
Maysa Lisboa, acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais
O Passaporte Musical desta semana é sobre uma figura multifacetada que atua como cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical, político e escritor, Gilberto Gil. Reconhecido por sua influência na música e respeitado por seu papel como embaixador cultural do Brasil, promovendo abordagens inovadoras transcende fronteiras, impulsionando a diversidade cultural em escala global.
Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em 1942, em Salvador, Bahia, imerso em um ambiente musical desde a infância, começou a estudar e tocar acordeom com 9 anos, foi influenciado pela musicalidade do sertão brasileiro (Nova Brasil, 2023). Seu primeiro contato com apresentações ao vivo ocorreu durante a formação do conjunto instrumental “Os Desafinados”, enquanto cursava administração e organizava festivais e eventos musicais.
Na década de 1960, após se formar, Gil foi contratado pela Gessy-Lever (atual UNILEVER), para trabalhar em São Paulo. Em 1965, cantava no Bar Bossinha, às sextas e sábados e fazia algumas apresentações com Maria Bethânia, no Teatro Arena, resultando em músicas como Procissão (1965) e Roda (1965) (Ebiografia, 2021).
Em 1966, o artista deu início às suas apresentações na televisão no programa “O Fino da Bossa”, conduzido por Elis Regina e Jair Rodrigues, no mesmo ano lançou seu primeiro disco, “Louvação” , a sua música “Ensaio Geral”, interpretada por Elis Regina, alcançou a 5.º posição no II Festival de Música Popular Brasileira (FMPB), promovido pela TV Record (Ebiografia, 2021).
Nessa época, ele participou do movimento revolucionário conhecido como “Tropicália”, ao lado de figuras marcantes Caetano Veloso, Gal Costa, Torquato Neto, Rogério Duprat, Capinam, Tom Zé, e Os Mutantes. Esse movimento misturava elementos da música brasileira tradicional com influências da música pop e rock, visando internacionalizar a música, o cinema, as artes plásticas, o teatro e toda a arte brasileira.
Em 1968, o artista participou do Festival Internacional da Canção, com a música “Domingo no Parque”, em parceria com Caetano Veloso. Sua performance revolucionária, com Gil tocando guitarra elétrica, é lembrada como um marco histórico da música brasileira. Nesse momento, o Tropicalismo chegou ao seu auge e invadiu a cena cultural brasileira. No entanto, em 1969 devido ao “Ato Institucional nº 5”, durante a ditadura militar, o movimento Tropicalista enfrentou intensa censura e perseguição, restringindo as liberdades democráticas, de expressão e criativas (Nova Brasil, 2023).
Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e, logo depois exilados em Londres, porém antes de se exilar, Gil lançou seu terceiro álbum, incluindo a marcante faixa “Aquele Abraço”, escrita quando estava na prisão e representava um “bye bye” ao País. Esse tempo em londres ampliou suas influências musicais e novos estilos internacionais. Seu retorno ao Brasil ocorreu em 1972.
Durante esse período, percorreu as principais capitais do país com o espetáculo “Gilberto Gil: Em Concerto”, que durou dois anos e continha repertório de álbuns futuros, o primeiro álbum gravado após seu retorno foi “Expresso 2222”, é considerado seu último disco tropicalista, e inclui a música “Back in Bahia”, retratando a saudade. Enquanto estava em turnê, foi lançado o disco “Barra 69: Caetano e Gil ao Vivo na Bahia”, uma gravação do espetáculo feito pelos dois artistas em 1969, no Teatro Castro Alves , antes de partirem para o exílio.
A década de 70 foi marcante na carreira de Gil. Ao lado de Caetano, Gal e Maria Bethânia, ele sai em turnê intitulada “Os Doces Bárbaros”, que virou documentário em LP duplo ao vivo, considerado um fracasso na época, mas hoje é uma obra-prima. Durante a gravação da chamada trilogia Rê, formada pelos álbuns “Refazenda” (1975), “Refavela” (1977) e Realce (1979), todos obras extremamente relevantes. Além disso, participou do Festival de Montreux, na Suíça, acompanhado da banda A Cor do Som (Fundação Cultura Palmares, 2023).
As décadas seguintes consolidaram o nome de Gilberto Gil como um dos maiores compositores, instrumentistas e cantores da música popular brasileira. Com sucesso após sucesso, disco após disco, Gil multiplicou o número de fãs no Brasil e quanto no mundo (Fundação Cultura Palmares, 2023).
Na década de 80, mesmo gravando, fazendo shows e se envolvendo em causas sociais, Gil foi presidente da Fundação Gregório de Matos, dedicado à cultura afro-brasileira, intensificando a relação entre Bahia e África e também participou do projeto de recuperação do centro histórico de Salvador (Nova Brasil, 2023). Entre 1989 a 1992, foi vereador de Salvador, pelo Partido Verde, e em 1999 foi nomeado Artista da Paz pela UNESCO. Em 2003, tornou-se Ministro da Cultura, onde trabalhou para promover políticas culturais inclusivas e ampliar o acesso à cultura no Brasil, mas em 2008 deixou o cargo para se dedicar à carreira musical (Ebiografia, 2021).
Retornou à ativa, lançando álbuns como “Fé na Festa” (2010) e participando em turnês. Em 2018, Gil lançou o álbum “OK OK OK”, vencendo mais uma vez o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB. Manteve uma agenda de shows e participações em eventos culturais, continuando sendo ativo relevantemente na cena musical e cultural brasileira, contribuindo para a preservação e promoção da diversidade cultural.
A relevância de Gilberto Gil para as relações internacionais transcende a fusão de estilos musicais e colaborações internacionais, conforme a teoria da globalização cultural de Arjun Appadurai. Ao mesclar estilos musicais brasileiros com influências globais, Gil não apenas cria uma identidade cultural global, mas também se destaca como uma forma de resistência cultural em meio à homogeneização cultural.
Além disso, sua atuação como embaixador cultural, ao promover a diversidade e a riqueza da cultura brasileira em escala mundial, fortalece o papel da música na construção de pontes culturais e na promoção da compreensão mútua entre nações, contribuindo para um entendimento mais profundo entre diferentes culturas no cenário internacional.
Referências:
EBIOGRAFIA. Gilberto Gil. Disponível em: https://www.ebiografia.com/gilberto_gil/. Acesso em: 20 de fevereiro de 2024.
NOVA BRASIL FM. Gilberto Gil. Disponível em: https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/playlist/gilberto-gil-2/. Acesso em: 20 de fevereiro de 2024.
FUNDAÇÃO PALMARES. Personalidades negras 2013: Gilberto Gil. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/personalidades-negras-2013-gilberto-gil. Acesso em 21 de fevereiro de 2024.
SEGIB – SECRETARIA GERAL IBERO-AMERICANA. Gilberto Gil: a tecnologia transformada em cultura. Disponível em: https://www.segib.org/pt-br/gilberto-gil-a-tecnologia-transformada-em-cultura/. Acesso em: 21 de fevereiro de 2024.
APPADURAI, Arjun. Dimensões Culturais da Globalização – A modernidade sem peias. Mídia Cidadã. Disponível em: https://midiacidada.org/dimensoes-culturais-da-globalizacao-arjun-appadurai/. Acesso em: 22 de fevereiro de 2024.
