Keity Oliveira e Lara Lima (acadêmicas do 7º semestre de RI da UNAMA)

Em diferentes momentos da história, foi muito intensa a tão sonhada ideia do progresso econômico. No entanto, o “mito” do progresso se constitui por discursos hegemônicos dominantes que ignoram as populações locais socialmente vulneráveis de uma determinada região. Ele funciona como um aparato ideológico que possui interesses referente a quem serve, quais são os riscos e os custos de natureza social, ambiental e de sobrevivência. É possível observar tal fato na chamada Belle Époque, nas capitais Belém e Manaus, consideradas até os dias atuais como referências na região amazônica, mas que sofreram devido a esse mito do progresso de crescimento econômico.


O período da Belle Époque francesa se insere, normalmente, entre o fim da segunda metade do século XIX e o começo do século XX, tendo seu auge nos anos de 1900 e terminando em 1914 com o início da Primeira Guerra Mundial. Apesar de Paris não ser vista como um exemplo máximo de desenvolvimento e tecnologia, ela continuou sendo considerada por muitos como a capital cultural do mundo, na qual se iniciou o período. O ponto inicial da Belle Époque para determinados estudiosos é no ano de 1871, quando a França e Alemanha assinam o Tratado de Frankfurt, o que permitiu um período de paz e desenvolvimento na Europa (Mércher, 2012).


O marco inicial da Belle Époque brasileira pode ser considerado o ano de 1889, com a Proclamação da República. No entanto, apenas com o governo de Campos Sales (1898-1902) e a sua reforma federalista que a elite brasileira moderna das principais cidades realmente iniciou sua formação. Percorrendo o início do século XX até a Semana de Arte Moderna de 1922, o período foi marcado pelo esforço recorrente das elites de se modernizarem perante ao restante dos países e com inspirações sobretudo francesas.


Souza (2008) argumenta que a implantação de um modelo civilizatório moderno tropeçava na carência de correspondência com uma identidade existente, em que a nova visão de mundo tentava dar vida a um mundo desejável, no entanto, essa perspectiva estava fora do alcance de boa parte da população brasileira.


Na Era ou Ciclo da Borracha, acontecido entre os anos de 1880 a 1910, Belém vivenciou um período de “Europeização” e uma íntima ligação com exterior por conta da Belle Época. Belém e Manaus, sobretudo a primeira, foram consideradas nesse período, as cidades brasileiras mais bem desenvolvidas uma das mais prósperas do mundo. Sendo uma cidade fruto do desenvolvimento e expansão do látex na Amazônia, a Belle Époque modificou significativamente a cidade de Belém que se tornou o principal porto de escoamento da produção da borracha, além de assumir o principal posto de vanguarda político-econômico-cultural da região (Rocha, 2013).


O boom da Borracha (como também é conhecido) está intimamente ligado não somente pelas transformações empreendias na região, mas também com a ligação direta com o nível de reprodução do capital e da acumulação de riquezas pela burguesia internacional.


O período deu início a modernização da capital paraense, sobretudo para adequar a cidade as transformações capitalistas da época, investindo capital e diversificando suas atividades, desse modo, engendrando todo um processo de readequação e urbanização da cidade como forma de facilitar o escoamento de produção e de divisas para os países em que Brasil mantinha relações (Rocha, 2013). 


As transformações decorrentes do ideário de ordem e progresso anteciparam expressivas mudanças na urbanização local, bem como nas formas de sociabilidade das elites e nos efeitos sobre as classes trabalhadoras em Belém (Machado, 2011).


As novas relações instauradas excluíram classes sociais marcantes da região e formaram novas classes: elitista, comerciante e marginalizada. A última, não foi criada no sentido de extermínio, mas de segregação espacial na própria capital que tinha, além de nordestinos, os caboclos e indígenas que se transformaram em “soldados da borracha” para atender o mercado internacional.


