
Brenda Thalita de Macedo Sousa – Internacionalista
A alimentação constitui um elemento fundamental para a sobrevivência humana, fornecendo os recursos indispensáveis para a realização das atividades cotidianas. Além disso, os alimentos estão imbuídos de significados culturais e práticas relacionadas ao seu cultivo, colheita, preparação e consumo, que fazem parte da herança social de várias civilizações. Com a intensificação das interações sociais, a alimentação tem assumido uma relevância política e econômica cada vez maior, tornando-se um instrumento estratégico de poder (POL, 2019) e influenciando o desenvolvimento de sistemas alimentares mais complexos. Apesar dessa importância crescente, a atenção de pesquisadores e da mídia aos aspectos alimentares é um fenômeno relativamente recente.
A crise da fome no Sudão e no Chifre da África representa uma das mais graves emergências humanitárias do mundo contemporâneo, exacerbada por uma combinação de conflitos armados, alterações climáticas, instabilidade económica e pandemias. No Chifre da África, que inclui países como Djibouti, Eritreia, Etiópia, Quênia, Somália, Sudão, Sudão do Sul e Uganda, a crise alimentar é o resultado de secas graves, conflitos e instabilidade econômica. As secas recorrentes, agravadas pelas alterações climáticas, provocam quebras de colheitas e a morte do gado, que são fontes essenciais de alimentação e de rendimento para muitas comunidades. (Ramos, 2020; Addario, 2023)
No Sudão, a fome é intensificada pelos conflitos internos e pela deslocação das populações. A guerra civil no Darfur e a instabilidade política que se seguiu à separação do Sudão do Sul dificultam a produção e a distribuição de alimentos. A insegurança impede os agricultores de cultivarem as suas terras e a violência obriga muitas pessoas a deslocarem-se, dificultando o acesso a recursos vitais. (Care, 2024; Braun, 2023)
Em um contexto teórico alinhado ao Neorrealismo e ao Neoliberalismo, Robert Keohane e Joseph Nye desenvolveram a teoria da Interdependência Complexa. De acordo com Jackson e Sorensen (2013), essa teoria modifica a divisão tradicional nas relações internacionais entre “Política Superior” (high politics), que abrange as relações entre Estados e o sistema internacional, e “Política Inferior” (low politics), que trata de questões sociais e econômicas. Na nova perspectiva proposta por Keohane e Nye, essas duas categorias não podem mais ser analisadas de forma isolada devido à interdependência global.
Pode-se sustentar que a governança global constitui um instrumento que, por meio da articulação, estabelecimento de consenso e cooperação, fortalece a coesão entre as diversas entidades e organizações nacionais, regionais e globais com poder de influenciar e compor centros de decisão. Visto que, esse processo visa abordar e resolver problemas que transcendem fronteiras, promovendo uma abordagem mais abrangente e colaborativa na gestão de questões globais. (Gonçalves; Costa, 2011). Para tanto, a governança global, concebida como os meios e processos destinados a gerar soluções para questões compartilhadas, se manifesta de maneira clara por meio de acordos e contratos em várias esferas. (Da Silva Santana, 2023).
A governança é um fenômeno abrangente que inclui tanto instituições governamentais quanto mecanismos informais não governamentais. Refere-se a atividades orientadas por objetivos compartilhados, que podem ou não resultar de responsabilidades legalmente prescritas. Essas atividades não necessariamente requerem autoridade coercitiva para serem aceitas e superar resistências. (Rosenau, 2000, p. 15)
Conforme discutido, a governança global surge em um contexto mundial no qual a resolução de problemas que ultrapassam fronteiras depende da cooperação entre diversos atores. Isso também se aplica às relações agroalimentares e às questões sensíveis associadas a esse tema, já que são enfrentados enormes desafios ao projetar ações e estruturas que assegurem uma alimentação saudável, segura, equitativa e culturalmente apropriada para bilhões de pessoas. Embora seja um tema urgente e sensível, a agenda alimentar geralmente é priorizada por líderes e pesquisadores científicos durante períodos de instabilidade nos preços dos alimentos, aumento da produção, estagnação das colheitas, crises humanitárias ou flutuações abruptas no mercado de commodities (Margulis, 2017).
A crise de fome no Sudão e no Chifre da África é um problema multifacetado que demanda uma resposta coordenada e sustentável. A teoria neoliberalista e a governança global oferecem uma abordagem robusta ao destacar a importância da cooperação internacional, das instituições e da interdependência econômica. Por meio da mobilização de recursos globais, da promoção de normas internacionais e da criação de parcerias eficazes, é possível abordar as causas subjacentes da fome e promover a segurança alimentar a longo prazo. A crise de fome pode ser mitigada através de um esforço coletivo e coordenado, que envolva todos os atores internacionais em uma governança global inclusiva e eficaz.
Referências:
ADDARIO, Lynsey. Fome, seca e crise castigam o Chifre da África. NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, 2023. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2022/11/fome-seca-e-crise-castigam-o-chifre-da-africa. Acesso em: 15 de julho de 2024.
BRAUN, Juia. BBC NEWS BRASIL. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9wxxjpjd2po. Acesso em: 15 de julho de 2024
CARE. Starvation risk increases in Sudan amid escalating violence in the east and west. Disponível em: https://www.care.org/pt/news-and-stories/press-releases/starvation-risk-increases-in-sudan-amid-escalating-violence-in-the-east-and-west/. Acesso em: 15 de julho de 2024.
DA SILVA SANTANA, Elis Virginia et al. O poder está no prato: breve análise da governança global dos alimentos, seus atores e contradições. 2023.
GONÇALVES, Ana Júlia Silva; MARQUES, Nathália Cordeiro Wanderley; COSTA, João. DIPLOMACIA CORPORATIVA E SUSTENTABILIDADE: UM ESTUDO DE CASO COMPARATIVO. Revista Livre de Sustentabilidade e Empreendedorismo, v. 9, n. 2, p. 141-160, 2024.
GONÇALVES, Maetê Pedroso; CAMPOS, Silvana Terezinha de; SARTI, Flavia Mori. Políticas públicas de segurança alimentar no Brasil: uma análise do Programa de Restaurantes Populares. Revista Gestão & Políticas Públicas, v. 1, n. 1, 2011.
JACKSON, Robert; SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. Tradução Bárbara Duarte. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 478p.
MARGULIS, Matias E. The global governance of food security. Palgrave handbook of interorganizational relations in world politics, p. 503-525, 2017.
RAMOS, Lucas. O atual quadro de vulnerabilidade no Chifre da África: o retorno dos conflitos étnicos. GEDES UNESP, 2020. Disponível em: https://gedes-unesp.org/o-atual-quadro-de-vulnerabilidade-no-chifre-da-africa-o-retorno-dos-conflitos-etnicos/. Acesso em: 15 de julho de 2024.
ROSENAU, James N. Governança, ordem e transformação na política mundial. In: ROSENAU, James N.; CZEMPIEL, Ernst-Otto (org.). Governança sem governo: ordem e transformação na política mundial. Brasília: UnB, 2000.
UN NEWS. Avaliação da insegurança alimentar. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2022/11/1804752#:~:text=da%20inseguran%C3%A7a%20alimentar-,Dunford%20destacou%20que%20a%20situa%C3%A7%C3%A3o%20na%20regi%C3%A3o%20da%20%C3%81frica%20Oriental,dram%C3%A1tico%20nos%20custos%20da%20comida.. Acesso em: 15 de julho de 2024.
