
Ana Paula Praxedes, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais na Unama
Nascido em 2 de abril de 1939, Marvin Pentz Gaye, Jr., eternizado como o “Príncipe do Soul”, foi um músico, cantor e compositor norte-americano, cuja influência ressoou intensamente nos ritmos de Rhythm & Blues e soul ao longo das décadas de 1960 e 1970. Natural de Washington, D.C., Marvin Gaye cresceu sob o rígido controle de seu pai, um ministro da igreja local. Sua infância foi marcada por um ambiente de violência no bairro e pela disciplina rigorosa em casa. Apesar das dificuldades, Marvin encontrou refúgio na música, mergulhando no piano e na bateria desde jovem. Seu talento vocal, primeiro nutrido nos avivamentos da igreja, floresceu em um amor profundo pelo R&B durante sua adolescência, traçando um caminho que o levaria a se tornar uma lenda do soul (Biography, 2021).
Embarcando em sua jornada musical na igreja paterna, Gaye foi progressivamente seduzido pelo encanto da indústria musical. Ao final dos anos 1950, uniu sua voz extraordinária e sua habilidade de transitar por diversos estilos vocais ao grupo The New Moonglows. Seu talento não passou despercebido pelo lendário Harvey Fuqua, nem pelo visionário Berry Gordy Jr., o arquiteto por trás da icônica Motown Records, garantindo a Gaye um contrato com a gravadora. Os primeiros passos do artista na Motown foram essenciais para sua trajetória, tornando-se um baterista de estúdio excepcional e contribuindo com artistas renomados da Motown, como The Supremes, Little Stevie Wonder e The Vandellas. Em 1962, Gaye alcançou seu primeiro sucesso solo com o single Hitch Hike, solidificando sua posição como uma estrela em ascensão no cenário musical (Reynolds, 2023).
Durante a efervescente década de 1960, Marvin Gaye desdobrou sua genialidade musical, presenteando o mundo com cativantes hits românticos ao lado de ícones como Diana Ross e Mary Wells. Entre suas pérolas musicais desta era, destaca-se I Heard It Through the Grapevine (1968), que alcançou a posição de música mais vendida da Motown da década. Ainda, sua união vocal junto a talentosa Tammi Terrell encantou o público com melodias como Ain’t No Mountain High Enough (1967). No entanto, com o trágico falecimento de Terrell em decorrência de um tumor cerebral em 1970, Gaye mergulhou em uma profunda reflexão sobre seu futuro na música.
Emergindo dos domínios do romance, What’s Going On, o lendário e mais conhecido álbum de Gaye lançado em 1971, foi profundamente moldado pelas vivências de seu irmão Frankie, que retornou do Vietnã com relatos angustiantes dos horrores da guerra. Inspirado por essas experiências e pelo clima de violência e instabilidade política da época, Marvin Gaye compôs a faixa-título e outras melodias do álbum, abordando questões sociais e políticas com uma profundidade e sensibilidade raramente encontradas na música popular até então. O álbum não apenas marcou uma revolução na trajetória musical de Gaye, que se distanciou da fórmula convencional da Motown, mas também inspirou outros artistas da gravadora, como Stevie Wonder e Michael Jackson, a explorarem novos horizontes e perspectivas musicais. Além disso, What’s Going On foi aclamado pela crítica e agraciado com o título de Álbum do Ano pela Rolling Stone, assegurando seu lugar na história da música como uma obra-prima atemporal que continua a ecoar até os dias de hoje (Chilton, 2021).
À medida que sua carreira musical ascendia, a vida pessoal do músico era constantemente assolada por tumultos, especialmente devido à relação conturbada com seu pai, que era conhecido por seu alcoolismo, infidelidades e pela prática de violência doméstica. Foi no fatídico dia 1º de abril de 1984 que uma tragédia abalou o mundo da música, quando Gaye foi fatalmente baleado por seu próprio pai, no dia anterior ao seu 45º aniversário. Foi inconcebível que um artista tão talentoso, que contava sobre amor e fraternidade, encontrasse um fim tão trágico pelas mãos de seu próprio pai (Saavedra, 2024).
Marvin Gaye deixou um legado repleto de alma e sensibilidade, mas que vai muito além de suas canções cativantes. Sua trajetória artística não apenas reflete as complexidades da experiência humana, mas também serve como uma lente poderosa para examinar questões sociais e políticas. Nesse sentido, é possível relacionar sua carreira com a teoria Pós-colonial das Relações Internacionais. Essa teoria examina as dinâmicas de poder entre as nações, especialmente após o período colonial, e explora as formas como o colonialismo continua a moldar as relações globais, podendo ser expandida para compreender as estruturas de dominação (Oliveira, 2017).
Ao relacionar What’s Going On com a teoria Pós-colonial, é necessário compreender a influência do contexto histórico e cultural no processo criativo do artista. Durante o final da década de 1960, um cenário de convulsões sociais e políticas delineava-se com o surgimento de movimentos organizados como o Black Power. Em abril de 1970, ocorreu o primeiro Dia da Terra, um marco que trouxe à tona o emergente movimento ambiental nos Estados Unidos. Enquanto isso, os ativistas anti-guerra marchavam incansavelmente contra o recrutamento, repudiando a crescente violência e confrontando a dolorosa realidade dos jovens mortos no Vietnã.
Dentro desse turbilhão, a Motown Records, notoriamente apolítica, viu-se surpreendida pelo ímpeto revolucionário de What’s Going On, produzido por Gaye em um ato de ousadia artística. O álbum, uma ode dolorosamente bela ao protesto, desafiou as próprias fundações da Motown, enfrentando críticas ásperas de seus pares e produtores.
