
Antônio Vieira, acadêmico do 1° semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Gênero: Ação, Suspense
Duração: 1h 49min
Ano: 2024
Diretor (a): Alex Garland
Distribuição: Diamond Films
País de origem: EUA
O filme “Guerra Civil”, produzido pela A24, descrita como a “nova dona de Hollywood” (Omelete, 2023) e que conta com a participação do renomado ator brasileiro Wagner Moura em seu elenco principal, aborda a atuação e sobrevivência de jornalistas de guerra em um EUA distópico, marcado pela polarização política. A obra mergulha na análise da percepção das pessoas, como: jornalistas, moradores locais, e organizações armadas, diante desse cenário caótico.
O enredo se desenrola mostrando o caos da guerra civil norte-americana – que teve como motivo as decisões políticas do presidente vigente – aliada ao relato dos jornalistas de guerra: Lee Smith (Kirsten Dunst), que é fotojornalista, e Joel (Wagner Moura), um redator dono de uma personalidade descontraída. Posteriormente, é introduzido a jovem fotojornalista Jessie, que será um ponto forte para aprofundar a convivência dos personagens entre si e os impactos da guerra. Nesse sentido, sob o fim de viajar até Washington D.C para entrevistar e tirar foto do presidente, os jornalistas passam por diversos empecilhos sociais que desafiam o seu profissionalismo. A exemplo, a cena em que estes vão abastecer a gasolina do carro em um posto e são extorquidos por civis armados, os quais já haviam torturado duas pessoas.
Dessa maneira, conforme o filme avança, é ressaltado a busca pelo poder entre os cidadãos norte-americanos, que se encontram em um cenário onde a violência está totalmente banalizada. Os jornalistas documentam esses conflitos por meio de fotos e, futuramente, tornam-se vítimas de um deles. No mais, quando chegam à capital do País, eles lidam com uma realidade diferente da imaginada, agora, a vida do presidente corre o risco de acabar a qualquer momento. Porém, obstinados por diversos fatores, eles avançam envoltos na esperança de documentar o destino do chefe de Estado.
No mais, Guerra civil é objeto para reflexões riquíssimas, pois aborda temas como a dessensibilização jornalística perante a guerra; a crise de legitimidade política; e a busca pelo poder e sobrevivência na sociedade. No que diz respeito a falta de empatia dos jornalistas, temos a cena em que Lee Smith pede para um homem armado uma foto onde este deveria posar junto as suas vítimas, assim demonstrando a sua “imparcialidade” assustadora. Sobre a crise de legitimidade política, ela é a base para a guerra civil, uma vez que o grupo relatado no filme – forças ocidentais – não se sente representado pelas decisões políticas do Governo e se rebela. Nesse sentido, segundo o sociólogo espanhol Manuel Castells, “A força e a estabilidade das instituições dependem de sua vigência na mente das pessoas” (CASTELLS. 2018, p.14). Por fim, a constante luta pela sobrevivência e poder, tanto do Estado norte americano quanto pela sociedade americana, podem ser analisadas sob a ótica da Teoria Realista das Relações Internacionais, que busca estudar a relação entre a natureza humana com o poder, guerras, e ordem internacional.
Para o realista clássico, Maquiavel, em seu livro O Príncipe, os fins justificam os meios, e os líderes políticos não devem se aprisionar à moralidade, caso isso beneficie a sociedade (WEFFORT, 1993). Isso posto, é possível notar no filme esse conceito através do uso dos militares pelo Governo para assegurar a sua sobrevivência e a ordem nacional, mesmo ocorrendo a morte de civis durante o processo. Há um trecho do longa em que os jornalistas entram em uma loja e quando vão falar com a atendente percebem a tranquilidade da moça, que é questionada sobre o contexto caótico do País, ela responde: “segundo as notícias, é para ficar melhor”. Portanto, conclui-se que o ideal maquiavélico estatal é perpassado para a população, por meio da mídia, que o Estado soberano deve primeiro assegurar a sua ordem nacional para poder atingir a internacional. Aliado a isso, o teórico realista Hans Morgenthau, em seu 1º princípio realista das relações internacionais, afirma que, por conta de a natureza humana ser essencialmente competitiva, egoísta e faminta de poder, os Estados, por serem formados por indivíduos, vão fazer de tudo para garantir a sua sobrevivência, assim racionalizando a sua segurança por meio de leis objetivas, que evitam a geração de guerras (SARFATI, 2005).
“Guerra civil” é, no geral, um filme que vale a pena ser assistido, pois convida à reflexão sobre o jornalismo de guerra e seus desafios, assim como sobre a importância de um Estado saber gerenciar sua população por meio de políticas democráticas, logo, representativas. Em relação a parte técnica do filme, a obra possui uma fotografia impecável, atuações excepcionais, e ótimos efeitos especiais.
REFERÊNCIAS:
CASTELLS, Manuel. Ruptura: A crise da democracia liberal.Rio de janeiro: Zahar, 14 de junho de 2018.
Como a A24 dominou os cinemas?. Omelete, 2023. Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/como-a24-dominou-os-cinemas. Acesso em: 13 mai. 2024.
SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
WEFFORT, Francisco Corrêa. Os clássicos da política: Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, “o Federalista”. São Paulo: Ática, 1993.
