Maysa Lisboa, acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais

O Passaporte Musical desta semana é sobre uma figura proeminente no cenário do reggae, o músico e compositor jamaicano, Bob Marley. Embora seja mais conhecido por internacionalizar o gênero musical, sua influência também se estende a esferas culturais, sociais e políticas, influenciando positivamente a compreensão e interação entre diferentes partes do mundo com as suas músicas e mensagens de paz, amor, justiça social e resistência.

Robert Nesta Marley, filho de capitão do exército inglês branco e uma jovem negra jamaicana, nasceu em Saint Ann, zona rural do norte da Jamaica, no dia 06 de fevereiro de 1945. No entanto, apos o falecimento do pai, se mudou para uma comunidade humilde em Trench Town, no oeste de Kingston, onde cresceu sofrendo discriminação por ser considerado “pardo”. Sua carreira musical teve início em 1962, quando conheceu o empresário Leslie Kong ,que o ouviu cantar e o convidou para gravar seus primeiros singles “Judge Not”, “Terror” e “One More Cup of Coffee” , sem sucesso, recebendo apenas US$ 20,00, uma prática de exploração do negócio musical da Jamaica (Bob Marley, 2024).

Em 1963, ao praticar aulas de canto com seu amigo de infância Bunny Wailer, conheceram Peter Macintosh e iniciam o grupo vocal “The Wailers”, influenciados pelo ska e por uma mistura de sons africanos com o rhythm & blues (R&B),o grupo, que incluía outros membros como Junior Braithwaite, Beverly Kelso e Cherry Smith, por volta de 1968, em ritmo mais lento, originou o reggae, atraindo atenção local. Apresentados a Clement Sir Coxsone Dodd, fundador da gravadora jamaicana Studio One, gravaram o primeiro single, “Simmer Down”, e vários outros sucessos como “Rude Boy”, “I’m Still Waiting” e uma versão inicial de “One Love”, que a BBC designaria como a Canção do Século cerca de 35 anos depois (Bob Marley, 2024), porém desentendimentos contratuais e criativos sobre o material gravado, Marley, Tosh e Wailer decidiram deixar a gravadora.

Em 1966, Bob Marley casou-se com Rita Anderson e, após oito meses nos Estados Unidos, retornou para estabelecer o selo e loja de discos Wail’N Soul’M em Trench Town. Embora tenham falido em 1968, alguns singles de sucesso da banda foram lançados, como “Bend Down Low” e “Mellow Mood”, mas o sucesso começou ao unirem-se ao produtor Lee Perry, gravaram “Soul Rebel”, “400 Years” e “Small Axe”, com influência da crença “Rastafari” de origem africana. Na década de 1970, com a adição do baixista Aston Barrett e do baterista Carlton Barrett, a banda assinou contrato com a Island Records (1971) e lançaram o álbum “Catch a Fire” em 1973 (o primeiro álbum internacional), seguido por “Burnin”, incluindo as famosas músicas “Get Up, Stand Up” e “I Shot the Sheriff”, gravada por Eric Clapton (1974), cover que o levou ao topo da Billboard, tornando-se o hit número 1 nos EUA. A capa de Clapton impulsionou a visibilidade internacional de Bob Marley no mesmo ano em que Peter Tosh e Bunny Wailer deixaram o grupo (Ebiografia, 2023).

O sucesso internacional de Bob Marley teve marcos significativos com o terceiro álbum “Natty Dread” (1974), que introduziu “Bob Marley and The Wailers” e apresentou as I-Threes em substituição a Peter Tosh e Bunny Wailer. O álbum incluiu faixas notáveis como “No Woman, No Cry”. “Rastaman Vibration” (1976) impulsionou Marley ao estrelato global, liderando as paradas com hits como “Roots, Rock, Reggae” e abordando temas Rastafari, especialmente em “War”. Durante uma crise política e social na Jamaica, Marley organizou o concerto gratuito “Smile Jamaica” para promover a paz, mas sofreu um atentado dias antes, sendo ferido, mas ainda assim se apresentou para 80 mil pessoas. Refugiou-se em Londres, onde gravou “Exodus” (1977) e parte de “Kaya” (1978), que abordou o atentado de 1976. Marley retornou triunfante à Jamaica, promovendo a paz e recebendo a Medalha da Paz da ONU em 1978. De volta à Jamaica, organizou o “One Love Peace Concert”, destacado pelo histórico aperto de mãos entre os rivais políticos Michael Manley e Edward Seaga, recebendo a “Medalha da Paz” na sede da ONU em Nova Iorque(Bob Marley, 2024).

Em 1977, Bob Marley visitou a Etiópia, berço do movimento Rastafari. Em 1979, lançou “Survival”, abordando injustiças sociais nas faixas “So Much Trouble in the World” e “Ambush in the Night”, além de “Africa Unite”. Foi convidado para as celebrações da independência do Zimbabwe em 1980. Sua música foi crucial para a popularização global do reggae, tornando-o um dos ritmos mais apreciados. No auge de sua carreira, em 1977, Marley foi diagnosticado com câncer de pele, recusando tratamento por razões religiosas. No final de sua vida, converteu-se à Igreja Ortodoxa, mas faleceu em Miami em 11 de maio de 1981, aos 36 anos, vítima do câncer. Seu funeral recebeu honras de chefe de estado, e a data de seu nascimento é celebrada como feriado nacional na Jamaica (Ebiografia, 2023).

Bob Marley desempenhou um papel significativo nas relações internacionais, conectando-se à teoria da interdependência complexa proposta por Robert Keohane e Joseph Nye em “Poder e Interdependência”. Além das tradicionais esferas de poder político e militar, sua música tornou-se uma ferramenta poderosa que influenciou a consciência global e desafiou estruturas estabelecidas. A capacidade de unir pessoas através da música destaca a importância das dimensões culturais nas relações internacionais, promovendo interdependência e colaboração.

Suas canções e mensagem transcendem fronteiras, impactando esferas culturais, sociais e políticas. Sua busca por paz, justiça social e resistência à opressão cria uma interdependência global. Ao adotar suas músicas como hinos, movimentos sociais conectam pessoas de diferentes origens em torno de ideais comuns, sublinhando a relevância da interdependência complexa nas dinâmicas contemporâneas das relações entre nações.

Referências:

BOB MARLEY. History. Disponível em: https://www.bobmarley.com/history/. Acesso em: 01 de março de 2024.

CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: FUNAG – Fundação Alexandre de Gusmão, 2012. Disponível em: https://funag.gov.br/loja/download/931-Teoria_das_Relacoes_Internacionais.pdf. Acesso em: 02 de março de 2024.

EBIOGRAFIA. Bob Marley. Disponível em: https://www.ebiografia.com/bob_marley/. Acesso em: 02 de março de 2024.

KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Poder e Interdependência: A política mundial em transição. Disponível em: https://www.url.edu.gt/PortalURL/Biblioteca/Contenido.aspx?o=5244&s=49. Acesso em: 08 de março de 2024.

SANTOS, Priscilla Camargo. A Interdependência Complexa e a Questão dos Direitos Humanos no Contexto das Relações Internacionais. Revista de Direito, 2016. Disponível em: https://seer.atitus.edu.br/index.php/revistadedireito/article/view/1584/1052. Acesso em: 04 de março de 2024.