Julia Castro, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica:

Ano: 2024

Direção: Coralie Fargeat

Distribuição: Mubi

Gênero: Terror Corporal

País de Origem: Estados Unidos

Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2024, “A Substância” acompanha Elisabeth Sparkle, uma celebridade em declínio, que após usar uma droga do mercado negro, que cria uma versão mais jovem de si mesma, tem efeitos colaterais devastadores. Através de metáforas e cenas gráficas, o longa-metragem faz  uma crítica ao etarismo na indústria do entretenimento e a obsessão da sociedade atual com a juventude, principalmente em relação às mulheres. 

Ambientada em Los Angeles, a narrativa apresenta Elisabeth Sparkle, uma atriz muito famosa no passado, mas atualmente em decadência. Quando ela completa 50 anos, seu produtor, Harvey, a demite de seu programa, dizendo que precisa de uma mulher mais jovem na TV. Elisabeth sofre um acidente de carro e, no hospital, um enfermeiro lhe dá um pen drive chamado “The Substance”. O pen drive é uma propaganda sobre um soro que a dividiria em duas, com uma versão mais perfeita dela. Porém, cada versão só pode existir por uma semana.  

Elisabeth decide experimentar o soro, resultando em uma versão muito mais jovem de si mesma emergindo de suas costas. A outra versão se autodenomina Sue e é contratada por Harvey para substituir Elisabeth. Seu novo programa tem altos índices de audiência e ela rapidamente chama a atenção do público. Sue é muito mais confiante e liberal, mas se torna uma reclusa ao viver como Elisabeth. Ambas conseguem viver por sete dias, alimentando-se uma da outra, mas entram em conflito pelas suas diferenças. 

A obra cinematográfica aborda temas como exploração corporal e desumanização feminina, se relacionando diretamente com teoria feminista das Relações Internacionais, que buscar questionar as estruturas de poder patriarcal no sistema internacional. Na obra Bananas, Beaches and Bases, de Cynthia Enloe, a autora mostra como o sistema internacional marginaliza e explora as mulheres, tratando-as como objetos de consumo ou peças em jogos de poder. Enloe aponta que mulheres são usadas como recursos descartáveis em arenas como turismo, trabalho doméstico e bases militares (ENLOE, 1989). A protagonista Elisabeth enfrenta essa descartabilidade e objetificação ao ser demitida por estar “velha demais”, demonstrando a crueldade da indústria da beleza e do mundo do entretenimento em seu tratamento às mulheres (ZANETTI, 2024). 

Na mesma obra, Enloe argumenta que a política internacional depende da exploração de papeis de gênero, que mantêm as mulheres em posições de suporte para atender a espectativas que favoreçam o prazer masculino, enquanto suas próprias necessidades e identidades são marginalizadas (ENLOE, 1989). É possível perceber isso durante a cena do restaurante, onde o seu produtor come uma porção de camarão com molho, espalhando sujeira por toda a mesa, enquanto diz a Elisabeth como as mulheres devem se comportar para serem desejadas (ZANETTI, 2024). A sujeira que o produtor espalha, enquanto consome tudo o que deseja, simboliza a exploração irrestrita de um sistema que não vê limites em controlar os comportamentos femininos.

Em suma, “A Substância” é uma sátira sobre o modo como o machismo e os padrões irreais de beleza colocam as mulheres não apenas em luta umas contra as outras, mas também contra si mesmas (PÉCORA, 2024). O filme ecoa a crítica de Enloe ao expor como estruturas de poder desumanizam e manipulam mulheres, tratando-as como meros objetos de um sistema que as controla, transformando-as em peças moldáveis para os interesses de uma força dominante. 

REFERÊNCIAS: 

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 1989.

PÉCORA, Luisa. Crítica: “A Substância”, de Coralie Fargeat. Mulher No Cinema. 2024. Disponível em: https://mulhernocinema.com/criticas/a-substancia-coralie-fargeat-critica/ . Acesso em: 06 nov. 2024.

ZANETTI, Laysa. A Substância: Terror com Demi Moore premiado em Cannes é fábula feminista sobre culto ao corpo. 2024. Terra. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/entre-telas/a-substancia-terror-com-demi-moore-premiado-em-cannes-e-fabula-feminista-sobre-culto-ao-corpo,cf0113a8881d24dc668e377fb601d26dt6iabn39.html?utm_source=clipboard. Acesso em: 06 nov. 2024.