Thaís Carvalho, acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais

Desde o surgimento da Internet durante a Guerra Fria, a qual foi criada inicialmente como uma ferramenta do governo norte-americano para conectar o Pentágono com diversos centros acadêmicos, de modo a coletar dados e informações relevantes durante tal período, houve o ampliamento massivo das redes de comunicações para os mais diversos sujeitos, desde criadores de conteúdos digitais, celebridades e até os atores internacionais, estatais e não-estatais, possibilitando assim uma maior aproximação com a comunidade internacional através da expansão do diálogo entre os Estados e a Sociedade Civil (Nunes, 2021).

Nesse sentido, a atuação da diplomacia tradicional encontrou o avanço das novas tecnologias de comunicação e da informação (TIC’s) como um empecilho na diplomacia tradicional, o que influenciou intimamente as discussões e debates internacionais, e por isso, como um modo de alcançar novas ferramentas que possibilitem o alcance dos objetivos de uma nação, houve o surgimento da Diplomacia Digital como uma ferramenta da diplomacia pública. Assim, a Diplomacia Digital possibilitou uma maior aproximação da sociedade civil com os interesses dos países, além de ser utilizado também para a promoção da imagem e difusão de informações rápidas e eficientes de um país no mundo (Fonseca, 2023).

Por isso, diversos atores internacionais, tais como Estados, Organizações Não-Governamentais e Organizações Internacionais, passaram a utilizar a Diplomacia Digital, principalmente nas redes sociais, canais estes que possibilitam a comunicação direta de seus objetivos e interesses com a população, podendo gerar, assim, um diálogo e/ou apoio em massa em certos debates. Atualmente, as redes sociais tornaram-se umas das principais vias para debates de questões internacionais, podendo-se perceber tal fato no compartilhamento imediato de informações, imagens e vídeos de conflitos vigentes como o embate armado entre Israel e a Palestina, as crises migratórias e a Guerra da Ucrânia.

Essa constante exposição de informações imediatistas de conflitos e posicionamentos sócio-político de autoridades públicas e celebridades nas redes sociais expõem o modo como tais canais tornaram-se instrumentos de guerra, pois além de gerar uma comoção e massificação da opinião pública em relação a alguma temática – o que pode gerar influências em certos conflitos-, há a utilização de plataformas de mídias sociais como ferramenta da Diplomacia Digital para o alcance dos interesses diplomáticos de uma nação, multiplicando potencialmente o Soft Power de um Estado no Sistema Internacional.

Pode-se citar como exemplo da influência da Diplomacia Digital no cenário internacional, a campanha diplomática realizada pelo Ministério de Relações Exteriores de Israel, em 2021, cujo propósito era “treinar” criadores de conteúdos e influenciadores digitais israelenses para que pudessem ser os “embaixadores das redes sociais do país”, de modo a responder críticas comuns direcionadas a Israel (Diplomacia Business, 2021). Desse modo, percebe-se como a diplomacia se adaptou e buscou alternativas para envolver outros países e alcançar os objetivos das nações através da influência da opinião pública global.

Nesse sentido, analisando a utilização das redes sociais como instrumento da Diplomacia Digital através da Teoria Crítica das relações internacionais, cuja principal percepção é que o sistema internacional é o produto já existente de uma construção social e histórica. Assim, a teoria propõe mudanças nas relações internacionais por meio da desconstrução da noção amplamente difundida pelas teorias mainstream de cientificidade ao redor de um cenário internacional pré-estabelecido por normas e leis (Castro, 2016).

Segundo o teórico crítico Robert W. Cox em seu seminal artigo Social forces, states and world orders (1981), a ordem internacional seria uma construção histórica, sendo possível visualizar através do papel desempenhado pelas ideias, que juntamente com as instituições internacionais e capacidades materiais possuem na composição do processo de construção histórico. Desse modo, o autor destaca como o advento da Internet e os meios de comunicação influenciam ativamente no processo de globalização, consequentemente no surgimento da Diplomacia Digital e o seu uso através das redes sociais, possibilitando assim uma maior massificação da opinião pública global em diversas discussões (Burgos Castillo, 2018).

Por fim, é inegável a influência que as redes sociais possuem na atual sociedade, cujo seu cerne está intimamente ligado com as novas tecnologia de informação e de comunicação, e devido a grande relevância que possui atualmente, tais canais de comunicação passaram a se tornar um instrumento fundamental de guerra e da diplomacia digital dos países, sendo extremamente relevante para alcançar os objetivos diplomáticos dos Estados no cenário internacional.

Referências:

BURGOS CASTILLO, Orly Liselotte. Diplomacia digital: desafios da diplomacia pública diante das fake news. 2018. 25 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Relações Internacionais)—Universidade de Brasília, Brasília, 2018.

CASTRO, Thales. (2012). Teoria das Relações Internacionais. FUNAG. Brasília. 

FONSECA, M. Diplomacia Digital: A nova estratégia de influência chinesa entre 2013 e 2021. Tese (Mestrado em Relações Internacionais) – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade de Lisboa. Lisboa, p. 111. 2023.

ISRAEL está treinando influenciadores para uma campanha de diplomacia digital online. Diplomacia Business, 2021. Disponível em: <https://www.diplomaciabusiness.com/israel-esta-treinando-influenciadores-para-uma-campanha-de-diplomacia-digital-online/> . Acesso em: 21 de jan. de 2024

NUNES, M. A diplomacia digital e o uso das mídias sociais: uma análise da atuação do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do MERCOSUL. 2021. 19 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Relações Internacionais) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2021.