Gabriele Nascimento (acadêmica do 2º semestre de RI da UNAMA) 

Keity Oliveira e Lara Lima (acadêmicas do 8º semestre de RI da UNAMA) 

As queimadas na Amazônia constituem um sério desafio ambiental que aflige esse bioma há bastante tempo. Embora existam queimadas de origem natural, as que ocorrem atualmente são predominantemente resultantes de ações antrópicas incentivadas principalmente pelo interesse de desenvolver atividades econômicas na região, como a pecuária e a agricultura extensiva. Os impactos dessas queimadas são variados, abrangendo tanto questões ambientais quanto socioeconômicas, que não afetam apenas a região amazônica brasileira  mas que se estendem a outras partes do país especialmente ao sul e sudeste, além de repercutirem globalmente devido à intensificação do aquecimento global. 

O Brasil, considerado um “santuário” quando se fala em biodiversidade, tem sido palco de gigantescas ondas de destruição ambiental. A Amazônia enfrenta mais uma temporada de queimadas, desta vez com uma intensidade maior, o que representa um risco significativo à biodiversidade e às comunidades locais. Conforme dados do programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a região registrou até o dia 27 de agosto deste ano, um total de 28.697 focos de queimadas, isso significa um aumento de 83% em comparação com o mesmo período de 2023, quando houve 15.710 focos (WWF, 2024). 

A floresta está passando por uma crise ambiental sem precedentes, marcada por uma série de desafios que ameaçam a fauna e a flora. Um desses desafios é a seca extrema provocada pelo fenômeno El Niño, que altera os padrões de precipitação, reduzindo assim a quantidade de chuvas na região, contribuindo para o aumento de altas temperaturas e criando um ambiente propício para o surgimento de queimadas no bioma. Os incêndios descontrolados formaram uma densa e extensa nuvem de fumaça, que se espalhou pelo bioma amazônico e pelo sul e sudeste do país (Cassiano, 2024). 

Nesse contexto, é importante ressaltar que os ecossistemas existentes no mundo são interconectados, ou seja, não há de se pensar em consequências isoladas para um ou dois países. A Amazônia, por exemplo, é a grande responsável pela formação dos “rios voadores”, que normalmente transportam a umidade da floresta para outras regiões do continente, transformaram-se num imenso corredor de fumaça. Essas correntes de ar carregam partículas suspensas na atmosfera, que chegam a ser visíveis até do espaço (Castro, 2024). 

Em consonância, os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no dia 22 de agosto deste ano, confirmaram que a fumaça proveniente das queimadas na Amazônia, juntamente com os incêndios no Pantanal e na Bolívia, alcançou grandes distâncias. Ela atingiu estados na região amazônica, como Amazonas, Rondônia, Pará e Acre, além de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, o oeste do Paraná e partes de Minas Gerais, São Paulo e Brasília (WWF, 2024). Em alguns estados, a qualidade do ar foi declarada insalubre, no qual moradores tiveram que sair de suas casas para se proteger do fogo, aulas foram suspensas, estradas interditadas e voos cancelados, etc. (WWF, 2024). 

A pesquisadora Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alertou para os riscos que a Amazônia enfrentará se continuar sofrendo com queimadas, pois a região não é adaptada ao fogo, e quando há incêndios, muitas árvores morrem, tornando o processo de degradação ainda maior (Castro, 2024). Alencar também ressalta que: 

“A mortalidade das árvores, tem impacto, ainda, no estoque de carbono, na biodiversidade em si e se esse fogo continuar recorrente, a floresta vai estar mais inflamável, e vai haver um empobrecimento da vegetação, e somente as espécies adaptadas a essas condições vão conseguir se estabelecer nesse lugar”, CASTRO, 2024, apud ALENCAR, 2024). 

É válido salientar que as queimadas registradas em agosto não se limitam somente à Amazônia, embora esta tenha sido fortemente afetada por numerosos incêndios. Outras regiões, como Cerrado e o Pantanal, também sofreram queimadas significativas (Felipe, 2024). Muitas dessas queimadas são impulsionadas pelas secas, atividades agrícolas e pelo desmatamento ilegal, algumas foram provocadas intencionalmente por criminosos diretamente ligados a atividades ilegais predatórias que atearam fogo nas áreas de mata do Brasil.  

O cenário de queimadas lembra o que aconteceu no estado do Pará, em agosto de 2019, quando fazendeiros combinaram incêndios florestais por aplicativos de mensagens. Conhecido como “Dia do Fogo”, a série de crimes ocorreu entre 10 e 11 de agosto de 2019 no território amazônico. Produtores rurais se mobilizaram para atear fogo em diversos locais, os quais posteriormente, foram descobertos esquemas ilegais de financiamento para as ações criminosas (Lacerda, 2024).  

O resultado foi o aumento de focos de calor em 1.923% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Só nesses dos dois, foram detectados 1.457 focos de calor no estado, com 53 atingindo Terras Indígenas e 534 em Unidades de Conservação. As queimadas que atingiram São Paulo durante os últimos dias ainda não tiveram seus dados de destruição total contabilizados, porém, no dia 23 de agosto, bateu o recorde nacional com mais de 2,3 mil focos de fogo, resultados de possíveis incêndios criminosos que estão sendo investigados pela polícia federal (Lacerda, 2024).  

Os incêndios têm consequências graves para a saúde pública, afetando tanto os povos tradicionais, a população local, quanto os Estados vizinhos. A queima de vegetação libera poluentes atmosféricos perigosos, como partículas finas e gases tóxicos, que por sua vez causam poluição no ar. A exposição a esses poluentes está associada a uma série de problemas, como doenças respiratórias, cardiovasculares, contaminação dos recursos hídricos ou até mesmo escassez (FAS, [s.d]). 

