
Julia Castro, acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 1987
Diretor (a): Stanley Kubrick
Distribuição: Warner Bros Pictures
Gênero: Guerra, Drama
Países de Origem: Estados Unidos e Reino Unido
Dividido em duas partes distintas, o filme segue um grupo de recrutas sendo treinados de forma rígida e desumana em uma base de treinamentos dos EUA por um sargento linha-dura, que tem o intuito de transformá-los em máquinas de guerra para combater na Guerra do Vietnã e sobreviver sob quaisquer circunstâncias. É considerado um dos melhores filmes sobre a Guerra do Vietnã e foi nomeado ao Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado”.
A primeira parte é ambientada no Campo de Treinamento da Marinha da Carolina do Sul, em um pelotão de fuzileiros navais dos EUA. O instrutor de treinamento, sargento Hartman, impõe métodos rigorosos para transformar os recrutas em fuzileiros navais prontos para o combate. Entre os recrutas está Leonard Lawrence, que recebe o nome de “Pyle”, e J.T. Davis que recebe o nome de “Joker”. Quando Pyle mostra dificuldades para treinar, Hartman chama Joker para instruí-lo. Pyle começa a melhorar, mas após Hartman descobrir um lanche escondido em sua gaveta, ele adota uma política de punição coletiva para cada erro que o recruta cometer. A partir daí, Pyle muda seu comportamento e impressiona Hartman, mas preocupa Joker, que acredita que Pyle esteja com um transtorno mental depois de vê-lo conversando com seu rifle. A obsessão com seu rifle leva o soldado até as últimas consequências.
Na segunda parte, já ambientada no Vietnã, vemos o soldado Joker trabalhando para o jornal do exército americano, Stars and Stripes, com o parceiro “Rafterman”, um fotógrafo de combate. Durante a Ofensiva do Tet, quando a base de Joker sofre uma tentativa de ataque, ele vê a oportunidade de estar em um combate, e reencontra seu amigo, o soldado Cowboy. Joker acompanha o esquadrão durante a Batalha de Huế, onde o comandante do pelotão, “Touchdown”, é morto pelo inimigo. Os homens então cruzam um rio próximo e entram em combate com um inimigo não localizado, que mata diversos soldados. Joker acaba encontrando a sniper em um prédio e tenta matá-la, mas seu rifle trava na hora, então Rafterman acaba atirando. Depois, os sobreviventes voltam para a base cantando a Marcha do Mickey Mouse.
O longa-metragem explora os horrores da guerra e a desumanização de jovens no treinamento militar. Relacionando o filme com a teoria crítica das Relações Internacionais, no artigo “Agressividade em Sociedades Industriais Avançadas” de Herbert Marcuse, o autor afirma que a mobilização social mais visível da agressividade é a militarização e seu efeito sobre o comportamento mental dos indivíduos. Na medida em que a estrutura se torna agressiva, a estrutura mental de seus cidadãos muda e eles se tornam mais agressivos e mais submissos (MARCUSE, 2018). No filme, o treinamento vigoroso pretende transformar aqueles jovens em combatentes impiedosos, mas nem todos tinham psicológico para agüentar a pressão, como o recruta Pyle, que foi lentamente degenerado pelo ambiente hostil.
A própria guerra não levada a sério pelos soldados, ficando explícito durante a cena em que eles são entrevistados para a TV. Eles afirmam não saber o objetivo dos Estados Unidos ou o que estão fazendo no Vietnã, mas acreditam que o lugar deles é na guerra, devido à propaganda alienante do exército americano (“Estamos morrendo por eles”). Segundo Marcuse, a mobilização da agressividade vai muito além do projeto real de mão de obra e o crescimento da indústria armamentista, se manifestando na mídia de massa diária que alimenta a “opinião pública”. A brutalização dos noticiários e a apresentação de assassinatos e tortura infligidos a vítimas do massacre neocolonial são feitas em um estilo de senso-comum e factual, cuja consequência é uma habituação psicológica à guerra (MARCUSE, 2018).
Em conclusão, “Nascido Para Matar” traz uma abordagem mais realista e crítica sobre a Guerra do Vietnã, através de um viés pacifista e antimilitarista. Diferente da maioria dos filmes do gênero, o filme foca mais na visão do soldado perante a guerra e não na guerra perante o soldado, de forma mais dramática e cômica. É um filme necessário para que tenhamos idéias sobre os malefícios da guerra.
REFERÊNCIAS:
MARCUSE, Herbert. “Agressividade em sociedades industriais avançadas”. Trad. Inara Luisa Marin e Ricardo Crissiúma. Dossiê Herbert Marcuse, Parte 2 (Dissonância: Revista de Teoria Crítica, v. 2, n. 1. 2), p. 20-41, junho de 2018.
Nascido Para Matar. AdoroCinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-2749/
OLIVE, Douglas. Crítica | Nascido Para Matar. Vortex Cultural. 2019. Disponível em: https://vortexcultural.com.br/cinema/critica-nascido-para-matar/
SIQUEIRA, Roberto. NASCIDO PARA MATAR (1987). Cinema & Debate. 2010. Disponível em: https://cinemaedebate.com/2010/05/15/nascido-para-matar-1987/