As primeiras notas do álbum, encontradas na música-título, surgem como um sussurro desesperado: “Mother, mother, there’s far too many of you crying / Brother, brother, brother, there’s far too many of you dying.” (“Mãe, mãe, há muitas de vocês chorando / Irmão, irmão, irmão, há demasiados de vocês tombando”). Ao longo da canção, Gaye explora as devastadoras consequências das guerras, especialmente entre as famílias economicamente desfavorecidas e racializadas. Durante a guerra do Vietnã, serviram mais de 300.000 americanos negros, o que representou 16,3% das forças armadas, embora compreendessem apenas 12% da população dos EUA. Essa sobre-representação resultou em uma taxa de óbito desproporcionalmente alta entre a população negra norte-americana (Elsbury, 2022).
Em seu livro Necropolítica (2016), o pensador e crítico pós-colonial Achille Mbembe busca examinar como o poder político opera através do controle sobre a vida, a morte e a violência. Assim, Mbembe argumenta que o estado soberano moderno possui autoridade sobre a vida, tendo poder para determinar aqueles que vivem e aqueles que morrem, exercendo controle sobre corpos e territórios. No contexto do álbum de Gaye, o conceito de necropolítica pode lançar luz sobre como a guerra, o racismo e a desigualdade são perpetrados e mantidos pelas estruturas de poder opressivas. Nesse sentido, What’s Going On não apenas evidencia as injustiças e as consequências da guerra, mas essencialmente questiona os sistemas de poder que as sustentam (Mbembe, 2016).
Além disso, as análises de Mbembe sobre os mecanismos contemporâneos de exploração e dominação têm uma ressonância profunda nas lutas por justiça social dos anos 1970, que desafiavam as estruturas de poder estabelecidas, buscando confrontar injustiças e desigualdades enraizadas. Da mesma forma, ao desafiar a indústria musical que muitas vezes preferia ignorar os eventos políticos que permeavam a sociedade americana à época, Gaye não apenas rompeu normas, mas também deixou uma marca revolucionária na história da música. Seu álbum representou uma ruptura audaciosa, onde a música não apenas ecoava, mas também refletia as preocupações urgentes da época. Assim, Marvin Gaye se tornou mais do que um artista – ele se tornou um visionário, usando sua música para dar voz aos problemas sociais de seu tempo.
É nesse sentido que se torna necessário reconhecer o outro lado de What’s Going On, a mensagem principal por trás do álbum: uma de esperança. Ao longo do álbum, Gaye entoa repetidamente a expressão “Right on”, um mantra enraizado no vernáculo urbano negro que significa aprovação e suporte. Marvin Gaye utiliza essa expressão como um chamado à solidariedade, um reconhecimento das lutas compartilhadas e a possibilidade de reconstrução de um mundo melhor.
REFERÊNCIAS
ACHILLE MBEMBE. Necropolitica. Verona: Ombre Corte, 2016.
BIOGRAPHY.COM EDITORS. Marvin Gaye – Death, Father & Songs. Biography, 19 de abril de 2021. Disponível em: <https://www.biography.com/musicians/marvin-gaye>.
CHILTON, Martin. What’s Going On, 50 years on: The bitter true story of Marvin Gaye’s iconic album. The Independent, 16 maio 2021. Disponível em: <https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/music/features/marvin-gaye-whats-going-on-b1846502.html>.
ELSBURY, Will. Research Guides: Racial, Ethnic, and Religious Minorities in the Vietnam War: A Resource Guide: Introduction. Library of Congress, 12 de setembro de 2022. Disponível em: <https://guides.loc.gov/racial-ethnic-and-religious-minorities-in-the-vietnam-war#:~:text=Approximately%20300%2C000%20African%20Americans%20served>.
OLIVEIRA, Pedro Henrique Silva de. O pós-colonialismo nas relações internacionais: uma proposta para repensar teoria, estrutura e racionalidade no Sistema Internacional. Revista Liberato, 18(30), 2017.
REYNOLDS, Isaiah. The life and tragic death of Marvin Gaye, the son of a preacher who became Motown’s voice of political change and died at the hands of his own father. Business Insider, 24 de abril de 2023. Disponível em: <https://www.businessinsider.com/photos-marvin-gaye-life-career-death-motown-2023-4#responding-to-the-protests-and-police-brutality-of-bloody-thursday-in-berkeley-in-1969-gaye-put-out-the-now-infamous-whats-going-on-the-choice-to-integrate-politics-into-motown-not-only-introduced-gaye-to-a-larger-audience-but-paved-the-way-for-a-new-kind-of-protest-music-in-rhythm-and-blues-7>.
RUSSELL, Melody The Enduring Meaning Behind Marvin Gaye’s Signature Hit “What’s Going On?”. American Songwriter, agosto de 2023. Disponível em: <https://americansongwriter.com/the-enduring-meaning-behind-marvin-gayes-signature-hit-whats-going-on/>.
SAAVEDRA, David. The tragedy of Marvin Gaye: From changing the course of soul music to dying at the hands of his father. El País, 1 de abril de 2024. Disponível em: <https://english.elpais.com/culture/2024-04-01/the-tragedy-of-marvin-gaye-from-changing-the-course-of-soul-music-to-dying-at-the-hands-of-his-father.html?outputType=amp>.
STEPTOE, Tyina. Marvin Gaye’s “What’s Going On” Is as Relevant Today as It Was in 1971. Smithsonian Magazine, 18 de maio de 2021. Disponível em: <https://www.smithsonianmag.com/history/marvin-gayes-whats-going-relevant-today-it-was-1971-180977750/>.
