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A diversificação das reservas nacionais é uma estratégia crucial para a mitigação dos impactos de crises geopolíticas, especialmente em um cenário global marcado por tensões políticas e econômicas. Ademais, com a interdependência entre nações, exacerbada por conflitos e instabilidades regionais, torna evidente a necessidade de um portfólio diversificado de reservas que não dependa exclusivamente de um único recurso ou mercado (MENDOÇA, 2020).
Assim, as reservas nacionais, compostas por ativos financeiros mantidos pelo governo para mitigar riscos e promover a estabilidade econômica, precisam ser cuidadosamente distribuídas entre diferentes classes de ativos e moedas (MENDOÇA, 2020). Essa abordagem permite não apenas proteger os recursos de choques externos, mas também otimizar os retornos e garantir uma maior segurança financeira. Portanto, a diversificação não é apenas uma questão de segurança, mas também de estratégia inteligente para o gerenciamento eficaz das reservas nacionais em um ambiente global volátil.
Nesse âmbito, é importante destacar que o Dólar exerce um papel central no funcionamento da economia internacional desde a conferência de Bretton Woods, em 1944. Entretanto, apesar de a moeda dos Estados Unidos se manter dominante no sistema internacional, a procura por outras fontes de reserva internacional tem se mostrado uma tendência que vem se intensificando gradualmente.
Na atualidade, é possível perceber a implementação de estratégias por parte de atores estatais visando reduzir a dependência de suas economias nacionais em relação ao dólar. Essas iniciativas podem ser motivadas por diversos fatores como a obtenção de ganhos geopolíticos de países sancionados pelos EUA, ou mesmo ganhos econômicos por países que buscam utilizar suas moedas nacionais em transações internacionais.
Dentre as medidas empreendidas pelos Estados, é de nota que os recursos naturais têm se tornado cada vez mais visados para a composição das reservas internacionais. De acordo com o FMI (2024), nos últimos anos a aquisição de ouro para compor as reservas têm aumentado consideravelmente, aproximando-se dos maiores níveis registrados desde a Segunda Guerra Mundial.
Não obstante, bancos centrais ao redor do mundo não têm visado apenas o ouro, uma vez que também é possível perceber a utilização de ativos menos convencionais, especialmente no El Salvador. O país caribenho tem adotado a criptomoeda Bitcoin como moeda desde 2021, a partir de então, os níveis de reservas internacionais do país se alteram de acordo com os movimentos especulativos do mercado financeiro em torno do criptoativo (BBC, 2023).
À vista disso, a abordagem neorrealista de Robert Gilpin mostra-se extremamente relevante. Segundo o autor, o estabelecimento de uma ordem internacional estável necessita de uma potência hegemônica capaz de criar e manter as normas e instituições, bem como a provisão da segurança, estabilidade econômica e a abertura comercial do sistema, de modo que o funcionamento deste seja benéfico tanto para a potência quanto para os demais Estados (GILPIN, 2002). Sendo assim, para Gilpin (2002), na ausência de uma hegemonia ou a medida em que surgem potências emergentes que ameacem a ordem vigente, o sistema internacional tende a se tornar mais fragmentado.
Além disso, o autor também afirma que a crescente integração dos mercados globais tem transformado a dinâmica das relações internacionais, introduzindo em partes aspectos positivos como o aumento na cooperação, juntamente a efeitos adversos como o aumento da vulnerabilidade e a capacidade de crises econômicas se alastrarem rapidamente (GILPIN, 2002). Nesse sentido, a interdependência econômica introduz novos fatores a serem considerados em relação ao funcionamento da economia internacional e o interesse nacional dos Estados.
Por conseguinte, os últimos anos contribuíram para a reafirmação da necessidade de diversificar as reservas nacionais de forma a atingir mais segurança aos cofres estatais de atores internacionais, sendo essencial ao combate de sanções econômicas impostas por países que detêm maior influência no mercado ou a crises geopolíticas que causam a diminuição do valor desses bens.
Sendo assim, para um Estado, a distribuição de suas reservas se tornou uma maneira eficaz de gerenciar danos e ampliar do portfólio de ativos negociáveis no sistema de forma que contribua para o maior lucro da entidade estatal.

Referências:
BBC. ‘Lucro extraordinário’ de El Salvador com bitcoin desperta críticas e questionamentos. BBC, 12 dez 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c032l4k4r0ko. Acesso em: 13 ago 2024.

FMI. Dollar Dominance in the International Reserve System: An Update. FMI, 11 jun 2024. Disponível em: https://www.imf.org/en/Blogs/Articles/2024/06/11/dollar-dominance-in-the-international-reserve-system-an-update Acesso em: 13 ago 2024.

GILPIN, Robert. A economia política das Relações Internacionais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.

Mendonça, R. (2020). “Gestão de Reservas Internacionais e Diversificação de Ativos: A Experiência Brasileira.” Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 63, n.º 1, pp. 105-124.