Por Caira Queiroz, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da UNAMA. 

FERNANDA MONTENEGRO: A arte e cultura como principais ferramentas soft power de um país para destacar sua influência no cenário global.

Com uma carreira de mais de sete décadas marcada pela propagação da arte nos palcos de teatro, cinema e TV,  Fernanda Montenegro é considerada carinhosamente como a primeira-dama do teatro brasileiro, sendo uma das atrizes mais renomadas do país através da sua legião de prêmios nacionais e internacionais. Para além do seu nome destacado na dramaturgia brasileira, a atriz também é evocada por quebrar tabu ao ser a primeira atriz do país eleita para a Academia Brasileira de Letras.

Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Campinho, em 16 de outubro de 1929, Arlette Pinheiro Esteves da Silva, nome de batismo da Fernanda, viveu diferentes nuances da vida, entre glórias e mazelas. Começou a atuar cedo, aos 8 anos de idade estreava como atriz através da sua interpretação sendo um soldado militar em uma igreja, onde afirma, em sua autobiografia, não ter apresentado nervosismo já que a partir de então carregou consigo a sensação de envolvimento e a sensação de viagem, e desde então carregou consigo, tendo certeza que esse seria seu ofício. (EL PAÍS, 2021)

Mas antes de atingir a fama, sua trajetória exigiria um longo percurso. Seu currículo abrangeu cedo cargos como secretária e professora de inglês. Aos 15 anos, seu ofício com arte é retomado pela oportunidade de ser redatora, locutora e radioatriz da rádio MEC, onde adotou seu nome artístico que, segundo ela, “Fernanda”, faz referência aos romances de séc. XIX e “Montenegro” em homenagem prestada a um médico que atendia os pobres gratuitamente, na zona norte do Rio de Janeiro. (EL PAÍS, 2021)

Foi em dezembro de 1950 que Fernanda estreou oficialmente nos palcos do teatro, no espetáculo 3.200 Metros de Altitude, de Julian Luchaire, ao lado do seu marido Fernando Torres. Também marcou história na TV Tupi sendo a primeira atriz contratada na emissora, participando de cerca de 80 peças. Ao continuar atuando ativamente em peças teatrais de destaque e começar a ganhar notoriedade através de prêmios nacionais como o reconhecimento de Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952, Fernanda, com o marido, formaram sua própria companhia: o Teatro dos Sete. 

Depois de vários papéis interpretados nas décadas de 60 e 70 em novelas, séries e teleteatros, passando por outras emissoras como TV Rio e TV Excelsior, a artista estreou em novelas na Globo em 1981, sob o convite de Manoel Carlos que dirigia a nova novela das 20h, ‘Baila Comigo’. Desde então atuou em mais de 30 programas, sendo eles novelas, minisséries e especiais, chegando a ganhar o Emmy de melhor atriz pela sua atuação no seriado ‘Doce de mãe’ (2012). (O GLOBO, 2021)

Para além dos seus destaques na TV, Fernanda investe ativamente em sua atuação no teatro, fazendo participações significativas no cinema também. Seu grande marco  foi a primeira atriz latino-americana e a única brasileira a concorrer ao principal prêmio da indústria do cinema: o Oscar, pela sua atuação em ‘Central Brasil’ (1998), de Walter Salles Jr, na categoria de melhor atriz (1999). Fernanda define o caminho deste estrelato ao tapete vermelho como algo inesperado, e destaca o valor artístico desta produção que, mesmo com a humildade de seus recursos modestos, elenco simples e discreto, sem grandes expectativas, sua qualidade intrínseca obteve reconhecimento internacional.

“Um dia, o Walter Salles me chamou: ‘Fernanda, gostaria que você lesse um roteiro’. Eu li e achei lindo, simples. Uma equipe pequena. Começamos. Não se esperava isso tudo. Fizemos um filme quase em segredo. Um dia, o filme ficou pronto. Começamos a levantar prêmios por onde a gente ia, e chegamos ao Oscar”.

(Fernanda Montenegro em entrevista Memória Globo, 2021.)

Porém, não bastava receber todos os prêmios nacionais possíveis ao longo de sua carreira, além das várias premiações internacionais. Em 2021, a dama da dramaturgia brasileira também foi eleita para ocupar a 17 cadeira da Academia Brasileira de Letras  (ABL). Ela sucedeu o acadêmico diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, a única candidata à vaga, sendo eleita por 32 a favor dos 35 votos.  