As comunidades locais enfrentam desafios ainda maiores devido à limitada oferta de serviços de saúde e proteção social, especialmente nas regiões isoladas da Amazônia. A destruição das áreas de cultivo e caça, essenciais para a subsistência dos povos tradicionais, agrava sua vulnerabilidade, expondo-os a um maior risco de insegurança alimentar (FAS, [s.d]).  

Em suma, “o Brasil está em chamas, e isso não é uma figura de linguagem”. Nesse sentido, cabe-se destacar que é dever do governo zelar pelo patrimônio ambiental dos brasileiros, no qual os biomas fazem parte da história e identidade do país. As ações ambientais implementadas até o momento, já se mostram ineficazes e insuficientes, colaborando para o aumento de casos de crimes ambientais que atingem tanto a floresta, quanto as comunidades que ali residem.  

É necessário ações contundentes e urgentes, para poder moderar os impactos das queimadas e do desmatamento, preservando assim, a floresta. O estabelecimento de um novo paradigma de governança ambiental, com apoio político, institucional e da própria sociedade civil se faz de extrema importância com intuito de combater as atividades ilegais que avançam pelo território.  

Diante da temática exposta, recomenda-se um documentário e dois filmes para complementar os estudos. O documentário se chama “Rios Voadores da Amazônia – Sem Floresta Não tem Água” (2018), uma produção com parceria entre o Brasil e a Alemanha. O longa discute os chamados “rios voadores”, importante fenômeno natural que abastece todo o Brasil com água e que com o intenso desmatamento, está sendo ameaçado. Disponível para ser assistido no Youtube, através do link a seguir:  

< https://www.youtube.com/watch?v=0Mwo5PVB0ro&ab_channel=GIZBrasil

O primeiro filme se chama “Amazônia em Chamas” (1994) que mostra a vida de Chico Mendes, desde a infância até a sua liderança no sindicato e a campanha internacional promovida por ele contra a devastação da floresta amazônica. Seu assassinato, no final da década de 80, transformou-se em símbolo de resistência e preservação, numa Amazônia vitimada pela exploração de grupos nacionais e internacionais, movidos por interesses econômicos. Disponível para ser assistido no Youtube, através do link a seguir:  

< https://www.youtube.com/watch?v=hSQwTXOg5h4 >  

O segundo filme é uma animação chamada “O Lorax: Em busca da Trúfula Perdida” (2012) que conta a história do personagem Lorax, que luta para proteger a Trúfula, uma árvore fictícia, e seu habitat natural, ameaçados pela ganância humana. Com uma abordagem mais lúdica, o filme revisita a importância de valorizar e preservar as florestas como fonte de vida e inspiração. O longa está disponível para ser assistido nos serviços de streaming da Netflix, Amazon Prime Video e Telecine.  

Por fim, recomenda-se o trabalho realizado pelo Greenpeace Brasil, braço do Greenpeace no país, que se constitui como uma organização não governamental de ambiente, com mais de 30 anos de luta em defesa do meio ambiente. É presente no Brasil desde 1992 com a atuação de ativistas que denunciam e confrontam governos, empresas e projetos que incentivam a destruição da Amazônia e ameaçam o clima global. Para mais informações, acesse: 

Site: < https://www.greenpeace.org/brasil/

Instagram: < https://www.instagram.com/greenpeacebrasil/

Facebook: < https://www.facebook.com/GreenpeaceBrasil/

REFERÊNCIAS 

CASTRO, Matheus. Mancha de fogo encobre mais de 500 km de extensão da Amazônia, apontam imagens de satélite. G1. Publicado em: 31 agosto de 2024. Disponível em: <https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2024/08/31/mancha-de-fogo-encobre-mais-de-500-km-de-extensao-da-amazonia-apontam-imagens-de-satelite.ghtml>. Acesso em: 31 de agosto de 2024. 

FUNDAÇÃO AMAZONAS SUSTENTÁVEL (FAS). Como o desmatamento na Amazônia tem afetado a saúde pública? [s.d]. Disponível em: < https://fas-amazonia.org/blog-da-fas/2023/11/24/como-o-desmatamento-na-amazonia-tem-afetado-a-saude-publica/#:~:text=Essa%20queima%20de%20vegeta%C3%A7%C3%A3o%20libera,e%20at%C3%A9%20c%C3%A2ncer%20de%20pulm%C3%A3o > Acesso em: 31 de agosto de 2024.  

LACERDA, Nara. Coincidência ou método? Queimadas recorde em SP lembram ataque coordenado à Amazônia em 2019. Brasil de Fato. Publicado em: 26 de agosto de 2024. Disponível em: < https://www.brasildefato.com.br/2024/08/26/coincidencia-ou-metodo-queimadas-recorde-em-sp-lembram-ataque-coordenado-a-amazonia-em-2019 > Acesso em: 01 de setembro de 2024.  

PONTES, Felipe. Brasília e outras capitais ficam encobertas por fumaça de queimadas. Agência Brasil. Publicado em: 25 de agosto 2024. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-08/brasilia-e-outras-capitais-ficam-encobertas-por-fumaca-de-queimadas>. Acesso em: 31 de agosto de 2024. 

WWF-BRASIL. Amazônia já tem mais de 50 mil focos de fogo em 2024 e fumaça se espalha pelo país. WWF Brasil. Publicado em: 29 de agosto 2024. Disponível em: https://www.wwf.org.br/?89520/Amazonia-ja-tem-mais-de-50-mil-focos-de-fogo-em-2024-e-fumaca-se-espalha-pelo-pais. Acesso em: 31 de agosto de 2024.