Uma das diferenças que se tornaram marcantes entre a capital Belém em relação a Manaus no período da Belle Époque foi o aumento considerável da população belenense. Isso constatou mais tarde que a cidade teve um índice de mazelas sociais mais fortes, resultado de seu crescimento populacional acelerado que não esteve ligado ao desenvolvimento estrutural da cidade, devido a falta de políticas públicas para essa população.


Em relação a cidade de Manaus, multiplicavam-se construções com inspirações em Europeias como itens estruturais, pontes, fontes ornamentais, bondes, casas de ferro, materiais elétricos e etc. No entanto, a Manaus da época era marcada por profundas desigualdades sociais que contrastavam com o urbanismo projetado para a região. O apogeu da economia da borracha se tornou o maior financiador dessa época de luxo e desenvolvimento urbanístico aos moldes europeus.


Diferente de Belém, o coeficiente populacional de Manaus crescia em proporções insignificantes. A base de manutenção econômica do seu contingente populacional era o extrativismo, agricultura e pesca, isto é, uma economia típica de subsistência (Costa e Lisboa, 2014). Essa característica resultou em um inchaço populacional, que combinado com a falta de planejamento territorial, trouxe a minimização e em alguns casos, a desapropriação de grupos étnicos nativos (Daou, 2000).


O “progresso” desapropriou o nativo, na medida em que houve as transformações estruturais e a padronização de bairros e o desaparecimento de rios e igarapés, seguindo uma lógica para satisfazer o modelo da classe burguesa. O conjunto de mudanças atenderia as demandas internacionais da economia gomífera e permitiria que estrangeiros – ingleses, norte-americanos e libaneses – chegassem à região em busca de empregos, vivendo em locais antes ocupados por igarapés e indígenas.


O fenômeno na cidade que se fazia propaganda por toda a Europa aos olhos dos estrangeiros que continha de um lado, uma categoria populacional que usufruía dos benefícios do progresso, de outro tinha uma população nativa sujeita a códigos de conduta e delimitação de seus territórios (Costa e Lisboa, 2014).


Depois do boom, as capitais da Amazônia passaram a seguir um molde europeizado, dotado de uma super-estruturação. No entanto, o “mito” progressista da Belle Époque atendeu a interesses de um grupo detentor do poder nas capitais, em detrimento da cultura e saberes locais amazônidas, atendendo uma lógica burguesa guiada por um modelo político capitalista que pode ser observado até os dias atuais nas regiões.


Os avanços defendidos pelos atores do progresso não refletiam as populações locais ou a deliberação de políticas sociais e qualidade de vida das populações, o que satisfez apenas os interesses expansionistas de grandes grupos econômicos. Nesse sentido, cabe destacar a reflexão de Almeida et al (2013, p. 3):


“(…) enquanto aumentava a população “civilizada”, os povos indígenas tiveram seus territórios diminuídos, seus membros dispersos, seu povo, muitas vezes, violentado e, de um modo geral, foram reduzidos pela “febre” extrativista da borracha.”


Portanto, o mito progressista da Belle Époque, trouxe consigo uma remodelação e redefinição da sociedade, esquecendo assim da cultura e saberes locais, atendendo a um molde burguês, conduzido por uma lógica político econômica capitalista. O modelo desenvolvimentista imposto não englobava a diversidade das regiões, como os povos tradicionais e até mesmo uma grande parte da população em si, apenas uma minoria se beneficiou, sendo estes os empresários e as elites políticas, o que corroborou para diversas consequências para as regiões, sentidas até os dias atuais.


