
Railson Silva e Thais Borges – acadêmicos do 8º semestre de Relações Internacionais da Universidade da Amazônia
O primeiro grande debate nas Relações Internacionais (RI) ocorreu entre as décadas de 1920 e 1940, e foi descrito como um confronto teórico entre as duas principais escolas de pensamento: o realismo e o idealismo. Este debate não só transformou as bases teórica e metodológica da disciplina de RI, mas também influenciou de forma significativa na compreensão e análise da política internacional contemporânea.
Em primeira instância, o paradigma realista emergiu como uma das principais correntes teóricas durante o Primeiro Grande Debate, um período crítico para a formulação e consolidação das teorias de RI. Neste contexto, houve a contraposição do realismo ao idealismo, destacando as diferenças fundamentais em como cada paradigma percebia a natureza das relações internacionais.
O realismo, frequentemente relacionado às pesquisas de pensadores como Hans Morgenthau e E.H. Carr, fundamenta-se em uma perspectiva pessimista e pragmática da política internacional. Para os realistas, a anarquia do sistema internacional é a característica que define as relações entre estados. Assim, em um mundo anárquico, no qual não existe uma autoridade central que comande todos os estados, a busca por segurança e poder torna-se primordial para as nações. Morgenthau argumenta que “a política internacional, como toda política, é uma luta pelo poder” (MORGENTHAU, 1948), destacando a centralidade do poder nas relações internacionais.
Em contrapartida, sob o respaldo teórico de autores como Marsílio de Pádua, Thomas More, Abade de Saint-Pierre, John Locke e Immanuel Kant, o liberalismo apresenta uma perspectiva divergente da afirmada pelos realistas. Esta parte de uma visão mais otimista e progressista sobre a natureza humana, que envolve a partilha de responsabilidades comuns em função da paz, justiça e cooperação (CASTRO, 2012).
Em um contexto de uma ordem social devastada pela Primeira Guerra Mundial, urgia a necessidade de mecanismos reparadores das reverberações, assim como por assegurar que tais atitudes não voltassem a ocorrer, assim, Woodrow Wilson (1856 – 1924), apresentou papel importante na formulação e estabelecimento da Liga das Nações, esta que surge da tentativa de estimular a cooperação entre os Estados e conter próximos conflitos (NOGUEIRA; MESSARI, 2005).
Wilson será o precursor do Liberalismo Wilsoniano, e será a partir deste ponto que ele desenvolverá os “14 pontos” que deveriam conduzir a diplomacia do sistema internacional no pós Primeira Guerra Mundial, assim, a Liga das Nações se apresentou como um resultado prático deste pensamento liberal (PEREIRA; ROCHA, 2015).
E.H. Carr, em sua obra mais conhecida “The Twenty Years’ Crisis“, critica a abordagem idealista por sua perspectiva utópica e pouco prática das relações internacionais. O autor sugere que o idealismo falha ao desconsiderar a natureza egoísta e conflituosa dos estados, e enaltece a importância do poder e do interesse nacional como motores das políticas interestatais. Ele reforça a ideia de que as relações internacionais são intrinsecamente conflituosas, assim, segundo ele, o realismo começa por aceitar a natureza imperfeita do mundo (CARR, 1939).
Apesar do triunfo do realismo sobre o liberalismo no primeiro grande debate das Relações Internacionais, é preciso ressaltar que o liberalismo é uma vertente que contribuiu para o desenvolvimento de ferramentas de cooperação entre os Estados no sistema internacional. Considerando que a prática científica se constrói sob o constante processo de debates de divergentes pontos de vistas, esse primeiro debate marcado pela oposição de dois pensamentos dominantes dentro da área das Relações Internacionais naquele determinado período nortearam o saber da disciplina e deram espaço para que nos anos seguintes, novas temáticas passassem a ser abordadas no campo.
Referências
CARR, Edward. The Twenty Years’ Crisis 1919-1939: An Introduction to the Study of International Relations. Nova Iorque: Perennial. 2001 (1939)
CASTRO, Thales. Teoria das relações internacionais. Fundação Alexandre de Gusmão, 2012.
Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 3, n. 6, p. 313-328, 2015.
MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. New York: McGraw-Hill, 1948.
NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das relações internacionais. Elsevier, 2005.
PEREIRA, Demetrius Cesario; ROCHA, Rafael Assumpção. Debates teóricos em Relações Internacionais: origem, evolução e perspectiva do “embate” Neo-Neo.
