Second World War, France, 1942. Captured French colonial troops from Senegal in a German prisoner-of-war camp at Saint Medard.

Lucas Cardoso, acadêmico do 3º semestre de RI da UNAMA

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito global que envolveu nações de todos os continentes e teve um impacto significativo nas colônias e territórios coloniais ao redor do mundo. Apesar de muitas vezes negligenciadas nos relatos históricos convencionais, as tropas coloniais desempenharam um papel fundamental no curso e desfecho da guerra. Essas forças, recrutadas principalmente de países colonizados, contribuíram de diversas maneiras para os esforços de guerra de suas potências colonizadoras, influenciando diretamente os acontecimentos nos teatros de operações globais. Esta introdução explorará o papel crucial das tropas coloniais na Segunda Guerra Mundial e sua importância histórica frequentemente subestimada.

A França quando foi derrotada em 1940, membros do governo francês sobre a liderança de George Mandel tinham um plano de criar um governo de exílio do Norte da África Francesa e continuar a lutar com o poder das colônias francesas o que não deu muito certo já que a França de Vichy governo colaboracionista com a Alemanha Nazista chegou primeiro em Casablanca e prendeu Mendel e seus apoiadores, mas seu plano prevaleceu (Fussell, 1989). Do seu exílio em Londres, o general De Gaulle apelou abertamente a continuação da guerra contra os alemães sob um governo francês livre que poderia existir se caso as colônias lutassem por ela

No norte da África, o general Charles Noguès aceitou o armistício, colocando a região sob o controle de Vichy, e a esperança de uma França liberta veio de Félix Éboué, líder da França Livre e primeiro francês negro nomeado a um alto cargo nas colônias francesas (Jennings, 2015). Desse modo, outros territórios da África Equatorial Francesa seguiram o exemplo e declararam o governo da África Francesa Livre. De Gaulle enviou o general Philippe Leclerc, que assumiu o governo de Camarões, começando a recrutar voluntários para lutar por um novo exército francês. Os Tirailleurs senegaleses, sob a liderança de Leclerc, iniciaram uma ofensiva ao Gabão, que havia declarado apoio a Vichy. Em novembro de 1942, a maioria da África Equatorial Francesa aderiu à França Livre (Jennings, 2015).

O regimento Tirailleurs era composto entre populações indígenas, mas não exclusivamente do Senegal podendo incluir diferentes partes da África Subsaariana, mas eles sempre mantinham parte de seu traje tradicional como os chapéus Kufi e Chéchia. Como observou Myron Echenberg, “a diversidade dos tirailleurs refletia a heterogeneidade étnica e cultural da África Ocidental Francesa” (1991, p. 24). Após o controle do Gabão, eles vão em direção à fronteira com a posse italiana da Líbia de proteção fronteiriça, os Meharistes montados em camelos representavam tropas móveis por serem formados por tribos nômades como os Chaambas e seriam responsáveis por patrulhar as fronteiras argelinas e do Chade com a Líbia (Porch, 1991)

Em 8 de novembro de 1942 no Norte da África Francesa com a “Operação Tocha” fez diversos grupos de resistência pró aliados capturarem o comandante do exército francês François Darlan, no qual, ele negocia um acordo se juntando a França livre (Porch,1991). Oficialmente, o exército da África está segregando as colônias francesas embora muito de seus voluntários seja composto por indígenas árabes muçulmanos e amazighs incluindo os Spahis, os Goumiers e vários regimentos Tirailleurs com oficialato sempre por franceses, mas com a promoção aberta até Capitão

Os Spahis recrutavam guerreiros tribais irregulares por serem resistentes e confiáveis. “Os goumiers eram originários do sul da Argélia, recrutados entre tribos guerreiras montanhosas e com habilidades de combate noturno,” como observa Porch (1986, p.429). Eles tiveram uma participação mais efetiva na campanha da Itália e na retomada do norte da África e também participaram junto com os Tirailleurs no desembarque ao sul da França na operação Dragão, que foi um sucesso durando apenas 1 mês.

Com a libertação o governo francês começou a fazer um branqueamento de seu exército no final de 1944 dispensando ou realocando eles para as forças de resistência do país como uma maneira de acobertar seus feitos na guerra. Outro acontecimento com essa finalidade foi em 1 de dezembro de 1944 com o massacre de Thiaroye que matou 35 veteranos de guerra que reivindicaram seu soldo pela contribuição no conflito o que foi acobertado e descoberto com o filme “campo Thiaroye” em 1988 que denunciava o ocorrido.

Muito do ressentimento desses soldados se agravou após o congelamento de suas pensões ao decorrer que seus países conquistavam a Independência algo que só foi corrigido em 2010, mas em 2017, o presidente François Hollande reconheceu que o país tinha uma “dívida de sangue” com os veteranos africanos que se sacrificaram lutando por uma terra onde a maioria deles nunca tinha pisado (BBC, 2019)

Em paralelo analítico com as Relações Internacionais, é possível observar o papel das tropas coloniais através da teoria pós-colonial (Fanon, 2022), visto que tal vertente analisa as consequências do colonialismo, destacando como as estruturas de poder e dominação persistem após a descolonização e influenciam identidades e políticas, promovendo uma crítica ao eurocentrismo. Nesse sentido, segundo o teórico Fanon (p.32,2004)

Nesse sentido, segundo o teórico Frantz Fanon: A violência que presidiu ao arranjo do mundo colonial, que ritmou incansavelmente a destruição das formas sociais nativas, que demoliu sem restrições os sistemas de referências da economia, os modos de aparência, de vestuário, serão reivindicados e assumidos pelo colonizado no momento em que, decidindo ser a história em atos, a massa colonizada se entranhar nas cidades proibidas.

Em relação ao tema, destaca-se a participação essencial das tropas coloniais francesas, como os Tirailleurs senegaleses, Spahis e Goumiers, recrutadas das colônias africanas durante a Segunda Guerra Mundial. Estas tropas desempenharam papéis cruciais em campanhas na África e na Europa, evidenciando seu sacrifício e resistência sob o estandarte francês. Além disso, o texto aborda as injustiças que enfrentaram, incluindo o branqueamento do exército francês e o massacre de Thiaroye, ressaltando a falta de reconhecimento e o tratamento discriminatório.

A teoria pós-colonial de Frantz Fanon é utilizada para refletir sobre as consequências do colonialismo e a luta contínua por identidade e justiça, reforçando a importância de reconhecer as contribuições e sacrifícios desses soldados.

Referências: BBC News Brasil, 15 ago. 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49351085&gt;. Acesso em: 24 maio 2024.

Echenberg, Myron. Colonial Conscripts: The Tirailleurs Sénégalais in French West Africa, 1857-1960. James Currey, 1991

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Ligia F. Ferreira e Regina S. Campos. 5. ed. Zahar, 2022.

FUSSELL, Paul. Wartime: Understanding and Behavior in the Second World War. New York: Oxford University Press, 1989.

JENNINGS, Eric T. Free French Africa in World War II: The African Resistance. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.

Porch, Douglas. The French Foreign Legion: A Complete History of the Legendary Fighting Force. New York: Harpercollins, 1991.