Daiany Lima – 4° semestre de Relações Internacionais da Unama.

A história brasileira foi marcada por diversos acontecimentos , desde a catequização forçada de indígenas em 1500 a um 7×1 sofrido na Copa do Mundo em 2014. Entretanto, entre esses dois eventos desastrosos, o país recebe em seu cotidiano o primeiro jogo de aposta: O Jogo do Bicho. Em 1892, no Brasil Colônia, o Barão João Batista Viana Drummond encontrou, na venda de bilhetes do jardim zoológico que ele mantinha no Rio de Janeiro, uma via para acelerar o crescimento do dinheiro para a manutenção deste Jardim. Na história, aquele que comprasse o ingresso ganhava uma figurinha de um dos 25 bichos da lista que era sorteada, aquele que tivesse a figurinha do bicho chamado, ganhava prêmios em dinheiro. Tal prática não perdurou somente no jardim zoológico. Após um tempo, esse jogo passou a ocorrer por todo Rio de Janeiro e por várias regiões brasileiras (Pereira, 2022) 

132 anos após esse evento, nota-se que jogos de apostas mexem com o coração do povo brasileiro. As empresas entenderam tão bem, que juntou com uma paixão ainda mais avassaladora: os jogos de futebol. As “Bet” ganharam força por permitirem e facilitarem as apostas em jogadores e/ou times futebolísticos. Registrado, a “Bet365” foi a primeira empresa a realizar esse trabalho, atualmente, possui mais de 35 milhões de usuários ativos em sua plataforma. 

Em outro setor, há outro ainda mais preocupante: o Fortune Tiger, ou popularmente conhecido como jogo do “tigrinho”. Tal jogo reproduz uma interface similar aos cassinos, prometendo saques e ganhos rápidos, basta acertar uma linha de três imagens iguais e voilá, você, supostamente, será o mais novo endinheirado do país. Todavia, apesar de terem nomes diferentes e criados em lugares diferentes, elas têm várias semelhanças: prometem ganhos ágeis, não são legalizadas e o pior, atuam para fortalecer ainda mais uma cultura que sente anseio pelo ganho imediato de dinheiro. 

Essa cultura que muito dialoga com Susan Strange,  uma importante teórica das Relações Internacionais, quando Strange explícita como o Mercado Financeiro, que organiza um dinheiro que sobrevoa as contas bancárias e bolsas de valores velozmente, que movimenta e sustenta um mercado vive sobre instabilidades e crises cíclicas. 

Os impactos econômicos que são sentidos pelo desenfreado uso e participação do povo nessas casas são notórios, uma vez que 16,7% das pessoas entre 18 e 25 anos chegam a pegar empréstimo consignado e usar o dinheiro para apostas na internet (Mapa Serasa Crédito, 2024). Além disso, 64% das pessoas que fazem apostas nas casas esportivas usam sua principal renda para apostar, sendo que 19% dessa população não realizam compras no varejo alimentar e 14% deixam de adquirir produtos de higiene e beleza para destinar esse valor para apostas (Metrópole , 2024). Sob a perspectiva Mental, esses números tendem a crescer. Os dados mais atuais do Ministério da Saúde mostram que, entre 2018 e 2023, o número de pessoas atendidas por jogo patológico no SUS aumentou, saindo de 108 para 1,2 mil. (DW, 2024)

Apesar do jogo do bicho ser feito majoritariamente nas ruas, As bets e o “tigrinho” ganham forças nas mídias digitais, e é através delas que muitos jogadores entram nesse mundo de apostas. É necessário destacar que o Estado facilitou com que tais práticas fossem flexibilizadas no cotidiano brasileiro. Em dezembro de 2018, no último ano de governo Temer, o ex-presidente sancionou uma Medida Provisória, que foi aprovada pelo Senado em novembro, a legalização de apostas esportivas. Desde então, tal regulamentação gerou problemáticas já imagináveis. Como dito no início deste parágrafo, As bets e Fortine Tiger usam dos meios digitais para atrair novos apostadores, o que leva a outra questão: a necessidade de regulamentar as mídias digitais. O uso de Inteligência Artificial para colocar a voz de uma pessoa reconhecida na mídia sem seu consentimento para convidar novos usuários a participarem dessa comunidade e influenciadores digitais potencializam esse movimento alarmante (OPOVO, 2023). 

As regulamentações das redes sociais é uma pauta que precisa avançar no meio congressista brasileiro para que haja essa mudança nesses espaços. Na atualidade, são essas redes que promovem desde a promoção de uma vaga no mercado laboral a ataques à soberania nacional. Permitir que comportamentos como esse sejam normalizados, tornar-se uma grande terra sem lei. 

Referências:

G1. 2023. O que é o ‘jogo do tigrinho‘. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2023/12/17/o-que-e-o-jogo-do-tigrinho-e-por- que-ele-e-ilegal-no-brasil.ghtml. Acesso em: 29 de Agosto de 2024.

Âmbito Jurídico. 2022. Bet365: A história por trás do império do jogo online.Disponível em:https://ambitojuridico.com.br/noticias/bet365-a-historia-por-tras-do-imperio-do-jogo-o nline/. Acesso em: 29 de Agosto de 2024.

PEREIRA, Ana Carolina. Blog Editora Unicamp. 2022. A trajetória do jogo do bicho na sociedade brasileira. Disponível em:https://blogeditoradaunicamp.com/2022/10/27/a-trajetoria-do-jogo-do-bicho-na-socie dade-brasileira/. Acesso em: 29 de Agosto de 2024.

ALMEIDA, Gabriela de. BECKER, Clara. Metrópole. 2024. Bets trazem risco de vícios, endividamento e dano social grave. Disponível em:

https://www.metropoles.com/colunas/nas-redes/bets-trazem-risco-de-vicios-endivida mento-e-dano-social-grave. Acesso em: 29 de Agosto de 2024.

STRANGE, Susan. Basil Blackwell. Casino Capitalism. 1986

JORDÃO, Fernando. Correio Braziliense. 2018. Cinco pontos para entender a legalização das apostas esportivas no Brasil. Disponível em:https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2018/12/14/interna_politica,725480/5-pontos-para-entender-a-legalizacao-das-apostas-esportivas-no-brasil.sht ml. Acesso em 29 de Agosto de 2024.

TRINDADE, Wanderson. FERNANDES, Mariana. O Povo. 2023. Risco BET: apostas dominam redes sociais com apoio de influenciadores. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/2023/04/28/risco-bet-apostas-domi nam-redes-sociais-com-apoio-de-influenciadores.html. Acesso em 29 de Agosto de 2024.

SOUZA, Alice de. DW. 2024. Jogo de azar legalizado pode causar caos na Saúde no Brasil Disponível em:

https://amp.dw.com/pt-br/brasil-não-tem-dados-atualizados-nem-serviços-especializados-par a-lidar-com-vício-em-jogos-de-azar/a-69738701. Acesso em 29 de Agosto de 2024.