
Railson Silva (acadêmico do 7º semestre de RI da UNAMA)
Os estudos sobre segurança no campo das Relações Internacionais (RI) são essenciais para a compreensão das dinâmicas de poder, conflito, cooperação e governança no sistema internacional. Tipicamente, a segurança internacional foi compreendida, principalmente, em termos de proteção do estado contra ameaças militares e manutenção da soberania nacional. Esta ótica, amplamente discutida pela vertente realista das RI, considera os estados como os principais atores em um ambiente anárquico, no qual a busca pela segurança é uma questão de sobrevivência (Waltz, 1979).
No entanto, a evolução do cenário global nas últimas décadas expandiu essa visão tradicional. A abordagem de segurança humana, introduzida na década de 1990, enfatiza a proteção dos indivíduos e comunidades, abordando ameaças não militares como a pobreza, doenças, degradação ambiental e violações dos direitos humanos (United Nations Development Programme, 1994). Segundo Buzan et al. (1998), a segurança deve ser vista como um conceito multidimensional, abrangendo as esferas militar, política, econômica, social e ambiental.
Nesse contexto, os Estudos Críticos de Segurança, representados por autores como Ken Booth e Richard Wyn Jones, desafiam a noção convencional de segurança centrada no estado, argumentando que essa perspectiva é insuficiente para abordar as complexas conjunturas da arena internacional. Sob essa ótica, Booth (2005) afirma que a verdadeira segurança deve ser vista como uma “emancipação”, liberando indivíduos e comunidades das estruturas de opressão e violência. Isto representa uma mudança paradigmática, deslocando assim, o foco do estado para o indivíduo como principal referência de segurança.
Outra contribuição significativa dos Estudos Críticos de Segurança ao campo das RI é a incorporação de questões como gênero, raça e classe nas análises de segurança. Dessa forma, vale destacar uma das autoras mais influentes do campo: Jean Bethke Elshtain.
A professora Jean Elshtain foi uma renomada teórica política cujo trabalho abordou uma ampla gama de temas, incluindo ética, política e segurança. Em uma das suas obras mais conhecidas, “Women and War” (1987), a autora explora como as narrativas sobre guerra e paz são profundamente influenciadas pelo gênero, desafiando as abordagens tradicionais que afastam mulheres a papéis passivos nos conflitos. Sua análise questiona a visão convencional de segurança, que é constantemente compreendida em termos de proteção militar e soberania estatal.
Elshtain argumenta que não se deve olhar a segurança apenas como uma questão de defesa contra ameaças externas, mas também como uma questão de justiça social e ética. Ela enfatiza a necessidade de considerar as experiências e perspectivas das mulheres, muitas vezes marginalizadas nas discussões tradicionais sobre segurança. Segundo ela, é necessário que se incluía nas discussões a segurança das pessoas e suas vidas cotidianas, evolvendo a justiça social, direitos humanos e a dignidade humana (Elshtain,1987)
Em “Just War Against Terror: The Burden of American Power in a Violent World” (2003), a teórica examina as implicações éticas e políticas da guerra contra o terrorismo pós-11 de setembro. Ela critica tanto a resposta militar agressiva quanto a apatia moral, argumentando por uma abordagem equilibrada que reconheça a complexidade das ameaças contemporâneas e as necessidades de segurança. Para ela, a resposta não se deve ser necessariamente militar, pois se deve ter, primeiramente, uma reflexão ética sobre as causas e os métodos apropriados de resposta (Elshtain, 2003).
A autora contribui também para o debate sobre segurança ao enfatizar a interconexão entre segurança nacional e segurança humana. Ela defende que a verdadeira segurança só pode ser alcançada quando todos os aspectos da vida humana são protegidos, incluindo saúde, educação e bem-estar econômico. Nesse viés, a segurança humana deve ser o ponto central na criação de políticas de segurança nacional, reconhecendo que as ameaças à segurança podem vir tanto internamente quanto externamente. (Elshtain, 2003).
Portanto, a visão de Jean Bethke Elshtain sobre os Estudos Críticos de Segurança é multifacetada e inovadora. Ela enriquece o campo das RI ao buscar repensar as concepções mainstream e a adotar uma abordagem mais inclusiva e ética, que leva em consideração as diversas experiências humanas e as complexidades das ameaças contemporâneas. Suas contribuições continuam a influenciar debates acadêmicos e políticos, oferecendo uma perspectiva rica e crítica sobre como se entende e promove a segurança em um mundo cada vez mais complexo e interconectado.
Referências:
BUZAN, B.; Waever, O. & Wilde, J., Security: A new framework for analysis Boulder: Lynne Reinne,1998.
BOOTH, Ken (ed.) Critical Security Studies and World Politics. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 2005.
ELSHTAIN, Jean B. Women and war Chicago, Ill.: University of Chicago Press, 1987.
ELSHTAIN, Jean B. Just War against Terror : The Burden of American Power in a Violent World. Basic Books; 2003.
PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). 1994. Relatório de Desenvolvimento Humano 1994: Novas Dimensões da Segurança Humana. Nova Iorque.
WALTZ, Kenneth Neal. Theory of international politics. Boston: McGraw, 1979.
