
Por Manuelle Catunda Gaia — Acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais na Unama.
Segundo Marx, a luta de classes é a força motriz da história. Marx acreditava que a suposta autonomia de um país era uma ilusão, pois as economias nacionais eram, e são, na verdade, profundamente interconectadas e influenciadas pelo sistema capitalista global (1997).
As supostas controvérsias sobre o resultado das eleições presidenciais de 2024 na Venezuela exemplificam isso, visto que o país tem um longo histórico de conflitos com os Estados Unidos envolvendo o acesso ao seu petróleo. A teoria marxista analisa que os meios de comunicação são frequentemente controlados por interesses da classe dominante, e isso pode ser aplicado à narrativa promovida pelos Estados Unidos, que apresenta a crise venezuelana como resultado de falhas internas e do governo de Nicolás Maduro, desviando a atenção das reais causas externas da crise, como o impacto devastador das sanções econômicas e das tentativas de intervenção eleitoral. Este discurso não apenas desresponsabiliza os EUA por suas ações, mas também serve para justificar uma postura interventora contínua, manipulando a percepção pública e política para manter a influência norte-americana na região.
A magnitude da renda petroleira desde o início de sua exploração teve pouco a ver com o desenvolvimento da atividade petroleira em si, mas com a rentabilidade que a terra poderia oferecer nas relações com as empresas petrolíferas estrangeiras, e para Marx, o processo de acumulação nunca se daria por uma expansão contínua, harmoniosa ou simples. Por muitos anos, antes de Chávez e Maduro, os EUA utilizou de sua influência para ter fácil acesso ao petróleo venezuelando em diversos momentos cruciais onde precisou repor suas reservas estratégicas de petróleo, a exemplo, durante a Segunda Grande Guerra, durante a reconstrução da Europa e durante a Guerra da Coreia.
A partir da ascensão de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, a postura dos Estados Unidos em relação ao país tem sido marcada por uma hostilidade crescente, intensificada pela adoção de políticas socialistas e pela nacionalização de indústrias chave, incluindo o setor petrolífero. O governo de Chávez e, subsequentemente, o de Maduro, representaram um desafio direto ao domínio econômico e político dos EUA na América Latina. As sanções, o apoio a grupos opositores e as tentativas de intervenção foram impulsionados pela necessidade de desestabilizar um governo que ameaçava não apenas a influência estadunidense, mas também seus interesses econômicos na região.
O que acontece entre os Estados Unidos e a Venezuela é uma guerra político-econômica, materializada pelas sanções, bloqueios e locautes orquestrados interna e externamente, tentativas constantes de desestabilização política, a partir de financiamentos de instituições voltadas para a “promoção da democracia” e dos “valores humanitários”, que se traduzem pela interferência em processos eleitorais e pelas tentativas de golpe (LavraPalavra, 2024). Independente disso, em recente coletiva de imprensa, o recém reeleito presidente afirmou que estarão sempre prontos para conversar, porém não como escravos, não como colônia (Voz de America, 2024).
A teoria marxista oferece uma visão crítica sobre como as dinâmicas de classe e imperialismo moldam a política internacional e as relações de poder, sublinhando a importância de considerar a luta internacional de classes e as estratégias imperialistas para entender os conflitos e as dinâmicas políticas globais. Além disso, é crucial também considerar a interação entre o capital financeiro e as políticas externas, onde em contextos como o da Venezuela, onde o petróleo é um recurso estratégico na América Latina, essa dinâmica se torna ainda mais evidente.
A reeleição popular de Nicolás Maduro em 2024 é um evento que reforça a resistência do legado histórico da Revolução Bolivariana contra pressões externas, particularmente as dos Estados Unidos, enquanto não necessariamente intensifica a crise interna do país, visto que ‘é o segundo país que mais cresceu na América Latina ano passado, o que mais deve crescer neste ano. E estamos falando de um país que convive com 930 sanções’ (Brasil de Fato, 2024). Portanto, a ‘crise venezuelana’ é vendida como um produto da política local, enquanto suas raízes profundas estão no que o marxista Vladimir Ulianov chamou de ‘rede de dependência financeira e diplomática’, característica essencial do imperialismo (1984).
Referências:
COELHO, Rodrigo Durão, ESTANISLAU, Lucas. Recuperação econômica da Venezuela é invejável, diz Juliane Furno. Brasil de Fato, São Paulo, 01 de agosto de 2024. Seção Internacional. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/08/01/recuperacao-economica-da-venezuela-e-invejavel-diz-juliane-furno Acesso em: 11 de agosto de 2024.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Capital Volume III: The Process of Capitalist Production as a Whole. USSR: Institute of Marxism-Leninism, 1959.
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista: Tradução de José Barata Moura. Lisboa: Editorial Avante!, 1997.
LOPES, Gustavo Melo Novais da Encarnação. A pobreza da geopolítica: ação imperialista e “guerras híbridas” na Venezuela contemporânea. LavraPalavra, 2024. Disponível em: https://lavrapalavra.com/2024/04/03/acao-imperialista-e-guerras-hibridas-na-venezuela-contemporanea/ . Acesso em: 11 de agosto de 2024.
MADURO responde a esfuerzos para mediar en crisis electoral en Venezuela. Voz de America, Washington, 09 de agosto de 2024. Seção Redacción. Disponível em:https: //www.vozdeamerica.com/a/maduro-responde-que-no-se-inmiscuye-en-asuntos-de-otros-paises-consultado-por-gestiones-de-brasil-colombia-y-m%C3%A9xico-/7736787.html Acesso em: 11 de agosto de 2024.
SALAS, M.T. Una herencia que perdura: petróleo, cultura y sociedad en Venezuela. Caracas: Galac S.A., 2014.
ULIANOV, Vladimir Ilyich. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Lisboa-Moscovo: Editorial Avante!, 1984.
