Alice Cardoso – 5º semestre 

Em 2015, 6 meses antes da conferencia sobre o clima em Paris, os líderes do G7 (EUA, Reino Unido, Canadá, Japão, França, Itália e Alemanha) se reuniram e chegaram a um acordo no qual, pela primeira vez, os mesmos se comprometeram a descarbonizar suas economias. O objetivo era o de reduzir gradativamente as emissões de CO2 e as emissões globais de gases de efeito estufa entre 40% e 70% até 2050, com base nos níveis medidos em 2010. Além disso, nessa reunião os países do G7 se comprometeram a agir individualmente para atingir uma economia global livre de carbono a longo prazo; e para tal firmaram a meta de transformar o setor de energia de seus países até 2050, diminuindo o consumo dos combustíveis fosseis (gás, petróleo e carvão) ao passo que aumentam a utilização das energias renováveis e não poluentes. (Biodieselbr, 2015)

Outra reunião do grupo, em 2021, para tratar diversos temas, resultou em uma nova declaração conjunta que ratificou e reforçou o compromisso de zerar as emissões de gases do efeito estufa até 2050, com redução coletiva de metade dos gases até 2030. Ainda nesta reunião os lideres ressaltaram a importância da cooperação internacional para a redução das emissões, neste sentindo foi anunciado que os países membros mobilizariam cerca de cem bilhões de dólares por ano, até 2025, para ajudar os países mais pobres e em desenvolvimento a obterem tecnologias energéticas mais limpas e sustentáveis e assim cumprir o seu papel neste projeto. Por fim, durante este encontro, também foi enfatizado a necessidade de eliminar o financiamento de projetos que geram energia a partir do carvão e não possuem a tecnologia de captura e armazenamento de carbono. (Cebds, 2021)

Na cidade de Sapporo, no norte do Japão, em abril de 2023, mais uma vez se reuniram as lideranças dos 7 países. Nesta ocasião, os países concordaram em acelerar o desenvolvimento de energia renovável, como energia solar e a capacidade eólica offshore, mas deixaram a desejar ao não apoiarem o prazo de 2030, sugerido pelo Canadá, para a eliminação progressiva do carvão, além de deixarem em aberto a discussão sobre o investimento contínuo em gás.  Esta última sendo explicada pela justificativa de que o gás poderia ser usado para resolver os potenciais déficits energéticos provocados pela crise que a guerra na Ucrânia provoca. (Reuters, 2023)

Já neste ano, no dia 30 de abril, em Turim na Itália, as potências do G7 se reuniram novamente para debater o tema. Desta vez, após a reunião dos ministros de Meio Ambiente e energia dos 7 Estados, chegou-se no consenso de suprimir progressivamente, e com prazo máximo até 2035, suas centrais energéticas movidas a carvão, com exceção daquelas que possuem a tecnologia de captura e armazenamento de carbono. A medida foi tanto elogiada quanto criticada por jornalistas e membros da sociedade civil. (Exame, 2024)

Vale lembrar que os países membros do G7 são responsáveis pela emissão de 5,1 bilhões de toneladas de CO2 em 1960, em torno de 54% das emissões globais, e em 2007 esse número cresceu para 10,3 bilhões de toneladas de CO2. (IHU, 2018) Ademais, o grupo é constantemente criticado por ativistas pelo seu vasto uso do carvão, pelas medidas fracamente impostas e pela contínua insistência em investimento e utilização do gás fóssil, maior fonte de aumento global de emissões de CO2. (Climainfo, 2023)

A teoria da Interdependência Complexa, desenvolvida por Robert Keohane e Joseph Nye, e explicada em seu livro conjunto “Power and Interdependence: World Politics in Transition”, sugere que os Estados e outros atores são interdependentes em diversas áreas, como a economia e o meio ambiente. Ao aplicar esta teoria no contexto do G7 podemos explicar o interesse do grupo em se unir para reduzir as emissões de CO2 e ao mesmo tempo continuar movimentando suas respectivas economias sem prejudicar o meio ambiente, haja vista que os impactos ambientais causados pela contínua emissão de CO2 atingiriam todos os envolvidos.

Não obstante, na vertente teórica do realista Hans Morgenthau, concebida no seu livro “Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace”, o teórico enfatiza a natureza humana como a fonte do comportamento político, ele argumenta que a política internacional é governada por leis objetivas que têm suas raízes na natureza egoísta e agressiva dos seres humanos, e a moral e ética seriam secundarizadas. No sentido dessa teoria, as ações dos países do G7 seriam puramente egoístas e apenas com o proposito de se posicionar de maneira estratégica no tabuleiro político internacional, criando e seguindo apenas as medidas ecológicas que atendem aos seus propósitos como evidenciado pela hesitação em eliminar o uso do carvão e a continuidade do investimento em gás devido a possível insegurança energética criada pela crise na Ucrânia. 

Isto posto, podemos analisar as medias e acordos tomados pelo grupo G7 a respeito da redução da emissão de CO2 a partir do prisma da teoria da Interdependência Complexa de Robert Keohane e Joseph Nye, e da vertente realista do teórico Hans Morgenthau. Pois as ações realizadas pelos países são baseadas tanto nas suas interdependências políticas sociais e econômicas, quanto nas suas vontades individualistas por poder.  

Referências:

Acordo do G7 para fechar térmicas a carvão até 2035 poupa centrais com captura de carbono | Exame. 30 abr. 2024. Disponível em: https://exame.com/esg/acordo-do-g7-para-fechar-termicas-a-carvao-ate-2035-poupa-centrais-com-captura-de-carbono/. Acesso em: 20 maio 2024.

Ativistas criticam insistência do G7 com novos investimentos em gás fóssil. 22 maio 2023. Disponível em: https://climainfo.org.br/2023/05/22/ativistas-criticam-insistencia-do-g7-com-novos-investimentos-em-gas-fossil/. Acesso em: 20 maio 2024.

GOLUBKOVA, Katya ;OBAYASHI, Yuka. Ministros do G7 estabeleceram grandes novas metas para capacidade solar e eólica. 16 abr. 2023. Disponível em: https://www.reuters.com/business/environment/g7-ministers-agree-speed-up-transition-clean-energy-communique-2023-04-16/. Acesso em: 20 maio 2024.

G7, o mercado de carbono e o caminho para Glasgow – CEBDS. 28 jul. 2021. Disponível em: https://cebds.org/noticia/g7-o-mercado-de-carbono-e-o-caminho-para-glasgow/. Acesso em: 20 maio 2024.

G7 chega a acordo para eliminar combustíveis fósseis gradualmente. 10 jun. 2015. Disponível em: https://www.biodieselbr.com/noticias/meioambiente/natureza/g7-chega-acordo-eliminar-combustiveis-fosseis-gradualmente-100615. Acesso em: 20 maio 2024.

KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and Interdependence: World Politics in Transition. Boston: Little, Brown, 1977.

MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. New York: McGraw-Hill, 1948.

Países ricos emitem mais CO2, mas as emissões crescem mais nos países emergentes. 27 set. 2018. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/583145-paises-ricos-emitem-mais-co2-mas-as-emissoes-crescem-mais-nos-paises-emergentes#:~:text=Os%20países%20ricos%20que%20fazem,toneladas%20de%20CO2,%20em%202007. Acesso em: 20 maio 2024.