
Julia Castro, acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 1969
Diretor (a): Gillo Pontecorvo
Distribuição: United Artists
Gênero: Drama, Guerra, Histórico
País de Origem: Itália
Considerado um grande clássico do cinema e parcialmente inspirado na Independência do Haiti, o longa-metragem “Queimada” narra como um mercenário profissional foi enviado para instigar uma revolta de escravos em uma ilha caribenha, para ajudar a melhorar o comércio britânico de açúcar. Anos mais tarde, ele retorna a ilha para depor os mesmos rebeldes que ajudou, após eles tomarem tanto poder que ameaçaram os interesses açucareiros britânicos (ADOROCINEMA, 2024).
A trama inicia com o representante inglês Sir William Walker sendo chamado à ilha de Queimada, na região das Antilhas, para fomentar uma rebelião dos escravos contra o domínio português, em benefício dos comerciantes de açúcar britânicos. A ilha é povoada em sua maioria por africanos, que trabalhavam a serviço da coroa portuguesa nas plantações de cana-de-açúcar, principal atividade econômica da ilha. Walker conhece José Dolores e tenta convencê-lo a se tornar um líder revolucionário e induz os principais proprietários de terras a rejeitarem o domínio português. A revolução é bem sucedida, os portugueses são expulsos e os escravos negros libertos, mas o futuro das exportações de açúcar é incerto. Tendo completado sua missão, Walker retorna à Inglaterra (FUSER, 2019).
Dez anos depois, a Companhia de Açúcar manda Walker de volta a Queimada para pacificar a ilha, onde Dolores liderou uma nova revolta contra a influência britânica. As forças britânicas queimam as florestas para atrair os rebeldes. A tática apesar de bem-sucedida destrói a própria razão do interesse da Grã-Bretanha na ilha: o açúcar. Mesmo assim, o exército rebelde acaba sendo destruído e José Dolores é capturado e sentenciado a morte. Walker tenta salvar a vida de Dolores devido à sua antiga camaradagem, mas o líder rebelde rejeita sua ajuda, afirmando que a liberdade é conquistada, não recebida. Enquanto sai de Queimada, Walker acaba sendo apunhalado por um cidadão aleatório como vingança pela morte de Dolores (FUSER, 2019).
O filme nos faz refletir sobre como as potências imperialistas podem usar o povo de uma determinada nação como marionetes a serviço de seus interesses, portanto, podemos relacioná-lo com a teoria pós-colonial das Relações Internacionais. Colonialismo é o movimento de dominação de um povo sobre o outro a partir de uma relação que se encerrou, em determinado período histórico, com a independência dos países colonizados, e a colonialidade trata-se da perpetuação desse movimento que, mesmo com a independência dos países, ainda possui uma grande força de dominação sobre os povos que foram colonizados (MAIA & MELO, 2020). Quando José Dolores chega à capital à frente com seu exército, descobre que o poder está nas mãos da elite branca mesmo após a independência, sob a forma do trabalho assalariado.
Segundo Anibal Quijano, o conceito de raça foi o fator principal de legitimação da dominação dos colonizadores sobre os colonizados. A posterior constituição da Europa como nova identidade depois da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram à elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com ela à elaboração teórica da idéia de raça como naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não-europeus (QUIJANO, 2005). No filme, Walker convence os líderes negros que a conquista da liberdade não significa que teriam capacidade para governar. A burguesia branca assume o poder e os negros voltam às condições insalubres, com a substituição da opressão colonialista portuguesa pela exploração imperialista britânica.
Em síntese, a obra cinematográfica é de extrema importância para entendermos como funciona a manipulação dos países desenvolvidos sobre os subdesenvolvidos, que são constantemente usados como massa de manobra no tabuleiro do xadrez mundial, desde os tempos da colonização até os dias atuais.
REFERÊNCIAS:
ADORO CINEMA. Queimada! – Filme 1969. 2024. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-14313/criticas/espectadores/
FUSER, Igor. Queimada, a revolução em perpétuo movimento. Vermelho. 2019. Disponível em: https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/igor-fuser-queimada-a-revolucao-em-perpetuo-movimento/
MAIA, Bruna; MELO, Vico. A colonialidade do poder e suas subjetividades. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UFJF v. 15 n. 2 Julho. 2020
QUIJANO, Aníbal. “Colonialidade do poder, eurocetrismo e América Latina”. LANDER, Edgardo (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. CLACSO, Buenos Aires, Argentina. 2005.
