Por Ana Paula Praxedes, acadêmica do 3º semestre de Relações Internacionais na UNAMA.

Nascido em 8 de janeiro de 1947, em Brixton, Londres, David Robert Jones, conhecido artisticamente como David Bowie, ascendeu como uma figura seminal cuja influência artística transcendeu fronteiras temporais e espaciais. Desde seus anos formativos, Bowie exibiu uma afinidade pela expressão musical, nutrida em parte pela influência de seu meio-irmão mais velho, Terry, cuja introdução aos domínios da música rock e da literatura beat moldou as crescentes sensibilidades artísticas de Bowie. O impacto profundo da doença mental de Terry e seu subsequente suicídio em 1985 deixaram uma marca imutável na psique de Bowie, manifestando-se em composições como “Jump They Say”, que serviram como reflexos de angústia pessoal. A trajetória de Bowie teve início com incursões em diversos conjuntos musicais e empreendimentos experimentais, culminando na adoção da denominação “Bowie” como um catalisador para sua evolução artística em curso. (Biography, 2022)

Bowie emergiu como uma força transformadora no cenário musical das décadas de 1960 e 1970, desafiando normas e exercendo uma influência profunda sobre a trajetória da música popular. Seu single seminal “Space Oddity” em 1969 cativou audiências, sua ressonância amplificada ainda mais pela icônica cobertura da BBC do pouso na lua da Apollo 11. Álbuns marcantes como “The Man Who Sold the World” e “Hunky Dory” solidificaram a crescente estatura de Bowie como um artista visionário, com composições como “Changes” e “All the Madmen” servindo como testemunhos de sua multifacetada destreza artística. A metamorfose de Bowie no enigmático Ziggy Stardust representou um momento de virada em sua carreira, transcendendo as fronteiras da expressão musical para assumir uma significância cultural mais ampla. (Rolling Stone, s.d.)

Ao longo de sua carreira, Bowie conquistou uma variedade de prêmios e honrarias em reconhecimento às suas profundas contribuições para os domínios da música e do discurso cultural. Recebendo múltiplos prêmios Grammy, incluindo o prestigioso Grammy Lifetime Achievement Award concedido a ele em 2006, o legado duradouro de Bowie foi ainda mais consagrado com sua indução ao Rock and Roll Hall of Fame em 1996, destacando o impacto duradouro e a influência de Bowie em diversos domínios da produção cultural. Bowie não foi apenas um músico extraordinário– mas também um artista de múltiplas facetas, constantemente desafiando as convenções e reinventando sua própria imagem. (Biography, 2022)

Um dos personagens mais icônicos de Bowie foi Ziggy Stardust, uma entidade alienígena e andrógina que personificava o rockstar. Seu álbum conceitual “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (1972) acompanha a saga de Ziggy, um astro de rock andrógino que é enviado à Terra para salvar o planeta de um desastre apolítico. Apresentando hits como “Starman” e “Suffragette City”, este álbum não apenas solidificou a posição de Bowie como um pioneiro do glam rock, mas também desafiou as noções convencionais de gênero e sexualidade na música. Outro personagem marcante foi o Thin White Duke, apresentado no álbum “Station to Station” (1976). Com uma estética sombria e um tanto problemática, o Thin White Duke representou uma mudança radical em relação à extravagância de Ziggy Stardust. O álbum incorpora influências do funk e do soul, com faixas como “Golden Years” e a faixa-título “Station to Station”, refletindo a fascinação de Bowie pela cultura americana, além de suas próprias lutas pessoais. (Booth, 2016).

