
Gabriele Nascimento (acadêmica do 2º semestre de RI da UNAMA)
Keity Oliveira e Lara Lima (acadêmicas do 8º semestre de RI da UNAMA)
A Amazônia, além de sua imensa importância ambiental, é também um território profundamente ligado à história humana. Em 2023, a seca que atingiu a região revelou novos sítios arqueológicos, evidenciando a presença de civilizações que habitaram a área há mais de 10 mil anos. Com a previsão de uma estação chuvosa fraca em 2024, devido ao fenômeno El Niño, é possível que novos sítios arqueológicos sejam novamente expostos (Müller, 2024). Isso reforça a necessidade urgente de preservar a Amazônia e aprofundar o estudo dos vestígios que ligam o passado ao presente na Amazônia Legal.
Conforme definição da Funari (2003), a Arqueologia se caracteriza como uma ciência que se debruça sobre o estudo da materialidade elaboradora pelas sociedades humanas como parte de sua cultura, em sentido amplo, sem limitar-se ao caráter cronológico e sim, ao modo de organização de um determinado grupo. Sendo assim, a arqueologia é uma das disciplinas científicas que estudam as relações entre a cultura material e sociedades estabelecidas durante o tempo.
A vertente da Arqueologia que trata do estudo das sociedades no contexto da presença da escrita e/ou documentação define-se como “Histórica” e se dedica a estudar, a partir da análise dos materiais encontrados em sítios arqueológicos, ou seja, locais que se encontram vestígios de ocupação humana. Essa vertente permite contribuir com a elaboração de explicações sobre as mudanças na paisagem brasileira e de que forma essas alterações feitas compõem a matriz multicultural do país.
Na Amazônia, a arqueologia é de fundamental importância, não só para o resgate histórico dos povos originários, mas também para o fortalecimento de políticas públicas que visem a preservação do patrimônio material e garantam a sobrevivência das populações indígenas atuais (Pessoa, 2018). Muito antes da invasão colonizadora de Portugal, existiam na região povos que já tinham seus modos de organização e formas de vida estabelecidas, produzindo além de costumes e hábitos, objetos que ajudam a contar a história da ocupação humana na Amazônia.
Os estudos arqueológicos, ao longo do tempo, sempre demandaram muitos recursos, em vários aspectos, especialmente no que tange a boa qualificação profissional de quem investiga e o quanto se gasta com a execução do trabalho. No Brasil, ainda há muito a descobrir nessa área e para isso, necessita-se de aparato humano, na formação de profissionais e monetário, com incentivos governamentais voltados para programas de pesquisa e políticas públicas de valorização material.
Nessa conjuntura, um dos principais temas de interesse da pesquisa de arqueólogos é as relações entre as múltiplas vozes das comunidades tradicionais com o patrimônio arqueológico. Nas comunidades, a Arqueologia e suas contribuições visam o fortalecimento do interesse e da valorização do patrimônio arqueológico, percebendo como as pessoas incorporam em seus modos de organização, a presença dos vestígios arqueológicos.
Dentro desse processo investigativo, uma pesquisa publicada na revista Science em 2023, revelou uma estimativa sem precedentes do número de sítios arqueológicos pré-colombianos do tipo “obras de terra” ainda escondidas na floresta amazônica, tendo como base tanto estruturas já conhecidas quanto novas que foram descobertas e relatadas no estudo (Esquer, 2024). Os pesquisadores descobriram mais de 20 construções de terra sob o dossel da floresta no total, o que inclui uma vila fortificada, sítios defensivos e cerimoniais, montanhas coroadas, monumentos megalíticos e sítios ribeirinhos em várzeas, informações obtidas através da tecnologia avançada de sensoriamento remoto conhecida como LiDAR – Light Detection and Ranging (Detecção e alcance de luz, em português).
Capaz de coletar informações sobre a estrutura florestal e sobre o terreno abaixo da floresta, o sensor aéreo tem possibilitando a revolução da forma como as informações são obtidas sobre a superfície da Terra, permitindo que cada vez mais descobertas arqueológicas sejam feitas. Os autores da pesquisa estimam que pode haver mais de 10 mil obras de terra ainda ocultas na floresta, e ainda identificaram mais de 50 espécies de árvores domesticadas que indicam a provável ocorrência de sítios arqueológicos desse tipo, sugerindo práticas ativas de manejo florestal indígena por sociedades pré-colombianas (Esquer, 2024).
A pesquisa, segundo o coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), indica que a Amazônia sempre foi o lar dos povos indígenas e ressalta dados muito importantes como o apontamento de evidências diretas da habitação indígena ao longo dos séculos e até mesmo milênios, demonstrando o direito dos indígenas a esses territórios (Esquer, 2024). A arqueologia, acrescenta por meio da descoberta desses sítios, a revelação de onde, como e por quanto tempo os povos indígenas viveram no passado.
O território amazônida ainda é intocado, arqueologicamente falando. Nesse sentido, a cada passo que a ciência dá, a Amazônia vai ganhando novos importantes capítulos para sua história, como é o caso dos sítios arqueológicos. Na Amazônia Legal, há um total de 6.178 sítios arqueológicos cadastrados no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Governo Federal (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), conforme dados coletados até setembro de 2023 (Müller, 2024).
Além disso, dentre esse número, 4.415 estão em áreas de floresta, no qual, 71% (3.150) estão em áreas de desmatamento e já foram impactados pelo problema, conforme dados levantados pelo InfoAmazonia (Müller, 2024). A escalada da perda de cobertura florestal aliada ao uso predatório e desenfreado dos recursos naturais da região, ameaça todo o patrimônio arqueológico, impactando na perda de sítios arqueológicos que ainda não forma integralmente descobertos e/ou estudados por pesquisadores e pelas comunidades locais.
