
VITÓRIA MAGNO – Acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama
Uma das redes sociais mais populares do mundo, o TikTok, lançado pela empresa chinesa ByteDance em 2017, acumula mais de um bilhão de usuários em todo o mundo, devido aos seus vídeos curtos e algoritmo eficaz. Essa ascensão levou a rede social a se tornar uma das marcas mais valiosas do mundo – a sétima, rivalizando e superando as concorrentes desse setor – como o Instagram e Facebook. Entretanto, o sucesso da plataforma levanta alertas entre diversos governos, levando à sua proibição em países como Índia, Afeganistão e Indonésia.
Nos Estados Unidos, onde mais de 170 milhões de pessoas estão ativas no aplicativo, a desconfiança uniu Republicanos e Democratas em relação à plataforma. Com isso, o projeto de lei que poderia banir a plataforma que surgiu ainda durante o governo de Donald Trump (2020), foi aprovada pelo Congresso de forma bipartidária e se tornou lei em 24 de abril de 2024, com a sanção do atual presidente Joe Biden – que também faz parte de um pacote de ajuda externa para Estados como Israel e Ucrânia (Natureza Nery, 2024).
Entender as razões por trás da desconfiança governamental em relação ao TikTok e como a China usa o aplicativo como ferramenta de soft power e Indústria Cultural é fundamental para entender as dinâmicas de poder entre os EUA e a tecnologia midiática chinesa.
Vale ressaltar, em primeira análise, à luz da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, especificamente o conceito de Indústria Cultural, que pode ser um lente importante para explicar essas dinâmicas de poder entre os EUA e a tecnologia chinesa. O conceito Indústria Cultural, abordado por Adorno e Horkheimer (1944) refere-se à massificação da cultura e à sua instrumentalização para manter, adquirir e impor ideologias dominantes das estruturas de poder existentes.
Ao fazer um paralelo com a análise de Adorno, é evidente que as empresas não apenas perpetuam ideias, mas também visam maximizar lucros. Esse fenômeno se entrelaça com o conceito de soft power, onde as empresas utilizam a cultura como ferramenta estratégica para influenciar percepções, alimentando a competição entre potências globais. Assim, essa dinâmica nos mostra a busca pelo controle da narrativa, seja ela econômica, política ou cultural.
Nesse contexto, o aplicativo, com sua capacidade de influenciar e moldar as percepções e comportamentos dos usuários, por intermédio de vídeos instantâneos curtos, pode ser visto como uma ferramenta de soft power da Indústria Cultural da China. Sob esse viés, a rede, ao fornecer uma plataforma para a disseminação de conteúdo, diversificado e modificado não apenas promove os interesses comerciais de várias empresas, mas também serve como veículo para difundir ideias e valores que podem ser favoráveis à construção da influência midiática.
Ademais, segundo o discurso do governo estadunidense, a plataforma corrobora preocupações sobre a segurança nacional, espionagem e a proteção de dados. Nessa perspectiva, o governo alega que o TikTok, de propriedade chinesa, poderia compartilhar dados privados dos usuários com o governo chinês, colocando em risco a segurança nacional e por isso aplicou um prazo de 9 meses (270 dias) para que a empresa venda a plataforma à um estadunidense para que continue as operações nos EUA .
Observando de acordo com os ideias do Realismo ofensivo do teórico J. Mearsheimer (2001), para a disputa pela hegemonia, o Estado tem que se potencializar ao máximo, para que as ações de outros Estados sejam barradas pelo poder já adquirido; ou seja, diminuir o poder de influência dos outros por meio da maximização do seu próprio poder hegemônico. Nessa lógica, mesmo que Mearsheimer afirme que nunca tenha existido uma hegemonia estatal, a China e os Estados Unidos, encontram-se em constante disputa por tal posição, seja ela, ao menos, no âmbito tecnológico. (Mearsheimer, 2001)
A ByteDance, por sua vez, em sua resposta oficial, negou qualquer intenção de vender o TikTok e anunciou uma ação para contestar a lei sancionada por Biden, alegando que tal medida vai de encontro aos princípios legais dos EUA. Com isso, verifica-se que a empresa busca proteger sua autonomia empresarial das pressões externas, mostrando as interações entre interesses corporativos e políticos na esfera da tecnologia no sistema internacional.
Em suma, embora os questionamentos sobre a segurança de dados dos usuários seja um assunto importante, o possível banimento do TikTok também pode ser visto como um exemplo de jogo geoestratégico político e protecionismo disfarçados de preocupações com a segurança nacional. Logo, percebe-se um exemplo claro de uma das dinâmicas de poder entre potências: o jogo na era da tecnologia midiática, até onde a influência da mídia pode adentrar na soberania de um Estado e quais os objetivos dos grandes embates da tecnologia em questão da hegemonia por meio da Indústria Cultural e Soft Power no sistema internacional.
Referências:
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
He, Laura. ByteDance faz 1º pronunciamento oficial e nega planos de vender o TikTok nos EUA, CNN BRASIL, Hong Kong, 26 de abril de 2024.Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/bytedance-faz-1o-pronunciamento-oficial-e-nega-planos-de-vender-o-tiktok-nos-eua/ Acesso em: 9 de maio 2024.
MEARSHEIMER, John. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
McMahon, Liv. Quanto tempo irá demorar para o TikTok ser banido dos EUA? 7 questões para entender nova lei, BBC NEWS Brasil, 24 de abril de 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw4d03nqqwyo.amp, Acesso em: 9 de maio 2024.
Natureza, Ney. 2024, Podcast, O Tiktok em apuros nos EUA, O Assunto, 25 de abril 2024. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/413axMSNaZbMXZ4AqsUo2K?si=6szSWJRAQN2V9ghTCYAt5A.
Stewart Neves Patriota Malta, N., de Almeida Silva, F. L., Dionísio de Freitas, M. J., & Pinheiro de Carvalho, M. (2023). INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: REFLEXÕES SOBRE AS RELAÇÕES EUA-CHINA E OS EPISÓDIOS SOBRE O 5G E O APLICATIVO TIKTOK. Revista Eletrônica Direito E Conhecimento, 1(5). Recuperado de https://revistas.cesmac.edu.br/dec/article/view/1483 (Original work published 16º de abril de 2023)
