
Maysa Lisboa, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais
O passaporte musical desta semana é sobre uma renomada cantora e intérprete brasileira, citada por vezes também com o título de ‘Abelha Rainha da MPB’ por sua contribuição ao gênero, Maria Bethânia. Reconhecida nacional e internacionalmente, com uma das vozes mais distintas e emblemáticas da música popular brasileira, é uma importante embaixadora cultural que apresenta a diversidade cultural e as tradições brasileiras ao público global, com as suas participações em festivais, turnês e colaborações internacionais enriquece o panorama cultural global. Em um cenário musical dominado por homens, ela desafia estereótipos de gênero, explorando temas de amor, desejo e identidade feminina, com a sua presença e influência aumentaram a visibilidade das mulheres na indústria musical.
Nascida em 18 de junho de 1946, em Santo Amaro da Purificação, Bahia, Maria Bethânia Viana Teles Veloso começou a frequentar o meio artístico junto com o irmão, também cantor e compositor Caetano Veloso, cresceu em um ambiente familiar musical e culturalmente rico, desde cedo foi influenciada pela música popular nordestina, o que moldou seu estilo artístico. Em 1960 mudou-se para Salvador, com o objetivo de estudar. Em 1963 estreou como cantora na peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues. Em 1964 participou do show “Nós, Por Exemplo”, com Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e Tom Zé, na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. (MAPEAMENTOCULTURAL, 2016).
O dia 13 de janeiro de 1965 foi o início de uma consagrada carreira, ao se apresentar no show “Opinião”, quando substituiu Nara Leão. Seu primeiro sucesso foi a música de protesto “Carcará”. Nesse mesmo ano, gravou seu primeiro disco, “Maria Bethânia” (1965). Em 1967, lançou o segundo disco “Edu e Bethânia”, uma parceria com o cantor e compositor Edu Lobo.(EBIOGRAFIA, 2023).
A cantora idealizou e foi uma das vocalistas do grupo Doces Bárbaros, que incluía Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. (MAPEAMENTOCULTURAL, 2016). Em 1976, lançaram um disco ao vivo e excursionaram pelo país em comemoração aos dez anos de sucesso de suas carreiras. Posteriormente, Bethânia lançou álbuns solo como Pássaro da Manhã (1977), Álibi (1978), Mel (1979), Talismã (1980), A Beira e o Mar (1984) e Memórias da Pele (1989), e em 1990, lançou o disco “25 Anos” para celebrar sua carreira, com participações de artistas como Gal Costa, Alcione, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Almir Sater e Toninho Horta. Em 1992, lançou “Olho d’Água”, reunindo músicas com temas religiosos, incluindo “Ilumina”, “Medalha de São Jorge”, “Louvação a Oxum”, “Rainha Negra” e “Búzio”. No ano seguinte, lançou “As Canções Que Você Fez Pra Mim”, com músicas de Roberto e Erasmo Carlos, alcançando grande sucesso, e também a versão em espanhol. (EBIOGRAFIA, 2023).
Nos anos 2000, a artista participou de diversos encontros musicais significativos. Em abril, se apresentou em Salvador ao lado de Luciano Pavarotti e Gal Costa. Em maio, realizou um show em Lisboa, Portugal, com Caetano Veloso, e em dezembro, compartilhou o palco com Gilberto Gil no Farol da Barra, Salvador. Embora tenha completado 35 anos de carreira em 2000, celebrou no ano seguinte, com o lançamento do álbum “Maricotinha no Canecão”, que contou com a presença de grandes nomes da MPB. Em 2006, ganhou o Prêmio TIM da Música nas categorias “Melhor Cantora”, “Melhor Disco” pelo álbum Que Falta Você Me Faz (2005), e “Melhor DVD” por Tempo Tempo Tempo (2005), uma celebração de seus 40 anos de carreira. Em 2008, fez uma turnê com a cantora cubana Omara Portuondo, culminando na gravação de um DVD no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.
Após um hiato na televisão, em junho de 2010, homenageou Erasmo Carlos no programa Altas Horas, interpretando músicas do álbum As Canções Que Você Fez Pra Mim. Em 2012, lançou seu quinquagésimo álbum, “Oásis de Bethânia”, com a participação de Lenine. A faixa-título foi indicada ao Grammy Latino de Melhor Música Brasileira em 2014. Em 2015, celebrou 50 anos de carreira com a turnê “Abraçar e Agradecer”, marcando presença na 26ª edição do Prêmio da Música Brasileira, onde foi homenageada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, recebendo tributos de várias vozes da MPB. Em 2016, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia e inspirou o enredo vitorioso da Mangueira no carnaval carioca com o enredo “Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oiá”.
(MAPEAMENTOCULTURAL, 2016). Em 30 de julho de 2021, Maria Bethânia lançou o álbum Noturno, com 12 canções inéditas, incluindo os singles “A Flor Encarnada” e “Lapa Santa”. (EBIOGRAFIA, 2023).
Ao explorar a carreira de Maria Bethânia à luz da teoria feminista de Cynthia Enloe, revela-se não apenas como uma figura seminal na música brasileira, mas também como um exemplo vivo de como a arte pode desafiar e transformar as normas de gênero, não apenas desafia as normas de gênero através de suas interpretações emotivas e diversas, mas também serve como um exemplo vivo de como a música pode ser uma forma de resistência e empoderamento para as mulheres na sociedade contemporânea. Como Enloe argumenta em “Bananas, Beaches and Bases”, a cultura popular não é apenas reflexo, mas também um agente na construção de identidades e na contestação de estruturas de poder global. Bethânia personifica muitos dos conceitos discutidos por Enloe sobre poder, cultura e identidade, mostrando como a música pode ser uma poderosa forma de resistência e empoderamento para as mulheres globalmente.
Em suma, Maria Bethânia não é apenas uma figura icônica na música brasileira, mas também uma voz poderosa que ecoa as preocupações e aspirações das mulheres através de sua arte. Sua jornada artística não só enriquece o panorama cultural, mas também reforça a importância de considerar a música e a cultura como espaços significativos para a análise feminista e a luta por igualdade de gênero.
Referências:
MAPEAMENTO CULTURAL UFBA. Maria Bethânia Viana Teles Veloso. Disponível em: https://mapeamentocultural.ufba.br/historico/maria-bethania-viana-teles-veloso. Acesso em: 20 de junho 2024.
EBIOGRAFIA. Maria Bethânia. Disponível em: https://www.ebiografia.com/maria_bethania/. Acesso em: 20 de junho 2024.
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches, and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Capítulo 1. Disponível em: https://ir101.co.uk/wpcontent/uploads/2018/11/Enloe-Bananas-Beaches-and-Bases-Ch.1.pdf. Acesso em: 26 de junho 2024.
