Railson Silva (acadêmico do 7º semestre de RI da UNAMA)

As preocupações relacionadas à paz e ao conflito têm raízes profundas na história humana e são exploradas por filósofos e pensadores como Platão, Tucídides, Hobbes e Kant. No entanto, foi apenas entre as décadas de 1930 e 1950 do século XX que a pesquisa científica sobre paz e guerra encontrou nas Relações Internacionais (RI) um meio de abordar o desejo de compreender as causas da conflitualidade e prever os meios para evitar o surgimento de novos conflitos armados (PUREZA e CRAVO, 2005)

Além disso, apenas após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é que os estudos sobre paz foram formalmente estabelecidos como um campo de investigação distinto. E posteriormente, os Estudos para a Paz, que historicamente se constituíram como uma vertente crítica e, portanto, alternativo à ciência tradicional das Relações Internacionais, foram, nos anos 90, incorporados pelas estruturas de regulação do sistema internacional. Dessa forma, serviram de base para muitas das opções implementadas, especialmente no contexto dos processos de reconstrução pós-guerra.

Em contraste com as visões mainstream no campo das Relações Internacionais (RI), os estudos para a paz não se limitam a ser apenas uma teoria ou abordagem; eles se configuram mais como uma missão intelectual dedicada ao estudo da paz na sociedade humana. Sua amplitude e complexidade transcendem, portanto, o escopo tradicional, adotando uma filosofia interdisciplinar e transdisciplinar que busca transcender as fronteiras disciplinares na compreensão da natureza humana, tomada de decisões, análise de conflitos e mudanças sociais não violentas, visando acabar com a violência e a dominação (XAVIER, 2023)

As pesquisas voltadas para a paz desempenham um papel central na consolidação de uma abordagem normativa da política internacional. Os estudos voltados para a resolução pacífica de conflitos devem muito à chamada escola norueguesa de Relações Internacionais, que está amplamente associada ao trabalho persistente da Universidade de Oslo, sendo um dos seus pilares mais importantes. Nesse contexto, destaca-se especialmente Johan Vincent Galtung, um renomado cientista político norueguês e fundador da disciplina de Estudos sobre a Paz e Conflitos.

Johan Galtung, um sociólogo norueguês, é uma figura proeminente no campo das Relações Internacionais. Ele que desenvolveu várias teorias e abordagens que influenciaram significativamente no estudo sobre a paz e no campo de RI. O autor nórdico identifica o triângulo da violência, ao qual faz corresponder o triângulo da paz. A distinção entre os três vértices é feita de acordo com os diferentes tempos:

“Violência Directa é um facto; a violência estrutural é um processo com altos e baixos; a violência cultural é uma invariância, uma permanência. […] As três formas de violência incluem o tempo de modo diferenciado, assemelhando-se, na teoria sísmica, à distinção entre um abalo sísmico como um facto, o movimento das placas tectónicas como um processo e a falha como uma condição mais permanente.” (Galtung, 1990: 294)

Dessa forma, Segundo Galtung (1996), a violência direta é caracterizada como o ato intencional de agressão; a violência estrutural (indireta) é resultante das próprias estruturas sociais entre indivíduos ou comunidades – como a repressão, em sua manifestação política, ou a exploração, em sua manifestação econômica; e por último, a violência cultural está intrinsecamente ligada à estrutural e à direta, constituindo o sistema de normas e comportamentos que socialmente legitimam as anteriores.

Com essa trilogia, Galtung expõe as dinâmicas globais de exploração, respondendo à crítica de que os Estudos para a Paz tradicionais estavam alinhados com a concepção predominante de poder e ampliando o escopo de sua pesquisa-ação, que antes se concentrava principalmente na relação estratégica entre as superpotências e na lógica da dissuasão (PUREZA e CRAVO, 2005). Além disso, a unidade de análise é expandida, passando a incluir, além do Estado-nação, as dinâmicas de classe e poder em níveis intraestatais e transnacionais – uma mudança significativa em relação ao paradigma dominante pós-1945.

Em suma, Johan Galtung é reconhecido como uma figura central no campo das Relações Internacionais devido à sua capacidade de desenvolver teorias inovadoras, aplicá-las na prática e deixar um legado duradouro que continua a influenciar a maneira como pensamos e lidamos com questões globais de paz e conflito. Além disso, ele introduziu conceitos importantes, como paz positiva e negativa, e violência estrutural. Sua influência se estende além da academia, com atividades práticas na mediação de conflitos em todo o mundo.

Referências:

GALTUNG, Johan (1990), “Cultural Violence”, Journal of Peace Research, 27(3), 291-305.

GALTUNG, Johan (1996), Peace by Peaceful Means: Peace and Conflict, Development and Civilization. London: Sage.

PUREZA, J. Manuel e CRAVO, Teresa. Margem crítica e legitimação nos estudos para a paz, Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 71 | 2005, Diponível em : http://journals.openedition.org/rccs/1011

XAVIER, Ana Isabel. Dos estudos para a paz e da guerra como expressão de interesses renovados nas relações internacionais. OBSERVARE. Universidade Autónoma de Lisboa, 2023. Disponível em: http://hdl.handle.net/11144/6478