
Matheus Castanho Virgulino, Internacionalista.
Os campos da diplomacia e da política externa, apesar de muitas vezes confundidos com a disciplina de Relações Internacionais em si, são apesar disso indissociáveis desta. Não se pode refletir acerta da arena internacional de maneira teórica e abstrata sem considerar-se acerca da sua materialização por meio da ação do Estado para com seus semelhantes. Henry Kissinger, uma das figuras mais emblemáticas da política internacional do século XX, simboliza esse dilema primordial da disciplina.
Nascido Heinz Alfred Kissinger em uma família de judeus alemães em 1923, mudou-se para os Estados Unidos em 1938 onde naturalizou-se como cidadão. Trabalhou como consultor de matérias de segurança para diversas administrações de presidentes até tornar-se Secretário de Estado nas administrações de Richard Nixon e Gerard Ford. Morreu no último dia 29 de novembro de 2023 aos 100 anos (BRITANNICA, 2023).
Como convém a uma figura tão emblemática das relações internacionais, Kissinger não é alguém que possa ser definido de forma simples. Para efeitos desta análise, convêm dividirmos Kissinger em duas figuras distintas e indissociáveis entre si. A primeira é a de Kissinger, o acadêmico de ciência política e diplomacia, uma atividade que se empenhou até o final de sua vida. A segunda é a de Kissinger, o estadista de política externa, cuja sombra ainda paira sobre os salões de Washington em ambos os partidos da casa dos representantes.
A singularidade da perspectiva de política externa de Kissinger pode ser simbolizada por duas figuras que receberam particular análise em seu trabalho: o chanceler austríaco Klemens von Metternich e o prussiano Otto von Bismarck.
Tal como Metternich, ele acreditava que a diplomacia era o principal instrumento para construir uma ordem internacional estável e duradoura. Tal como Bismarck, ele acreditava que a diplomacia deveria ser reforçada por uma posição favorável no equilíbrio de poder. Como diz o autor: “O teste de um estadista, então, é a sua capacidade de reconhecer a verdadeira relação de forças e de fazer com que esse conhecimento sirva os seus fins” (KISSINGER, 1957, p.325, tradução nossa).
Embora a diplomacia de um Estado deva equilibrar a sua posição com a dos seus pares para manter um estado de paz num princípio de igualdade jurídica, as preocupações da realpolitk fazem com que os Estados coloquem as suas próprias prioridades acima de outras considerações. Isto é o que Kissinger chamou de der Außenpolitik, ou, a primazia da política externa, uma vez que os estados procurariam rever numa perspectiva revolucionária uma ordem mundial que consideravam injusta, independentemente de questões de opinião pública ou moralidade (BUCHAN, 1974).
Isto significa que, embora Kissinger esteja principalmente associado à escola de pensamento realista na implementação de políticas e estratégias, ele pode ser identificado com uma posição idealista, pelo menos quando se trata de temas de ordem mundial, conforme elaborado por Ferguson (2015).
O idealismo de Kissinger é demonstrado na sua tese de doutoramento A World Restored (1957a), que se centra no assentamento pós-napoleônico forjado pelas ações de diplomatas distintos como Metternich e Castlereagh. O seu enfoque realista no equilíbrio de poder pode ser melhor visto no seu trabalho sobre política nuclear (1957b), onde até mesmo defende que os EUA deveriam ser capazes de travar uma guerra nuclear táctica limitada para dissuadir a expansão soviética. Ele acreditava que adotar abordagens maximalistas do realismo e do idealismo era contraproducente; em vez disso, uma área cinzenta deveria ser seguida. Como disse o autor: “A insistência em absolutos, quer na avaliação da provocação, quer na avaliação de possíveis soluções, é uma receita para a inanidade”. (KISSINGER, 1957b, p.429, tradução nossa).
Não se pode negar, contudo, que quando se trata de Kissinger, o estadista, as suas ações foram sem dúvida realistas na aplicação, mesmo que ele próprio as tenha imaginado com alusões idealistas. O papel de Kissinger como secretário de Estado simbolizou o auge do subterfúgio americano e do descaso pelos seus princípios quando se trata de política externa. A sua influência na política americana fez com que, como disse Buchan (1974), os anos Nixon pudessem ser melhor descritos como os anos Kissinger.
A sua estratégia externa procurava manter a todo custo a posição americana face à URSS. Mesmo que houvesse um estado de distensão com os soviéticos, este precisava de ser alcançado de forma a que os EUA mantivessem a balança de poder, especialmente quando se tratava da Ásia e da América Latina. Como tal, iniciou o processo de normalização dos laços com a China comunista após a ruptura sino-soviética e trouxe o país de volta à comunidade internacional, um processo que precedeu a relativa liberalização chinesa do início dos anos 80.
Os seus maiores crimes provêm das suas políticas indo-pacíficas e latino-americanas. Apoiou o golpe de Estado no Chile contra Salvador Allende em 1973, que levou a quase 20 anos de ditadura brutal sob o general Augusto Pinochet. Começou uma campanha de bombardeamento massivo no Camboja, que deixou dezenas de milhares de mortos e permitiu a ascensão do regime genocida de Pol Pot, tudo num esforço para pressionar as negociações sobre o Vietnã para termos mais favoráveis (LEVERING, 2016). E consentiu com genocídios em Bangladesh e em Timor para preservar a influência americana no Paquistão e na Indonésia, que eram os países agressores.
A queda de Nixon durante o seu mandato devido ao escândalo Watergate demonstra como um governo que desconsidera a moralidade no exterior também o fará em casa. Kissinger, ao contrário de Nixon, nunca sofreu as consequências das suas ações, ganhando até mesmo um Prémio Nobel da Paz em 1973. Ele ainda influenciou vários presidentes americanos, de Reagan a Clinton e George Bush, mesmo que alguns, como os antigos presidentes Obama e Bush pai, tivessem uma aversão especial por ele (GREEN, BENNETT, 2023).
Mesmo com a sua morte e o esforço de algumas administrações americanas para se distanciarem dele, o fantasma de Kissinger ainda assombrará a política externa dos Estados Unidos. As suas ações servem como um alerta sobre o que acontece quando o realismo e suas falhas são levados à sua conclusão natural e a perseguição de objetivos nacionais equivocados eclipsa o humanismo na política externa.
REFERÊNCIAS:
BRITANNICA, Encyclopaedia. HENRY KISSINGER. Encyclopaedia Britannica, 2023. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Henry-Kissinger acesso em 03 de Dezembro de 2023.
BUCHAN, Alastair. The Irony of Henry Kissinger. International Affairs, [s. l.], v. 50, ed. 3, p. 367-379, Julho 1974.
FERGUSON, Niall. The Meaning of Kissinger: A Realist Reconsidered. Foreign Affairs, [s. l.], v. 94, ed. 5, p. 134-138, 139-143, Setembro/Outubro 2015.
GREEN, Erica L.; BENNETT, Kitty. Kissinger Had the Ear of Presidents. He Had Their Awe and Ire, Too. New York Times, 2023. Disponível em: https://www.nytimes.com/2023/11/30/us/politics/kissinger-biden-trump-nixon-presidents.html acesso em 03 de Dezembro de 2023.
KISSINGER, Henry. A World Restored: Metternich, Castlereagh and the problems of peace, 1812-22. Boston: Riverside Press, 1957a.
KISSINGER, Henry. Nuclear Weapons and Foreign Policy. New York: Harper & Brothers, 1957b.
LEVERING, Ralph B. The Cold War: A Post-Cold War History. West Sussex: Wiley Blackwell, 2016.
