
Ana Clara Duarte – acadêmica do 2° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
No campo das Relações Internacionais, o conceito de Soft Power desempenha um papel central na análise da influência dos países sem o uso direto da força ou de medidas coercitivas. O termo cunhado por Joseph Nye, refere-se à capacidade de uma nação de atrair e persuadir outras por meio da disseminação de elementos culturais, como filmes, música e culinária. Através dessas manifestações culturais, um país é capaz de moldar percepções, construir narrativas favoráveis e influenciar a opinião pública global, estabelecendo assim um poder de atração que pode ser tão eficaz quanto a influência militar ou econômica. “O Soft Power repousa na capacidade de moldar as preferências dos outros” (NYE; 2004).
Dentro deste contexto, a indústria cultural surge como um instrumento importante na propagação do poder brando. Com uma lógica predominantemente comercial, a indústria cultural opera com base na economia de escala: quanto mais se consome, mais se produz (ADORNO; 1960). Este processo, impulsionado pela demanda por produtos culturais, amplia o alcance da cultura de um país, transformando-a em um produto rentável e globalmente acessível.
Nas últimas décadas, o crescimento econômico acelerado dos países orientais, aliado ao desenvolvimento de setores estratégicos, contribuiu para uma propagação significativa de suas culturas no Ocidente. A expansão cultural asiática foi impulsionada pelo apoio governamental e privado ao desenvolvimento de indústrias culturais, como a produção cinematográfica, musical e midiática, que ganharam amplo alcance internacional. Além disso, o avanço tecnológico permitiu que essas manifestações culturais alcançassem novos públicos com maior facilidade, enquanto investimentos em educação fomentaram programas de intercâmbio e cooperação acadêmica, promovendo um intercâmbio cultural mais intenso (OLIVEIRA; 2023).
Esse processo de exportação cultural, no entanto, não ocorre de maneira linear ou unidimensional. Produtos culturais, como o anime japonês ou os K-dramas coreanos, não apenas transmitem significados estáticos; ao serem consumidos em diferentes contextos culturais, eles passam por um processo de ressignificação e hibridização, onde seus valores originais interagem com as interpretações e as expectativas do público estrangeiro (DUARTE; 2012).
À medida que produtos culturais atravessam fronteiras, eles não apenas informam e educam os públicos estrangeiros, mas também criam oportunidades para que as culturas asiáticas se apresentem de maneira multifacetada. Isso contribui para a formação de uma imagem positiva, que contrabalança narrativas frequentemente unidimensionais que podem surgir na cobertura midiática ou em discursos políticos.
Por meio desse processo, a cultura asiática se torna um agente de mudança, desafiando preconceitos e promovendo uma visão mais inclusiva e diversa do que significa ser parte do “mundo asiático”. Assim, a antropologia não apenas analisa o impacto cultural, mas também propõe um entendimento mais profundo das interações globais, ajudando a articular como essas trocas moldam as identidades coletivas e pessoais em um mundo cada vez mais interconectado (GUSMÃO; 2008)
“Quanto mais rica a sociedade, tanto mais a publicidade se torna um fator importante no processo de produção.” (HABERMAS; 1962), ao refletir na fala do autor, é notável que ele antecipa a lógica contemporânea em que a publicidade ultrapassa seu papel inicial de ferramenta de consumo para se tornar um elemento formador de desejos, identidades e visões de mundo.
Em conclusão, o uso do poder brando pela cultura asiática se mostrou uma estratégia notável e bem-sucedida na construção de uma nova narrativa e na ampliação de sua influência global. Ao promover elementos culturais, como cinema, música, moda e tradições, países asiáticos foram capazes de moldar percepções internacionais e atrair a admiração e o interesse de diversos públicos ao redor do mundo (LIMA, PACHECO; 2024). Esse fenômeno não só fortaleceu suas economias criativas, mas também contribuiu para a criação de uma imagem positiva e moderna da Ásia, diferenciando-a de estereótipos antigos e aproximando-a de outras nações. Assim, o soft power asiático se consolidou como uma ferramenta eficaz de diplomacia cultural e influência global, redefinindo a posição desses países na arena internacional e estabelecendo uma base sólida para cooperação e diálogo intercultural no século XXI.
Referências
CAPELA*, F. “Soft power” é estratégia para países conquistarem poder e prestígio sem o uso da força. Disponível em: <https://jornal.usp.br/radio-usp/soft-power-e-estrategia-para-paises-conquistarem-poder-e-prestigio-sem-o-uso-da-forca/>. Acesso em: 3 nov. 2024.
DE ABREU, G. M. et al. REFLEXÕES SOBRE “SOFT POWER”. Disponível em: <https://www.gov.br/esg/pt-br/composicao/estudos-estrategicos/eventos/arquivos/2021_04_20_ReflexioessobreoSoftPower_ACDIA_2021_Por.pdf>. Acesso em: 3 nov. 2024.
DUARTE, P. Soft China: o caráter evolutivo da estratégia de charme chinesa. Contexto internacional, v. 34, n. 2, p. 501–529, 2012.
GUSMÃO, N. M. M. DE. Antropologia, Estudos Culturais e Educação: desafios da modernidade. Pro-Posições, v. 19, n. 3, p. 47–82, 2008.
INTERNACIONAIS, D. Soft Asia: o poder da cultura pop no soft power japonês e sul-coreano. Disponível em: <https://dialogosinternacionais.com.br/?p=3258>. Acesso em: 3 nov. 2024a.
INTERNACIONAIS, D. A cultura de massa como recurso de soft power nas relações internacionais. Disponível em: <https://dialogosinternacionais.com.br/?p=3112>. Acesso em: 6 nov. 2024b.