O presidente da ABL, Marco Lucchesi, definiu que o papel da atriz  “enriquece laços profundos na Academia com as artes cénicas”, sendo uma oportunidade de inserir personagens que marcaram gerações entre passado, presente e futuro. Já a própria Fernanda demonstrou sua gratidão pela oportunidade de ser mais uma representante que honra a diversidade nacional neste espaço (ABL) de resistência e referência cultural em mais de um século. (AGÊNCIA BRASIL, 2021)

Mesmo com tantas premiações através da sua atuação na dramaturgia brasileira, Fernanda sempre se dedicou em prol do seu ofício, sem pensar em prêmios, mas sim a naturalidade de encenar, e essa natureza da arte é crucial para a sociedade e cultura, especialmente no teatro. A artista também usufrui da sua influência para criticar a falta de valorização do teatro no Brasil, se estendendo aos próprios governantes já que, segundo ela, ainda é baixa e insensível em relação aos investimentos culturais do país.

Em entrevista ao Diplomatique Brasil, 2021, Fernanda ressalta que essa falta de sensibilidade dentro de uma administração que desvaloriza a cultura faz com que, consequentemente, a nação enfraqueça . Para ela, é importante que haja uma abordagem mais humana na governança, que reconheça de fato e priorize a cultura como um componente essencial para o desenvolvimento social de uma nação, já que este tem um papel vital na formação de um país. Contínua, o ‘combo’ arte e cultura promovem a sensibilização sob o indivíduo, uma conexão profunda que transcende a racionalidade e é crucial para a compreensão de uma identidade nacional.

Sendo assim, é possível relacionar a grande atuação da trajetória artística de  Fernanda Montenegro e sua voz sobre o papel da arte na formação educacional de uma sociedade com Soft Power de Joseph Nye, que valoriza a influência de um país através de seus meios culturais e institucionais. Para além de aplicar esta influência para fins ideológicos, podemos usufruir o soft power com a cultura como ferramentas para fins construtivos sob uma nação, que através da arte promoveria a coesão social influenciando percepções e comportamentos significantes em  âmbito internacional.

Ou seja, se o soft power de Nye visa construir e projetar uma identidade nacional forte, inspirando admiração e respeito de outros Estados, que tal usufruir a arte como potencial de propagar aspectos da cultura de um país a um público global? Assim como a experiência de Montenegro com o filme ‘Central Brasil’ (1998), que começou modestamente, mas alcançou reconhecimento internacional por sua qualidade nacional intrínseca, exemplo prático de soft power através da arte. Tais aplicações podem moldar percepções e aumentar a influência cultural ainda mais.

Gestões públicas que investem, apoiam e promovem a cultura podem aumentar significativamente seu próprio soft power, seja através da música, teatro, cinema, podem se destacar pelos programas de intercâmbio cultural, festivais internacionais, apoio às indústrias criativas, etc. É perceptível o quanto estes fatores investidos sob a arte cultural de uma nação valorizam e promovem podem ser fortes instrumentos para construir e fortalecer o soft power de um país, assim como vemos essa influência enraizada pelos EUA e agora na China ganhando destaque, influenciando a maneira como ele é visto e respeitado no cenário global.

REFERÊNCIAS

BIOGRAFIA de Fernanda Montenegro. 2021. Disponível em: https://www.ebiografia.com/fernanda_montenegro/. Acesso em: 24 maio 2024.

CIBERDÚVIDAS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Fernanda Montenegro eleita para a Academia Brasileira de Letras. 2021. Disponível em: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/atualidades/noticias/fernanda-montenegro-eleita-para-a-academia-brasileira-de-letras/3604. Acesso em: 26 maio 2024.

FERNANDES, Vagner. Fernanda Montenegro. Tudo já é meio despedida para mim. Uma hora acaba. El País Brasil, 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-12-03/fernanda-montenegro-tudo-ja-e-meio-despedida-para-mim-uma-hora-acaba.html. Acesso em: 24 maio 2024.

GANDRA, Alana.. Atriz Fernanda Montenegro é eleita para a Academia Brasileira de Letras. AGÊNCIA BRASIL, 2021. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-11/atriz-fernanda-montenegro-e-eleita-para-academia-brasileira-de-letras. Acesso em: 26 maio 2024.

GLOBO, Memória. Fernanda Montenegro. Disponível em: https://memoriaglobo.globo.com/perfil/fernanda-montenegro/noticia/fernanda-montenegro.ghtml. Acesso em: 24 maio 2024.

HENRIQUE, Guilherme. Fernanda Montenegro: A arte e a cultura na formação da nação brasileira. Le Monde Diplomatique Brasil, 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/fernanda-montenegro/. Acesso em: 24 maio 2024.

LEON, Diego Ponce. Fernanda Montenegro. A arte e a cultura na formação da nação brasileira. Le Monde Diplomatique Brasil, 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/fernanda-montenegro/. Acesso em: 24 maio 2024.

NYE, Joseph. Soft Power, 2005.

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais.