
Antônio Vieira, acadêmico do 2° semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica
Gênero: Drama, Crime
Duração: 2h 10min
Ano: 2002
Diretor (a): Fernando Meirelles
Distribuição: Imagem filmes
País de origem: Brasil
Cidade de Deus, indicado a 4 Oscars em 2003, conta a história do jovem Buscapé, que, por meio de sua câmera fotográfica, relata o cotidiano marcado pela violência, desigualdade e crime em uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro. Além disso, o protagonista, que busca fugir dessa realidade, descreve a trajetória de vida de alguns moradores do local, destacando como a falta de oportunidades funciona, muitas vezes, como um incentivo à criminalidade.
A obra começa mostrando o cenário caótico da Cidade de Deus pelos olhos de Buscapé, em seguida, ele narra a origem da comunidade desde sua infância até aquele momento. Segundo o mesmo, tudo começou nos anos 60, quando pessoas que perderam suas casas em desastres naturais passaram a ocupar o local, vendo ali uma oportunidade, porém, a realidade foi marcada pela ausência de recursos básicos como água e luz aliada ao aumento dos habitantes. É nesse contexto que surge o Trio ternura, um grupo de jovens responsáveis pelos assaltos na Cidade de Deus, vistos com bons olhos pelas crianças e adultos por ajudarem a população local.
Certo dia, ao levarem Dadinho, uma criança violenta, para participar do assalto a um motel, as coisas não saem como planejado, o que marca o início da queda do grupo e da atividade policial na Cidade de Deus. Após 10 anos, Buscapé busca se tornar um fotografo profissional, indo de contra a tendência ao crime, que foi seguida por Dadinho, agora chamado de zé pequeno. O criminoso se torna um dos traficantes mais poderosos da comunidade, ao lado de seu melhor amigo Bené. Juntos, eles tentam impor uma ordem na região, punindo, por exemplo, aqueles que cometem roubos em estabelecimentos.
Em um determinado período da trama, é introduzido Mané Galinha (Seu Jorge), um ex-militar que agora trabalha como cobrador de ônibus. Sua vida entra em conflito com a de zé pequeno, que, cego pelo poder, tenta conquistar a esposa de Mané em uma festa. O resultado não agrada o criminoso, que humilha Mané galinha e comete atrocidades contra sua esposa. Esse evento intensifica os confrontos armados, que alimentado pela aliança de mané galinha com a gangue de cenoura – outro traficante da Cidade de Deus -, dita o futuro da região. Paralelamente, Buscapé registra os confrontos para um jornal local, sendo para ele a única forma de ganhar dinheiro e escapar daquela realidade.
Ao analisar o filme, é interessante notar como o Estado molda o comportamento dos primeiros moradores da Cidade de Deus nos anos 60, que sem suporte governamental, são motivados a aceitar o roubo de botijões de gás promovido pelo grupo de amigos. Posteriormente, nos anos 70, com o avanço do tráfico e dos roubos, ocorre o inverso: observa-se o aumento do poder executivo, por meio da polícia, com o objetivo de combater os criminosos. Sob essa ótica, a obra se associa à teoria construtivista das Relações Internacionais, que dentre as suas ideias está a de que os interesses e a identidade do Estado são influenciados pela dinâmica social (SARFATI, 2005).
De acordo com o teórico construtivista Alexander Wendt: “a anarquia é o que os estados fazem dela” (SARFATI, 2005). Ou seja, com a ausência de uma entidade internacional reguladora, o que delimitaria a chance de um Estado cooperar ou entrar em conflito com outro seria o contato de suas identidades (ideologias, culturas, hábitos). Dessa maneira, as nações que se identificam positivamente entre si tendem a cooperar, enquanto aquelas que se identificam negativamente são mais propensas ao conflito. Ademais, Wendt ressalta que essa realidade está passível a mudanças (SARFATI, 2005).
Consoante a essa ideia, Cidade de Deus é uma ótima analogia para exemplificar essa interação estatal em contexto anárquico. Isso porque na trama é apresentado um ambiente onde há a ausência de uma governança efetiva para atender as demandas sociais, o que por sua vez estimula a disputa pelo controle da comunidade entre dois traficantes líderes de gangues: Zé pequeno e Cenoura. Até então os dois cooperavam entre si, já que Cenoura era amigo de Bené, no entanto, Zé pequeno, após ser assolado por problemas pessoais, se torna mais agressivo, o que reflete na ofensiva contra o adversário, logo, no bem-estar dos moradores da favela.
No mais, através de uma direção, atuações, e de um roteiro impecável, a obra cinematográfica explora a influência do ambiente social para a formação social do indivíduo, que está sempre em constante mudança. É um filme aclamado pelo seu realismo ao retratar temas atuais, como a necropolítica, corrupção policial, e o descaso governamental nas áreas mais humildes.
REFERÊNCIAS:
SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 260-264.