Diante do tema exposto, recomendamos o documentário “70 anos de Brasil (Da belle époque aos nossos dias)”, (1974), dirigido por Jurandyr Passos Noronha, o documento narra os principais fatos históricos do século XX, e as mudanças no Brasil durante as primeiras sete décadas. A longa é uma mescla de montagem, trecho de antigos documentários e cinejornais sobre o período. O filme está disponível para ser assistido na plataforma de streaming AdoroCinema, através do link a seguir:


<https://www.adorocinema.com/filmes/filme-24392&gt;


Também recomendamos a leitura do livro “A belle époque amazônica”, (1999), escrito por Ana Maria Daou, aborda sobre a período áureo da riqueza da borracha (1880-1910), e discorre como as elites amazônicas adentraram a dinâmica do mercado mundial, e vivenciaram a belle époque no coração da floresta.  livro está disponível para ser adquirido na Amazon, através do link a seguir:


<https://a.co/d/9tSZJew&gt;


Outrossim, indicamos o trabalho feito por Michel Pinho, historiador, professor e gestor cultural que atuou como como Secretário de Cultura de Belém (Fumbel) entre 2020 e 2023. Formado em História pela UFPA e mestre em Comunicação, Cultura e Linguagens pela Unama, ele tem uma longa trajetória na educação e na promoção da cultura na capital paraense. Foi presidente da Fotoativa e do conselho do Patrimônio de Belém. Em 2023 recebeu o reconhecimento do governo do Estado do Pará pela atuação em defesa do Patrimônio cultural, a comenda Eneida de Moraes. Michel Pinho possui um blog online no qual posta seus principais trabalhos acerca de histórias sobre Belém. Para mais informações, acesse:


Blog Histórias de Belém: < https://historiadebelem.wordpress.com/ >


Instagram: < https://www.instagram.com/michelpinho/ >


X: < https://twitter.com/michelpinho?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor >


Por fim, evidencia-se o Museu de Arte de Belém (Mabe), localizado na cidade de Belém e que funciona no Palácio Antônio Lemos, sede da Prefeitura Municipal, aberto a visitações. O museu expõe o acervo histórico do período conhecido como a Belle Époque (1870-1910), marcado pelo boom da economia do látex na Amazônia


<https://fumbel.belem.pa.gov.br/espacos-culturais/museu-de-arte-de-belem-mabe/&gt;


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Larissa Christinne Melo de et al. Os Igarapés na Cidade de Manaus: uma dupla visão. Disponível em: < http://www.anppas.org.br/encontro6/anais/ARQUIVOS/GT14-948-806-20120630202318.pdf%3E > Acesso em: 15 de abril de 2024.


COSTA, Maycon Yuri Nascimento; LISBOA, João Santiago. Belle époque amazônica: a apropriação dos saberes nativos e o mito do progresso. Jusbrasil. 2014. Disponível em: < https://www.jusbrasil.com.br/artigos/belle-epoque-amazonica-a-apropriacao-dos-saberes-nativos-e-o-mito-do-progresso/112071426#:~:text=O%20mito%20progressita%20da%20Belle,dotado%20de%20uma%20super%2Destrutura%C3%A7%C3%A3o. > Acesso em: 15 de abril de 2024.


DAOU, A. M. A belle époque amazônica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.


MACHADO, Selma Suely Lopes. A Belle Époque Amazônica. Norte Ciência, Pa, v. 2, n. 1, p.115-118, 2011. Resenha de DAOU, Ana Mª. A Belle Époque Amazônica. (Descobrindo o Brasil). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


MÉRCHER, Leonardo. Belle Époque francesa: a percepção do novo feminino na joalheria Art Nouveau. VI Simpósio Nacional de História Cultural. Escritas da História: Ver – Sentir – Narrar. Teresina, 2012. Acesso em: 15 de abril de 2024.


ROCHA, William Monteiro. Relações internacionais em cidades amazônicas: atuação e inserção internacional de Belém e Manaus (1997-2012). 2013. 211 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Pará, Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, Belém, 2013. Disponível em: < https://repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/6214 > Acesso em: 15 de abril de 2024.


SOUZA, F. Gralha de. A Belle Époque carioca: imagens da modernidade na obra de Augusto Malta (1900-1920). 2008. 162 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora. 2008. Disponível em: < http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFJF_af6013da318fd989e75226a64f4ac2f9 > Acesso em: 15 de abril de 2024.