
Por Isabelly Luiza Cardoso dos Reis, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais na Unama.
A empresa transnacional suíça, Nestlé, que atua no ramo da alimentação e é considerada uma das maiores corporações desse âmbito, está envolvida em uma recente polêmica onde países mais pobres da África, Ásia e América Latina acusam a companhia de adicionar açúcar em alimentos para bebês, enquanto que para países da Europa como Alemanha, França e Reino Unido são oferecidos produtos mais saudáveis e sem açúcar (SAMPAIO, 2024). Diante desse fato, nota-se que o norte global, composto por Estados desenvolvidos, possui mais privilégios do que Estados do sul global, que são considerados em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Nesse sentido, essa divisão foi criada para designar características socioeconômicas e políticas de grupos de países (LEAL, 2023).
Sob essa perspectiva, de acordo com a teoria Sistema-Mundo do sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, os Estados estão separados em três estamentos hierárquicos: centro, semiperiferia e periferia. Os países centrais são responsáveis pela produção de bens de alto valor agregado, os periféricos por produzir produtos de baixo valor agregado e os semiperiféricos estão situados em algum ponto entre os dois. Logo, observa-se que há uma desigualdade no sistema internacional causada pelo capitalismo, uma vez que ele explora certas regiões, mas não provém alimentos para elas, dessa forma ocasionando o que chamamos de “colonialismo alimentar”. (SARFATI, 2005)
Nesse contexto, a Nestlé elucida-se como uma faceta do capitalismo e ela reproduz o que Wallerstein argumenta acerca da teoria do Sistema-Mundo dentro do sistema de mercado, o qual encaminha-se para o sistema alimentar da sociedade, devido ao mercado estar incluso no triângulo trisetorial composto também pela sociedade civil e pelo Estado. Então, em virtude da Nestlé ser uma empresa e fazer parte do triângulo trisetorial representando o mercado, ela tem uma forte influência no sistema de sociedade, onde os cidadãos possuem suas necessidades e as corporações desenvolvem os produtos com a finalidade de lucrar. Todavia, percebe-se que os países periféricos necessitam importar os bens que precisam, pois eles são vítimas de um sistema que faz com que eles não tenham produção interna suficiente e como consequência da necessidade deles de comprar as mercadorias, as empresas fazem o que quiserem com os produtos. Sendo assim, é notório que a Nestlé utiliza esse meio, já que a sociedade civil é dependente de um sistema de mercado que vende produtos com preços elevados e de baixa qualidade.
Além disso, deve-se comentar sobre a ocorrência da insegurança alimentar em razão do sistema anteriormente mencionado. À vista disso, a questão de insegurança alimentar é compreendida como a ausência de certeza ao acesso ao alimento em nível individual ou familiar, além de estar atrelada a alimentação infantil inadequada, à quantidade e à qualidade, assim como a continuidade do consumo de alimentos e assuntos psicológicos como ansiedade e depressão. Deste modo, constata-se as implicações relacionadas aos produtos de baixa qualidade oferecidos pelas corporações e como eles afetam as vidas dos indivíduos que os consomem (ALMEIDA, 2019).
Portanto, verifica-se que o sul global produz em grande quantidade para países desenvolvidos, mas recebe em uma quantia menor e de baixa qualidade. Logo, percebe-se que a teoria do Sistema-Mundo de Immanuel Wallerstein reverbera condições que acometem a saúde e a vida de pessoas, direitos humanos básicos. Dessa maneira, torna-se visível que nem todas as vidas são valorizadas de forma igualitária, em vista que a população de países do norte global tendem a ter mais privilégios do que a do sul global.
REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, Mário Tito Barros. A dinâmica eco-geopolítica da fome e as relações de poder na governança global de segurança alimentar: a soberania alimentar como resistência. 2019. Tese (Doutorado em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: http://icts.unb.br/jspui/handle/10482/39367. Acesso em: 19/05/2024.
LEAL, Bruno. Norte Global. Café História, 2023. Disponível em https://www.cafehistoria.com.br/glossary/norte-globa/. Acesso em 14/05/2024
SAMPAIO, Amanda. Nestlé adiciona açúcar em produtos para bebês apenas em países pobres, diz ONG. CNN Brasil, 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/nestle-adiciona-acucar-em-produtos-para-bebes-apenas-em-paises-pobres-diz-ong/. Acesso em: 14/05/2024
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
