
Alice Cardoso – acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da Unama.
A antecipação das eleições legislativas na França surpreendeu a todos. No dia 9 de junho, após a vitória do partido de Extrema direita, Rassemblement National (Reunião Nacional, RN), nas eleições europeias, o Presidente francês Emmanuel Macron anunciou, apenas uma hora após o fechamento dos colégios eleitorais, que ele havia assinado o decreto de convocação das eleições legislativas. O presidente informou que o primeiro turno das eleições ocorreria no dia 30 de junho e o segundo em 7 de julho. (UOL, 2024)
O ato de Macron foi visto como arriscado, principalmente quando a decisão foi tomada faltando um mês para o início dos Jogos Olímpicos de Paris. O risco é o de que o presidente tenha que compartilhar o poder com um governo ideologicamente diferente do seu, o que o enfraqueceria. (O GLOBO, 2024) Apesar de se posicionar, de certa forma, contra a extrema direita ao convocar antecipadamente as eleições, Macron também se posicionou contra a extrema esquerda e deu a entender que não quer que os extremos ganhem esta eleição.
Dentre os partidos participantes da eleição, ocorreu a coligação de partidos que estariam na ala de centro, nomeado de o Ensemble – fundado pelo Presidente Macron – reúne os partidos Renaissance, o Movimento Democrático e o Horizons. Já na ala da Esquerda se formou o partido Nova Frente Popular (NFP) que reúne os principais partidos de esquerda como o La France Insoumise, o Partido Socialista, os Ecologistas e o Partido Comunista Francês. Por fim, representando a direita se tem o partido Reagrupamento Nacional (RN). (BBC, 2024)
O primeiro turno da eleição marcou um nível alto de pessoas votando. Cerca de 66,71% cdos mais de 49,33 milhões de eleitores franceses, aptos a votar, votaram neste primeiro turno. Foi a maior taxa de participação espontânea para o primeiro turno registrada desde 1997, quando 67,9% dos eleitores foram a urna ara escolher os 577 deputados que compõem a Assembleia Nacional. (Agencia Brasil, 2024) O primeiro turno terminou com a vitória do partido de extrema direita, Reunião Nacional, com mais de 33% dos votos. O partido de esquerda, Nova Frente Popular, ficou atrás com 28% e o partido central, apoiado pelo presidente, ficou em terceiro lugar com 20% dos votos. (G1, 2024)
Já no segundo turno eleitoral, que ocorreu no ultimo dia 7, a vitória foi da Esquerda. A Nova Frente Popular, coligação dos partidos de posicionamento de esquerda da França, obteve o maior número de cadeiras, 182. Logo atrás ficou a aliança Ensemble, apoiada por Macron, com 168 cadeiras e por ultimo o partido de extrema direita com 143 assentos. Apesar de possuir a maioria das cadeiras no Parlamento, A Nova Frente Popular não obteve a maioria absoluta para comandar o parlamento, que seria de 289 assentos. (BBC, 2024)
Após a divulgação do resultado das eleições, o Partido A Nova Frente Popular argumentou que por terem a maioria das cadeiras no Parlamento, deveriam ter o direito de escolher o novo Primeiro-Ministro. (BBC, 2024) No entanto, tal decisão ainda não está amplamente firmada na mão do partido. No dia 8 deste mês, após o resultado, Macron pediu para o então Primeiro-ministro, Gabriel Attal, continuasse no cargo até que se estabelecesse uma nova ordem. O presidente deu a entender que tal situação pode ficar sem resolução por um tempo, e provavelmente não será resolvida até o final dos Jogos Olímpicos de Paris que iniciam em 26 de julho e terminam em 11 de agosto. (G1, 2024)
O realismo político, teorizado por Hans Morgenthau, é uma teoria fundamental nas Relações Internacionais que enfatiza a importância do poder e dos interesses nacionais como os principais motores da política global. Morgenthau argumenta que a política é governada por leis objetivas enraizadas na natureza humana, que é inerentemente egoísta e voltada para a busca de poder. (MORGENTHAU,2006)
Neste sentido, a ação de Macron de antecipar as eleições legislativas, ainda mais em um período tão perto das olimpíadas no país, pode ser vista como uma forma de tentar manter o seu poder e influência frente a vitória do extremismo de direita no parlamento europeu. Esta ação, em conjunto com a repressão propagada por ele contra os extremismos e em favor do centro, juntamente com a criação da coligação centrista Ensemble, indicam a jogada de Macron para assegurar seu poder.
No entanto, o resultado acabou sendo o contrario do esperado pelo presidente com a vitória da esquerda e, por extensão e consequência, a diminuição de seu poder, o que exemplifica a Teoria do Pluralismo de Robert Dahl que argumenta que o poder político em uma democracia está disperso entre diversos grupos de interesse que competem entre si para influenciar as decisões governamentais. (DAHL, 2005) Ao observar a atual eleição legislativa francesa na perspectiva de Dalh, temos a formação de coalizações, a competição eleitoral e a vitória da extrema direita no primeiro turno e posteriormente a vitória da esquerda no segundo turno como exemplos do pluralismo político.
Sendo assim, a antecipação das eleições legislativas na França, movidas pelos interesses próprios e egoístas de Macron de afirmar seu poder, como explica a teoria do realismo politico de Hans Morgenthau, trouxeram instabilidade para a França e para o presidente, em um momento que os olhos do mundo todo estão voltados para o país devido as olimpíadas, haja vista que a pluralidade de opiniões políticas, explicada por Robert Dahl, em conjunto com a opinião popular elegeu um governo que difere do atual proporcionado pelo presidente e do esperado pelas estáticas e demais países europeus.
Referências:
Após vitória da esquerda, Macron decide manter primeiro-ministro no cargo. |G1. 2024 Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/07/08/apos-vitoria-da-esquerda-macron-decide-manter-primeiro-ministro-no-cargo.ghtml>. Acesso em: 22 jul. 2024.
DAHL, Robert A. Who Governs?: Democracy and Power in an American City. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 2005.
Entenda a eleição para deputados na França e reflexos da disputa. | Agencia Brasil. 2024 Disponível em:<https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-07/entenda-eleicao-para-deputados-na-franca-e-reflexos-da-disputa>. Acesso em: 22 jul. 2024.
Entenda decisão arriscada de Macron para antecipar eleições na França. | O GLOBO. 2024 Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2024/06/30/entenda-decisao-arriscada-de-macron-para-antecipar-eleicoes-na-franca.ghtml>. Acesso em: 22 jul. 2024.
Eleições na França: esquerda tem vitória surpreendente, segundo projeções. |BBC. 2024 Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2x0z1835rno>. Acesso em: 22 jul. 2024.
Eleição na França: por que país vive impasse político após vitória da esquerda. |BBC. 2024 Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9e9pe3x0mdo>. Acesso em: 22 jul. 2024.
Extrema direita vence 1o turno na França, e Macron pede por aliança democrática. | G1. 2024 Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/07/01/macron-pede-por-alianca-democratica-apos-1o-turno-de-eleicao-legislativa.ghtml>. Acesso em: 22 jul. 2024.
Macron antecipa eleições na França após vitória da extrema direita nas eleições europeias. | UOL. 2024 Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/06/09/macron-antecipa-eleicoes-na-franca-apos-vitoria-da-extrema-direita-na-votacao-para-o-parlamento-europeu.htm>. Acesso em: 22 jul. 2024.
MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. 7. ed. Boston: McGraw-Hill Higher Education, 2006.
MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. 7. ed. Boston: McGraw-Hill Higher Education, 2006.
