpx6Tvb5SnbTfGJLr6BsrRt/?lang=pt#
JÚNIOR, J. REFUGIADOS AMBIENTAIS: CASO TUVALU. Monografia- UNICEUB. Brasília, P. 33-34. 2007. Disponível em: https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/235/9342/1/20115868.pdf
FLANNERY, Tim. Os senhores do clima: como o homem está alterando as condições climáticas e o que isso significa para o futuro do planeta. Rio de Janeiro. Record, 2007.