Dessa forma, é possível relacionar a carreira artística de Bowie com A Teoria Pós-moderna das Relações Internacionais. Jean Baudrillard, em sua obra Simulacros e Simulação (1981), argumenta que vivemos em uma era de simulacros, onde a realidade é substituída por representações simuladas. Os personagens de Bowie simbolizam tal ideia, assumindo identidades fictícias que são tão impactantes e reais quanto qualquer pessoa física. Com sua habilidade de criar personas e identidades artísticas diversificadas ao longo de sua carreira, Bowie personifica essa ideia de que as identidades são fluidas e podem ser construídas e desconstruídas conforme seja conveniente. (Baudrillard, 1981)

Sua metamorfose de Ziggy Stardust para o Thin White Duke exemplifica essa noção de que as identidades são mutáveis e não têm uma essência fixa. Zygmunt Bauman, em sua obra Modernidade Líquida (1999), argumenta que vivemos em uma era onde as estruturas e identidades sociais são fluidas e voláteis, dessa forma, o indivíduo é capaz de moldar a realidade de acordo com sua própria personalidade (BAUMAN, 1999). Bowie, ao longo de sua carreira, desafiou as convenções sociais e culturais, reinventando-se continuamente e desafiando as expectativas de seus fãs e da indústria da música. Sua capacidade de se adaptar e se reinventar reflete a fluidez e a volatilidade das identidades na era pós-moderna. Ao analisarmos a carreira de Bowie à luz dessas teorias, podemos ver que o artista incorporou os princípios da pós-modernidade ao desafiar as fronteiras convencionais e criar uma variedade de identidades artísticas. Sua habilidade em superar categorias e criar narrativas complexas e multifacetadas, ressoa com os conceitos de simulacros e fluidez identitária discutidos por Baudrillard e Bauman. Bowie não apenas influenciou a música, mas também desafiou noções de identidade e autenticidade, tornando-se um ícone cultural cuja influência transcendeu as fronteiras nacionais e temporais.

Dessa forma, ao analisar os álbuns associados a cada personagem de Bowie, percebe-se como sua arte não apenas desafiou convenções musicais, mas também explorou questões mais profundas de identidade, autenticidade e representação na era pós-moderna. Sua capacidade de criar e encarnar uma variedade de personas não apenas desafiou as expectativas da indústria da música, mas também abriu novos caminhos para a expressão artística e a compreensão da identidade na cultura contemporânea. A carreira de David Bowie é uma saga de reinvenção e criatividade que transcendeu os limites da música, desafiando convenções e moldando a cultura popular. Seus diversos personagens, como Ziggy Stardust e o Thin White Duke, não apenas refletiram os tempos em que vivia, mas também exploraram temas complexos de identidade e autenticidade. Bowie não se contentou em ser apenas um músico– foi um ícone cultural cuja influência se estendeu para além da indústria musical, inspirando gerações a abraçarem sua singularidade e a expressarem sua verdadeira essência. Seu legado é um testemunho da importância da diversidade, da criatividade e da autenticidade na indústria musical e no cenário artístico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

About – David Bowie. David Bowie, s.d. Disponível em: https://www.davidbowie.com/about. Acesso em: 27/04/24

BAUDRILLARD, J.; JOÃOM. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio Dþágua, 1991.

BOOTH, Susan E. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars – David Bowie (1972). Library of Congress, 2016.

David Bowie. RollingStone Magazine, s.d. Disponível em: https://www.rollingstone.com/t/david-bowie/. Acesso em: 27/04/24.

David Bowie. Biography, 24 de agosto de 2022. Disponível em: https://www.biography.com/musicians/david-bowie. Acesso em: 27/04/24

David Bowie Biography. Brian Hartzog, s.d. Disponível em: https://www.brianhartzog.com/david-bowie/david-bowie-biography.htm. Acesso em: 27/04/24

SCHOTT, Ricardo. Thin White Duke: A Persona Mais Bizarra de David Bowie. Pop Fantasma, 03 de agosto de 2018. Disponível em: https://popfantasma.com.br/thin-white-duke-bowie/. Acesso em: 27/04/24

ZYGMUNT BAUMAN; PLÍNIO DENTZIEN. Modernidade líquida. [s.l.] Rio De Janeiro, Jorge Zahar, 1999.