Juliany Vidal, acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

As mídias tradicionais são os veículos de comunicação responsáveis pela disseminação de informações, notícias e entretenimento. Compreende-se como mídias tradicionais a televisão, o rádio, os jornais, as revistas e entre outros tipos de imprensa que conquistaram imensa popularidade ao longo do tempo e que hoje se fazem presentes no cotidiano da população.

Entretanto, conforme explica Barros (2018), a operação dessas mídias tradicionais “encontra-se em um panorama histórico de concentração de propriedade e, logicamente, de poder nas mãos de poucos atores”. Dessa maneira, entende-se que a atividade midiática brasileira se encontra majoritariamente em função da iniciativa privada das empresas dos meios de comunicação.

Nesse contexto, é perceptível que a disseminação de informações fica a cargo dos interesses do mercado, que direcionam as discussões acerca de pautas específicas para construir determinada pauta política-ideológica ao interesse da classe dominante, transmitindo uma mensagem de convencimento que almeja atender aos mais variados fins, como apoiar ou contrapor um governo vigente, por exemplo.

À luz do pensamento teórico de Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo italiano neomarxista, é possível analisar o fenômeno descrito acima a partir do conceito de hegemonia. Para Gramsci, a hegemonia é o meio de dominação pelo qual a classe dominante utiliza a coerção e o consentimento para a manutenção de seu poder.

A coerção se caracteriza pelo uso da força e da repressão estatal de um Estado controlado pela classe dominante e que portanto, vai garantir a hegemonia desta classe. Por outro lado, o consentimento acontece por meio da ação de instituições como a grande mídia, que manipula os indivíduos, interiorizando ideologias hegemônicas.

Assim, é através do consentimento que as grandes mídias tradicionais atuam na promoção de seus interesses, utilizando-se muitas vezes de narrativas que eclipsam a verdade. Ou seja, “trata-se de regular a opinião social através de critérios exclusivos de agendamento dos temas que merecem ênfase, incorporação, esvaziamento ou extinção” (MORAES, 2010).

Nesse sentido, faz-se necessário a presença das mídias alternativas, que por sua vez utilizam rádios comunitárias, jornais populares e, principalmente a Internet, por meio de sites, portais, jornais e agências de notícias digitais (GÓES, 2007). Desse modo, o principal propósito desse meio de comunicação alternativo é desconstruir as narrativas hegemônicas propagadas pelas mídias tradicionais em prol das classes dominantes, Segundo Barros (2018).

“É de fundamental importância a utilização do espectro digital midiático na busca de informações e notícias sobre outros vieses, fora da caixa hegemônica e comercial em que os veículos de informação do Brasil se revestem, a fim de construir uma consciência crítica e reflexiva mais comprometida com os ideais coletivos e públicos, em detrimento a interesses puramente pessoais, privados ou economicamente comerciais.” (BARROS, 2018).

Portanto, enquanto a tendência das mídias tradicionais é privilegiar o poder, as mídias alternativas atuam sob uma perspectiva que não prioriza o lucro, mas sim as reais demandas de cidadãos marginalizados e oprimidos pela hegemonia, assumindo a função de instrumento de resistência da sociedade civil.

Referências:

BARROS, Bruno Mello Correa De. AS NOVAS MÍDIAS COMO INSTRUMENTOS DE RESISTÊNCIA AO CONTROLE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL: um olhar para os meios de comunicação e a luta pela democratização. Revista interdisciplinar de Sociologia e Direito, 2018. Disponível em: https://periodicos.uff.br/confluencias/article/view/34548. Acesso em: 05 dez. 2023.

GÓES, Laércio Torres De. Contra-hegemonia e Internet: Gramsci e a Mídia Alternativa dos Movimentos Sociais na Web. Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-line, 2007. Disponível em: https://facom.ufba.br/jol/pdf/2007_Laercio_Contra-hegemonia%20e%20Internet%20-%20Laercio%20Goes.pdf. Acesso em: 05 dez. 2023

MORAES, Dênis De. COMUNICAÇÃO, HEGEMONIA E CONTRA-HEGEMONIA: A CONTRIBUIÇÃO TEÓRICA DE GRAMSCI. Revista Debates, 2010. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/debates/article/view/12420/8298. Acesso em: 05 dez. 2023.

PANSARDI, Marcos Vinícius. Uma teoria da hegemonia mundial: Gramsci como teórico das relações internacionais. IFCH Unicamp, 2014. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo2015_11_09_16_30_2056.pdf. Acesso em: 05 dez. 2023.