
Davi Soares Silva Souza – 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Desde sua criação, a música sempre teve o propósito de transmitir uma ideia, um sentimento ou uma ação. Ao longo da história, ela tem sido utilizada como uma poderosa ferramenta de influência na sociedade. Governos frequentemente recorrem à música para benefício próprio, seja como estratégia econômica ou para moldar socialmente seus territórios. No entanto, a música também se destaca como uma forma de resistência. Em contextos de regimes autoritários e repressivos, ela se transforma em um meio de contestação, atingindo o cerne do poder e dando voz àqueles que lutam pela justiça.
No final do século XVIII, durante o auge da escravidão, milhares de africanos escravizados foram levados para os Estados Unidos, trazendo consigo suas expressões vocais tradicionais. Entre elas, destacavam-se os “hollers”, canções entoadas nas plantações, usadas pelos escravizados para se comunicar, entreter-se e combater o tédio do trabalho árduo nos campos. Essas músicas eram uma das primeiras formas de expressão artística em resposta à opressão da época, marcando um ponto crucial na história da música (PLANETA MUSICA, 2020).
Com o fim da escravidão no final do século XIX e a libertação dos escravizados, emergiu o blues, um gênero musical ligado à experiência afro-americana. Profundamente influenciado pelos cânticos entoados pelos escravos nos campos de algodão, o blues tornou-se uma forma de expressão poderosa, dando voz aos sentimentos de dor, esperança e resistência diante da opressão. Em uma época marcada por intenso preconceito racial e leis abertamente racistas, os chamados ”Black Codes”, o blues não apenas expunha as dificuldades enfrentadas pelos negros nos Estados Unidos, mas também protestava contra a segregação e a discriminação (PLANETA MUSICA, 2020). Dessa forma, o blues desempenhou um papel fundamental na construção da cultura afro-americana e na evolução da música moderna.
Após o fim da escravidão e a influência do blues como uma forma de protesto, o século XX viu o surgimento de ditaduras ao redor do mundo, criando um contexto social onde várias minorias enfrentavam repressões severas. Além dos afro-americanos, outras comunidades também sofriam sob regimes autoritários que silenciavam qualquer forma de dissentimento. Na América Latina, Brasil, Uruguai, Chile e argentina sofreram por ditaduras, e também viram uma crescente manifestação musical.
No Brasil, Chico Buarque e Milton Nascimento foram censurados durante a ditadura militar pela música “Cálice”, que criticava metaforicamente a repressão e a censura da época. A canção rapidamente se tornou um hino contra a opressão do regime militar, inspirando manifestações e dando voz à resistência popular.
Na Argentina, Charly García, considerado o “pai do rock argentino”, também desafiou a ditadura com sua banda “Serú Girán”, cujas canções rebeldes confrontavam o autoritarismo. Contudo, foi em sua carreira solo que ele expressou com mais intensidade sua indignação contra a repressão. Em sua música “Los Dinosaurios”, García usa a metáfora do “desaparecimento” de radialistas, cantores e pessoas comuns nas ruas, uma clara referência à censura, às prisões e aos sequestros promovidos pela ditadura argentina. Ambas as músicas se tornaram símbolos de resistência e denunciaram os abusos dos regimes autoritários na América Latina.
No entanto, no Chile, a repressão durante a ditadura de Pinochet foi ainda mais brutal que em outros países da América Latina. O regime não apenas prendia opositores, mas também os torturava e, muitas vezes, os matava. Nesse cenário de terror, surgiu um dos maiores nomes da música como ferramenta de ativismo social: Víctor Jara. Músico e ativista ligado ao partido Unidade Popular, Jara foi a principal voz musical contra a ditadura de extrema-direita de Pinochet. Ele nunca escondeu sua posição política e participava ativamente de manifestações contra o golpe militar de 11 de setembro de 1973.
Víctor Jara foi posteriormente torturado até a morte, deixando um legado para aqueles ligados às causas sociais e ao ativismo. Sua música “El Derecho de Vivir en Paz” criticava abertamente a Guerra do Vietnã e as repressões sofridas pelos povos indígenas, denunciando tanto o governo dos Estados Unidos, que apoiou o golpe de 1973 no Chile, quanto as apropriações de terras indígenas promovidas por Pinochet. Após sua morte brutal, a canção se tornou um poderoso hino em toda a América Latina, que na época vivia sob o jugo de diversas ditaduras. A tragédia de sua morte só reforçou o impacto de sua música, que continua a inspirar movimentos de resistência e justiça social até hoje.
Como observado, a música está profundamente ligada à identidade social de um estado, refletindo as variadas formas culturais e históricas de cada país. A América Latina exemplifica isso claramente, mostrando como diferentes gêneros musicais expressam as identidades regionais e nacionais. Durante os golpes militares, esses regimes autoritários provocaram uma ruptura significativa com essas identidades culturais. A repressão e a censura geraram um ambiente de silêncio forçado, mas também inspiraram uma poderosa manifestação musical que buscava restaurar e reafirmar as identidades perdidas.
A obra de Alexander Wendt, “Social Theory of International Politics” (1999), reflete perfeitamente como as identidades são socialmente construídas. Wendt argumenta que as identidades dos estados, assim como as dos indivíduos, são formadas por meio de interações sociais e influenciam diretamente suas políticas internas e externas. No contexto da música e da repressão na América Latina, essa teoria se aplica à maneira como as identidades culturais, ameaçadas por regimes autoritários, encontraram na música um meio de resistência e reconstrução.
Até hoje, a música permanece como uma poderosa forma de ativismo social. Mesmo com a queda de regimes autoritários e os avanços significativos nos direitos e no respeito às minorias, muitos desses problemas persistem. A música continua sendo um veículo essencial para conscientizar, promover a tolerância e amplificar vozes marginalizadas. De gêneros como o blues ao hip hop, do samba ao funk, e do rock ao pop, a música atravessa fronteiras culturais e sociais, carregando mensagens de resistência, igualdade e justiça. Ela não apenas reflete as lutas de cada época, mas também inspira mudanças e fortalece movimentos em prol de uma sociedade mais inclusiva e equitativa.
REFERENCIAS:
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
As Origens do Blues e seus Personagens. PLANETA MUSICA, 2020. Disponivel em:
https://blog.planetamusica.net/as-origens-do-blues-e-seus-personagens/#:~:text=O%20Blues%20foi%20originalmente%20cantado,e%20dan%C3%A7as%20countrys%20e%20africanas.
Víctor Jara, um gigante da música que a selvageria de Pinochet não conseguiu calar. BRASIL DE FATO, 2023, 6 de Setembro. Disponível em:
https://www.brasildefato.com.br/2023/09/06/victor-jara-um-gigante-da-musica-que-a-selvageria-de-pinochet-nao-conseguiu-calar
Música Cálice de Chico Buarque: análise, significado e história. CULTURA GENIAL. Disponivel em:
https://www.culturagenial.com/musica-calice-de-chico-buarque/
5pra1: Charly García. MONKEY BUZZ, 2024, 28 de junho. Disponível em:
https://monkeybuzz.com.br/materias/5pra1-charly-garcia/#:~:text=As%20bandas%20Sui%20Generis%20(1969,juventude%20se%20curvasse%20ao%20movimento.
Compare ditaduras militares no Chile e no Brasil. FOLHA DE SAO PAULO, 2023, 9 de setembro. Disponivel em:
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/09/veja-semelhancas-e-diferencas-entre-as-ditaduras-militares-no-chile-e-no-brasil.shtml
