
Caio Farias Martins – 3°
Heitor Sena Passos – 7°
Rayana Yukari Fachinetti Inomato – Internacionalista
No ano de 2012, foi feita uma cúpula entre os membros do BRICS em Nova Déli, nesta ocasião, surgiu a ideia de obter um Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) ou conhecido como “Banco do BRICS”. Assim, após negociações entre os membros e a análise dos ministros de Finanças se era cabível a criação de um novo banco, o documento foi assinado pelos membros em 2014, concretizando a criação do NBD, tendo a sua sede em Xangai, na China.
O Banco do BRICS, atualmente no mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, obtém a cooperação internacional pelo desenvolvimento como um dos pilares fundamentais de sua existência e almeja esse fim por meio de financiamento para projetos de infraestrutura e assistência para outros países em volatilidade econômica (BATISTA JR, 2016).
Ademais, conforme Paulo Nogueira Batista Jr. (2016), ex-vice-presidente do banco, o NBD pretende se tornar um banco global e está aberto a todos os países membros da ONU, busca alcançar a cooperação internacional para o desenvolvimento de países emergentes e em desenvolvimento. Destarte, torna-se necessário compreender o funcionamento do sistema financeiro internacional e o mecanismo deste Banco recente, em comparação a bancos tradicionais como Banco Mundial, como desempenha um papel importante na promoção da cooperação internacional pelo desenvolvimento.
Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, o dólar assume um papel central na economia internacional. Sendo assim, como emissor da moeda de reserva internacional, os Estados Unidos dispõem de uma posição privilegiada no cerne do sistema financeiro internacional, algo que, em um mundo cada vez mais multipolar, torna-se cada vez mais contestado.
Sendo assim, no presente sistema financeiro internacional, os Estados Unidos ocupam o espaço de estabilizador hegemônico. Segundo Gilpin (2002), a instituição de uma ordem econômica liberal necessita de uma potência para a garantir, estabelecendo as normas do regime. Outrossim, esta potência hegemônica seria capaz de utilizar os mecanismos como “a interrupção ou ameaça de interrupção das relações comerciais, financeiras e tecnológicas” (GILPIN, 2002, p.96) sobre outros países.
Nesse sentido, a imposição de sanções econômicas tem se mostrado uma ferramenta recorrente na política externa americana contra países que se mostram contrários aos Estados Unidos. Recentemente, as sanções realizadas contra a Rússia, excluindo o país do sistema SWIFT e congelando as reservas internacionais do país são demonstrativas do poder que os EUA possuem sobre a economia internacional, não obstante, a economia russa, através de medidas como a diversificação de parceiros comerciais e o aumento do comércio realizado com moedas nacionais, especialmente com a China (Brasil de Fato, 2023), mostrou-se extremamente resiliente às pressões ocidentais.
O aumento de transações realizadas sem a utilização do dólar, no entanto, não é uma política que pertence estritamente à agenda de países com relações hostis aos EUA, uma vez que esta medida encontra-se cada vez mais difundida entre as economias emergentes.
Com isso, o NBD mostra-se uma instituição importante devido à sua política de incentivar o uso das moedas nacionais de seus membros tanto em transações comerciais quanto em empréstimos realizados pelo banco. Atualmente, o banco busca atingir a meta de conceder 30% de seus empréstimos utilizando moedas locais (Geopolitical Economy, 2023), passo importante para posicionar o bloco como uma alternativa ao sistema financeiro baseado na hegemonia do dólar.
Somado a isso, o bloco iniciou os estudos para a possível criação de uma moeda comum (CNN, 2024), medida que, caso implementada, pode vir a impulsionar ainda mais as transações realizadas entre membros do BRICS.
Ademais, segundo a ONU (2024), o atual sistema financeiro internacional representa um entrave para países que visam o desenvolvimento econômico. Apesar de o endividamento público ser medida necessária para possibilitar o financiamento de obras essenciais para o desenvolvimento econômico, países têm encontrado cada vez mais dificuldade em arcar com os elevados juros cobrados, o custo elevado tem comprometido o investimento em serviços públicos como saúde e educação, além de representar “um fluxo inverso de fundos dos países de baixo e médio rendimento para as nações mais ricas”(ONU, 2024).
Sendo assim, o Banco dos BRICS representa uma alternativa interessante para economias que necessitam de capital para financiar seu desenvolvimento mas têm dificuldades em arcar com os elevados custos dos empréstimos cobrados em instituições tradicionais como o Banco Mundial e o FMI, contribuindo para a crescente influência do bloco no sistema internacional.
Dessa forma, o Banco dos BRICS representa uma nova forma de “resistência” à maleabilidade do sistema financeiro internacional em relação ao dólar e aos Estados Unidos, além de uma base para as economias emergentes. Outrossim, se firma como a possibilidade de uma inter polaridade entre os países membros e de uma nova “era” para o desenvolvimento.
REFERÊNCIA:
BATISTA JR, Paulo Nogueira. Brics – Novo Banco de Desenvolvimento, 24 ago. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/tgkMkRXzKJqQ7P8b3LMj57L/?lang=pt#. Acesso em: 5 mar. 2024.
BRASIL DE FATO. Desdolarização: 95% do comércio entre China e Rússia já não passa pela moeda estadunidense, 17 dez. 2023. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2023/12/17/desdolarizacao-95-do-comercio-entre-china-e-russia-ja-nao-passa-pela-moeda-estadunidense. Acesso em: 9 mar. 2024.
CNN BRASIL. Lula confirma criação de uma moeda comum dos Brics para facilitar trocas comerciais. 24 ago. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/lula-confirma-criacao-de-uma-moeda-comum-do-brics-para-facilitar-trocas-comerciais/. Acesso em: 9 mar. 2024.
GEOPOLITICAL ECONOMY. BRICS Bank de-dollarizing, promises 30% of loans in local currencies, new chief Dilma Rousseff says. 15 abr. 2023. Disponível em: https://geopoliticaleconomy.com/2023/04/15/brics-bank-dollar-local-currencies-dilma/. Acesso em: 9 mar. 2024.
GILPIN, Robert. A economia política das Relações Internacionais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.
ONU. UNCTAD: Mundo fraturado em crise exige “ação imediata” do G20. 9 mar. 2024. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/262806-unctad-mundo-fraturado-em-crise-exige-%E2%80%9Ca%C3%A7%C3%A3o-imediata%E2%80%9D-do-g20. Acesso em: 10 mar. 2024.
