
Julia Castro, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 2004
Direção: Terry George
Distribuição: United Artists
Gênero: Drama
Países de Origem: Estados Unidos, Reino Unido, África do Sul e Itália
Ambientado durante o genocídio em Ruanda, em 1994, que levou à morte de quase um milhão de pessoas, o filme acompanha Paul Rusesabagina, gerente de um hotel de luxo em Kigali, que usa sua posição para abrigar e proteger diversos refugiados do massacre, enquanto a comunidade internacional falha em intervir (AdoroCinema, 2024). O enredo é baseado na história real de Paul Rusesabagina, um gerente do Hôtel des Mille Collines, que usou habilidades diplomáticas para abrigar e salvar mais de 1.200 tutsis e hutus durante o massacre.
A narrativa se passa em Kigali, capital de Ruanda, onde convivem as etnias hutu e tutsi, cuja rivalidade é histórica e exacerbada pelo colonialismo belga. Paul Rusesabagina é um hutu e gerente do luxuoso Hôtel des Mille Collines, administrado por uma empresa belga. Ele tem uma vida confortável e pacífica com sua esposa Tatiana, que é tutsi, e seus filhos. Em 1994, o presidente ruandês Juvénal Habyarimana, um hutu, é assassinado. Esse evento desencadeia uma onda de violência brutal, com milícias hutus, como a Interahamwe, iniciando o massacre de tutsis e hutus moderados. Paul, inicialmente focado em proteger apenas sua família, percebe a gravidade da situação e abriga seus vizinhos no hotel, que ainda é considerado um local seguro por ser administrado por estrangeiros.
As forças da ONU, lideradas pelo coronel Oliver, estão presentes, mas são incapazes de agir diretamente para proteger os civis, já que a missão de paz não tem permissão para intervir. A comunidade internacional rapidamente evacua seus cidadãos estrangeiros, deixando civis ruandeses à mercê dos genocidas. Enquanto diplomatas e militares estrangeiros partem, Paul é abandonado com centenas de refugiados no hotel. Conforme o massacre avança, Paul utiliza sua inteligência e habilidades diplomáticas para negociar com oficiais corruptos, como o general Bizimungu, oferecendo subornos para evitar ataques contra os civis.
O conflito étnico-racial que ocorreu em Ruanda em 1994, teve como origem a segregação entre os grupos hutus e tutsis, intensificada no período de colonização do país pela Bélgica até a independência da República de Ruanda em 1962 (GUERRA, 2019). O longa-metragem retrata as consequências históricas dessa divisão colonial e das desigualdades estruturais entre o Norte e o Sul Global, que culminaram no genocídio em Ruanda. Dessa forma, podemos relacioná-lo com a teoria pós-colonial das Relações Internacionais, que enfatiza como o colonialismo impôs categorias e divisões étnicas, perpetuando desigualdades mesmo após a independência formal de diversos países.
Em sua obra “Pode o Subalterno Falar?” (SPIVAK, 1988), Gayatri Spivak argumenta que o subalterno é uma figura historicamente oprimida e marginalizada, cujas perspectivas são sistematicamente excluídas ou silenciadas pelas estruturas globais de poder. Mesmo quando suas vozes são ouvidas, elas tendem a ser interpretadas ou apropriadas pelas elites globais. A tragédia ruandesa é contada por meio de uma narrativa “ocidentalizada”, que precisa de um protagonista com laços e comportamento mais próximos dos valores globais, como a negociação e a diplomacia, para que a história chamasse a atenção do público. A população civil é colocada como subalterna, pois, mesmo em meio à violência extrema, seus apelos são invisibilizados no âmbito internacional.
É perceptível a crítica que o enredo mostra sobre o comportamento da comunidade internacional diante de conflitos ocorridos em países fundamentalmente negros, ou seja, que não estão situados na rota de comoção ocidental. A ONU, ao final do genocídio em Ruanda, foi duramente criticada por não intervir de forma direta a fim de evitar que em torno de 13% da população ruandesa fosse dizimada em 1994 (GUERRA, 2019). Spivak critica a centralidade das potências ocidentais nas dinâmicas globais, que definem quem participa dos processos decisórios. Os sistemas de poder globais não apenas oprimem, mas também definem os termos nos quais os marginalizados podem ser percebidos (SPIVAK, 1988). No filme, embora os pedidos de intervenção tenham sido feitos, a resposta da ONU foi limitada, e suas ações foram moldadas pelas prioridades estratégicas das elites globais.
Em suma, ao analisar Hotel Ruanda pela lente pós-colonial, é possível evidenciar como estruturas coloniais, racismo sistêmico e marginalização do Sul Global permanecem nas Relações Internacionais contemporâneas. Embora o filme também tenha gerado controvérsia por inverdades em seu roteiro, de uma forma geral, a obra serve como uma crítica às falhas das instituições internacionais em prevenir genocídios e atrocidades.
REFERÊNCIAS:
GUERRA, Ludmila. Hotel Ruanda: África em Perspectiva no Pós-Colonialismo. 2019. Medium. Disponível em: https://medium.com/pet-hist%C3%B3ria-ufs/hotel-ruanda-%C3%A1frica-em-perspectiva-no-p%C3%B3s-colonialismo-7b00086cd23f
Hotel Ruanda. Adoro Cinema. 2024. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-55666/
SPIVAK, Gayatri C. Pode o subalterno falar? Chicago, University of Illinois Press, 1988 (Trad. Bras. Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010)
