Railson Silva (acadêmico do 6º semestre de RI da UNAMA)
Inspirados pela filosofia francesa contemporânea, a vertente Pós-Moderna das Relações Internacionais surge para desafiar a construção positivista do conhecimento, assim, questionando os aspectos ontológicos e epistemológicos das teorias vigentes. Logo, o Pós-Modernismo conota-se como um movimento de desconstrução dos saberes e pressupostos históricos (SARFATI, 2005).
Nessa perspectiva, o teórico Richard Ashley é considerado um dos pensadores mais importantes da crítica pós-moderna das Relações Internacionais. Seus argumentos trazem fortes críticas quanto aos discursos dominantes. Conhecido por sua postura “do contra”, pois além de ter desenvolvido uma teoria alternativa, demonstra como as teorias tradicionais são dominadas por uma racionalidade instrumental, reproduzindo estruturas sociais hierárquicas e excludentes na política internacional (RESENDE, 2010).
Crítico do positivismo das teorias das Relações Internacionais (RI), Ashley (1986) toma o Estado, peça central da análise Realista e de outras correntes teóricas, como ponto de análise. Nas correntes mainstream, o Estado era tido como uma premissa não problemática, contudo, países não são unidades “naturais”, mas sim criações humanas. Dessa forma, segundo o teórico, é necessário levar em conta a construção do espaço geográfico internacional e as relações de poder que nortearam esse padrão.
Ashley, em seu artigo The poverty of neorealism (1986), sistematiza as críticas pós-modernista ao realismo estrutural, deixando claro que seu objetivo não é desafiar autores específicos da doutrina, mas sim o realismo como um todo. O autor afirma que, para os neorrealistas, o Estado caracteriza-se como uma estrutura coesa e inquestionável, porém, tomar o Estado como algo dado é deslegitimar suas transformações. Desse modo, Ashley, denuncia o Estado como construção histórica e contingente a especificidades, e não um dado natural. Sob esse viés, Rezende argumenta que:
“Sua proposta é desconstruir o discurso tradicional de RI, especialmente o conceito de soberania, para demonstrar como as dualidades expressas por esse conceito (interno/externo, cidadão/estrangeiro, ordem/desordem etc.)” não são naturais, lógicas, imutáveis, e sim historicamente contingentes” (RESENDE, 2010, p. 75).
Dessa maneira, Ashley enfatiza que o discurso da soberania apresenta os Estados como entidades sem origens ou passado. Nesse viés, conta como o campo das RI tenta esquecer que a gênese do Estado está ligada à própria origem do processo de formação do sistema internacional.
Em suma, a vertente pós-moderna das RI além de ser uma vertente totalmente crítica da teoria dominante, nos guia para uma análise mais minuciosa e detalhada, tentando estabelecer a genealogia do discurso dominante. Desse modo, Ashley é um imprescindível contribuinte no que concerne ao fato que as vertentes tradicionais são limitadas para lidar com questões que se encontram no presente, logo é necessário observar o sistema internacional como um prisma multifacetado, onde existe atuação dos mais diversos atores.
Referências:
ASHLEY, R. K. The poverty of neorealism. Nova York: Columbia University Press, 1986.
RESENDE, Erica Simone Almeida. SENHORAS, Elói Martins; CAMARGO, Julia Faria (orgs). A crítica pós-moderna/pós-estruturalista. Boa Vista: Editora da UFRR, 2010.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. Saraiva, 2005.
