Brenna Dias, Gabriel Ferreira, Giovanni Corrêa e Sara Costa- acadêmicos do 7º semestre de RI da UNAMA.

A Teoria Feminista das Relações Internacionais, desenvolvida por Cynthia Enloe, serve como base para compreender como as estruturas patriarcais permeiam a dinâmica global. Na sua obra, “Bananas, Beaches and Bases” (1990), Enloe explora a militarização como enraizada nas construções de gênero. A análise abrange desde o papel das mulheres na economia de guerra até suas formas de resistência contra normas discriminatórias. Seguindo este conceito, é possível analisar a transformação no estilo das mulheres durante o período da Segunda Guerra Mundial, e o papel fundamental da mídia, em mudar o jeito e as formas em que as peças femininas foram feitas e usadas.

A dinâmica da Segunda Guerra Mundial teve um impacto significativo na sociedade, influenciando não apenas eventos históricos, mas também redefinindo as normas culturais, incluindo a moda feminina. Essa por sua vez não viu outra opção a não ser reinventar-se devido à escassez de matéria prima.  O “Cartão do Vestuário” em Paris, por exemplo, limitava a compra de tecidos, levando a uma criatividade forçada por parte dos profissionais da moda.

Em 1942, um manual de produção de vestuário civil foi aprovado para regulamentar critérios restritivospara a  moda,  limitando  o  uso  de  botões e bolsos, reduzindo costuras e bainhas e fixando até o número de pregas macho (duas) ou tombadas (quatro) para as saias. Todos os enfeites eram proibidos (MACKENZIE, 2010, p. 84).

Com os homens no front, as mulheres ocuparam espaços considerados masculinos, resultando em vestimentas mais práticas e utilitárias. Tal como, em 1942, onde houve a criação dos chamados “Siren Suits”, estes possuíam como funcionalidade facilitar a locomoção da mulher no momento em que soassem as sirenes por aviso antibomba (WALFORD, 2008). Contudo, vale ressaltar que essa adoção de um novo estilo, nãofoi aceita com tanta facilidade pelas mulheres.

Outrossim, cabe salientar que a mídia desempenhou um papel crucial na transformação da moda feminina durante e após a Segunda Guerra Mundial. As revistas, especialmente, tornaram-se veículos essenciais na disseminação de novos padrões de estilo, influenciando a percepção pública e moldando a identidade feminina. Hollywood e estrelas como Greta Garbo foram destacadas como referências de beleza e moda, impulsionando a adoção de novos estilos. (CALADO, 2006)

A propaganda, em grande parte proveniente dos Estados Unidos, promoveu uma estética que redefiniu os papéis de gênero, encorajando as mulheres a adotarem uma imagem mais prática e utilitária. A mídia tradicional, ao apresentar modelos e tendências, não apenas refletiu as mudanças sociais, mas também desempenhou um papel ativo na construção de uma nova narrativa sobre a feminilidade.

Esse fenômeno destacou a capacidade da mídia em influenciar comportamentos e normas culturais, transformando a moda em um espetáculo cultural.(MOREIRA, 2009) Ao conectar as mulheres com novas ideias e estilos, a mídia contribuiu para a redefinição dos papéis de gênero, desafiando as normas patriarcais e promovendo uma sociedade mais equitativa.

Como já citado, a Teoria feminista das R.I de Cynthia Enloe, serve para compreender como as bases patriarcais influenciam e permeiam as dinâmicas do sistema internacional. Analisando a teoria no contexto da Segunda Guerra Mundial, principalmente focado na moda feminina, é possível analisar que a guerra reforçou os estereótipos de gênero, relegando as mulheres a papéis secundários na economia de guerra e promovendo uma “masculinidade militarizada”. Também é possível analisar sob um outro olhar, o papel das mulheres na resistência, ao  desafiarem as normas estabelecidas, o que contribuiu para mudanças culturais e institucionais que seguem até a atualidade.

Portanto, a análise da teoria de Cynthia Enloe, juntamente à dinâmica da Segunda Guerra Mundial e ao impacto da mídia no pós-guerra, trouxe várias influências que moldaram a moda feminina e os padrões de gênero da época. A guerra emergiu como um catalisador de mudanças, levando as mulheres a redefinirem seus papéis e a moda a adaptar-se à escassez, refletindo não apenas a novos ideais e correntes de pensamento, mas também empoderamento feminino. A mídia tradicional desempenhou um papel crucial na disseminação dessas mudanças, consolidando uma nova identidade feminina pós-guerra. A interconexão entre esses elementos destaca como as estruturas patriarcais são influenciadas e perpetuadas por eventos históricos, impactando a moda e sendo amplamente difundidas pela mídia

REFERÊNCIAS

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DECHI, Diego Ruan. MENEZES, Leonardo Pereira. Moda e as Interferências da Guerra e da Mídia. ENCITEC. 2015. Disponível em: https://www2.fag.edu.br/coopex/inscricao/arquivos/encitec/20151027-171131_arquivo.pdf

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Belmont, Calif.: California University Press, 2014.

GHISE, VINICIUS. Marshal McLuhan – O Meio é a mensagem – Uma análise do tema. VINICIUS GHISE, 2023. Disponivel em: https://viniciusghise.com.br/blog/marshall-mcluhan-o-meio-e-a-mensagem/

ILVEIRA, L. P. da; SCHNEID, F. H. A versatilidade da roupa feminina e a luta diária da mulher durante a segunda guerra mundial. Revista Poliedro, Pelotas, Brasil. Disponível em: https://periodicos.ifsul.edu.br/index.php/poliedro/article/view/753

KNOPP, Glauco. A Influência da Mídia e da Indústria da Beleza na Cultura da Corpolatria e na Moral da Aparência na Sociedade Contemporânea. IV ENECULT. Disponível em: https://www.cult.ufba.br/enecult2008/14415.pdf

MACKENZIE, M. Ismos: para entender a moda.  Mairi Mackenzie;Tradução Christiano Sensi. – São Paulo: Editora Globo, 2010

MOREIRA, Bruna. NICHELLE, Keila. A Mídia Enquanto Potencializador da Moda Espetáculo. 2009. Disponível em: http://www.coloquiomoda.com.br/anais/Coloquio%20de%20Moda%20-%202010/68996_A_midia_enquanto_potencializador_da_moda_espetaculo.pdf

STEVENSON, NJ. Cronologia da Moda: de Maria Antonieta a Alexander McQueen / NJ Stevenson; Tradução Maria Luiza

TAYLOR, Kerry. Moda Vintage e Alta Costura. Publifolha. 2015.

VEILLON, Dominique. Moda e Guerra: um retrato da França ocupada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2012.

WALFORD, Jonathan. Forties Fashion: from Siren Suits to the New Look. London, Thames and Hudson, 2008. Tradução Carla Kotolák.