Dessa maneira, a manutenção dos trabalhos está intrinsecamente ligada à preservação ambiental e social das comunidades originárias, pois existe um arsenal, físico e humano, ainda escondido, mas com a ameaça da construção de barragens, rodovias e desmatamento da floresta, além da invisibilidade dada aos indígenas, a continuação da pesquisa se torna cada vez difícil. É importante destacar o papel das populações tradicionais na proteção das histórias locais, por meio dos saberes, que se tornam verdadeiros patrimônios localizados, singulares e situados que resgatam e mantém viva a construção histórica do bioma e suas particularidades.
A palavra Sumak Kawsay, de origem quéchua, significa Bem Viver, que expressa, ao mesmo tempo, memória e horizonte – memória pré-colonial e tradicional do mundo andino – e, por outro lado, protesto e luta contra o capitalismo predatório. Sendo assim, a luta indígena é ligada ao paradigma do Bem Viver por fazer parte de uma ampla aliança pela preservação da vida no planeta Terra. Nesse sentido, Bonin (2015) destaca que “para pensar em Bem Viver é necessário beber da fonte ancestral, mas isso não significa fazer uma leitura utópica do passado, e sim pensá-lo como tempo que respalda a contínua produção do presente e do futuro.”
Portanto, infere-se que o apoio governamental é fundamental para a preservação dos sítios arqueológicos na Amazônia. Por isso, os Estados, devem investir em políticas públicas que valorizem a pesquisa e os profissionais da área de arqueologia, os quais são imprescindíveis para garantir que o potencial do patrimônio histórico seja explorado e preservado adequadamente, o que permite a valorização da cultura do país.
Diante da temática exposta, recomendamos a série documental chamada “Amazônia, arqueologia da floresta” (2022). A série retrata as pesquisas realizadas no sítio arqueológico Monte Castel em Rondônia. Realizada pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, a série mostra como a presença humana ajudou a moldar a floresta o que é indispensável para entender as civilizações antigas. A série está disponível para acesso no YouTube, através do link a seguir:
< https://youtu.be/EG8xXLEhmrQ?si=EYN9qohDEFsd1QlC >
Recomendamos também, o trabalho da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), a qual é uma associação civil dedicada a promoção da arqueologia no Brasil. Seu objetivo é congregar arqueólogos e especialistas voltados ao ensino. A pesquisa e ensino, visando promover o estudo e a divulgação de assuntos referentes a arqueologia.
Site : < https://www.sabnet.org/ >
YouTube : < https://youtube.com/@sociedadedearqueologiabras1041?si=CsM4tALw3pp4R6ez >
Facebook: < https://www.facebook.com/ArqueologiaSAB >
X : < https://x.com/ArqueologiaSAB?t=k-JJXoLCE35NJMYLtJq7Xg&s=09 >
Por fim, recomendamos o trabalho do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), instituição de caráter científico-cultural sem fins lucrativos. O Instituto foi fundado em 29 de abril de 1961 e dedica-se a pesquisa e projetos voltados para a arqueologia no Brasil, incluindo a Amazônia, é busca promover valorização do patrimônio arqueológico.
Site : < https://arqueologia-iab.com.br/ >
Instagram: < https://www.instagram.com/iab.arqueologia?igsh=YzJheWFudmFmZms3 >
YouTube: < https://youtube.com/@institutodearqueologiabras3029?si=km_yURFhqOzH3V9S >
Facebook: < https://www.facebook.com/instituto.dearqueologiabrasileira >
REFERÊNCIAS
BONIN, Iara. O BEM VIVER INDÍGENA E O FUTURO DA HUMANIDADE. Conselho Indigenista Missionário. 2015. Disponível em: < https://cimi.org.br/o-bem-viver-indigena-e-o-futuro-da-humanidade/#:~:text=A%20luta%20ind%C3%ADgena%20pelo%20Bem,do%20presente%20e%20do%20futuro. > Acesso em: 20 de agosto de 2024.
ESQUER, Michael. Como sítios arqueológicos na Amazônia podem ajudar na luta por terras indígenas. Mongabay. Publicado em: 15 de fevereiro de 2024. Disponível em: < https://brasil.mongabay.com/2024/02/como-sitios-arqueologicos-na-amazonia-podem-ajudar-na-luta-por-terras-indigenas/ > Acesso em: 16 de agosto de 2024.
FUNARI, Pedro Paulo A. A arqueologia. São Paulo: Contextos, 2003.
MÜLLER, Lisiane. 71% dos sítios arqueológicos em florestas na Amazônia Legal estão sob áreas desmatadas. Infoamazonia. Publicado em: 30 de janeiro de 2024. Disponível em: < https://infoamazonia.org/2024/01/30/71-dos-sitios-arqueologicos-em-florestas-na-amazonia-legal-estao-sob-areas-desmatadas/ > Acesso em: 16 de agosto de 2024.
PESSOA, Cliverson. Arqueologia como possibilidade de conhecer povos que viveram na Amazônia, para recontar a história da imensa diversidade da região. Entrevista concedida a Elvira Eliza França. Amazônia Real. 18 de dezembro de 2018. Disponível em: < https://amazoniareal.com.br/arqueologia-como-possibilidade-de-conhecer-povos-que-viveram-na-amazonia-para-recontar-historia-da-imensa-diversidade-da-regiao/ > Acesso em: 16 de agosto de 2024.
