
Caira Queiroz, acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais – UNAMA
Uma das maiores revelações da nova geração do humor nacional, Paulo Gustavo foi um ator, humorista e apresentador brasileiro que se destacou por sua versatilidade. Em suas produções, interpretou personagens cômicos e carismáticos que capturavam traços genuínos do povo brasileiro, conquistando o coração do público em todo o país.
Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 1978, onde viveu a maior parte de sua vida. Criado em uma família de classe média, Paulo teve a oportunidade de estudar escolas tradicionais, como o Colégio Salesiano em que fez o ensino fundamental. Ainda na adolescência se assumiu gay, onde chegou a sofrer preconceito explícito de um professor ao ouvir que, em vez de ser ator, deveria ser “travesti” (UOL, S.D.).
Mesmo enfrentando situações como essa, o ator persistiu em atuar nos palcos. Foi na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), famosa escola de atores no Rio de Janeiro, que Paulo Gustavo se formou como ator em 2005. A peça “O Surto!” (2004) foi o seu primeiro destaque artístico. Nele, o artista deu à luz a personagem mais icônica entre as suas criações, a dona Hermínia – inspirada na própria mãe, Déa Lúcia Vieira Amaral. Paulo foi incentivado por Samantha, sua amiga e colega comediante, a dar vida à personagem após assistir à peça “O Surto!” (BBC, 2021).
Posteriormente integrou outros projetos em teatro e televisão com diversos artistas e diretores, até criar o monólogo que lhe daria notoriedade em todo o país: “Minha Mãe É Uma Peça” (2006). A peça conquistou os brasileiros ao ser adaptada em franquias nos cinemas, sendo aclamada tanto pelo público quanto pela crítica. Nesta obra, sua personagem Dona Hermínia é a protagonista, pois retrata suas fortes características sendo uma mãe engraçada e protetora. Essa representação afetiva e bem-humorada da figura materna fez com que a personagem se tornasse um ícone da cultura popular brasileira (UOL, S.D.).
A partir de então sua trajetória alavancou. No mesmo ano, Paulo recebeu o Prêmio Shell de melhor ator por conta da interpretação de Dona Hermínia, uma das principais premiações do gênero no Brasil. Começou a fazer participações mais ativas e pontuais na TV, especialmente na Globo. Esteve nas séries Minha Nada Mole Vida (2006-2007) e A Diarista (2004-2007). Participou do espetáculo Hiperativo, em 2010 e foi apresentador do programa de TV 220 Volts, em 2011. Em 2013 esteve no sitcom Vai que Cola; em 2014 estreou o reality show Paulo Gustavo na Estrada e em 2017 integrou o elenco de A Vila, todos programas do canal Multishow, que logo se tornou a maior audiência da TV por assinatura no Brasil (AIDAR, 2021).
Ao longo de sua carreira continuou construindo e interpretando outros personagens marcantes. Assim seguiram-se outras peças teatrais no teatro e cinema, como os sucessos “Os Homens São de Marte… E é pra Lá que Eu Vou!” e “Minha Vida em Marte”. Por meio deles, Paulo Gustavo levou o riso e a alegria a milhões de brasileiras e de brasileiros. Usou sua visibilidade para promover mensagens de amor e respeito à diversidade, sendo uma voz importante para a comunidade LGBTQIA+ no Brasil. (Ministério da Cultura, 2023).
Porém sua trajetória foi interrompida tragicamente em 2021, quando faleceu em decorrência da COVID-19, se juntando às milhares de vítimas da COVID-19 no país. Tal perda gerou uma grande comoção em todo o país, pois sua partida deixou uma lacuna na comédia brasileira. Mas seu legado continua vivo, inspirando tanto novos humoristas quanto o público que ele conquistou ao longo de sua carreira (BBC, 2021).
Seu legado cultural auxiliou na criação da Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar 195/2022), criada em homenagem ao ator e humorista. Aprovada em 2022, a lei visa o investimento de R$3,862 bilhões vindos do Fundo Nacional da Cultura (FNC), responsável pela promoção cultural do país, além da utilização de recursos federais, a fim de amenizar os prejuízos do setor causadas pela pandemia, visto que era necessário, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o isolamento social como uma das formas de prevenção para a COVID-19 (NICOLAU,2022).
Nesse sentido, é possível relacionar a incrível trajetória artística de Paulo Gustavo nos palcos e no audiovisual com a Teoria Pós-moderna de Jean Baudrillard, especialmente na perspectiva de simulação e hiper-realidade. Segundo Baudrillard, a sociedade pós-moderna é guiada por representações e imagens que criam uma nova “realidade” — uma hiper-realidade — onde o que é simulado acaba se misturando com o real e, muitas vezes, substituindo-o (SARFATI, p. 246).
Essa perspectiva, analisada sob a trajetória de Paulo Gustavo com sua criação mais famosa, Dona Hermínia, é uma representação exagerada e cômica da mãe brasileira, mas que toca no que muitos percebem como traços genuínos e afetivos, já que a personagem reflete o papel das mães no imaginário coletivo. O exagero nos comportamentos, nas expressões e nas preocupações de Dona Hermínia cria uma hiper-realidade onde a personagem vai além de uma simples interpretação cômica — ela se torna uma figura que substitui a imagem da “mãe real” para o público, a ponto de os espectadores se identificarem com ela como se fosse uma pessoa de verdade.
Para Baudrillard, Dona Hermínia seria um “simulacro” — um símbolo que não representa apenas uma mãe específica, mas todo o conceito da figura materna com o qual o público se conecta, exemplificando como as representações criadas por Paulo Gustavo ocupam um espaço fundamental na cultura popular brasileira.
A relação de sua trajetória com a Teoria Pós-moderna de Baudrillard ganha ainda mais significado quando consideramos a criação da Lei Paulo Gustavo. A homenagem oficializa Paulo Gustavo não apenas como um artista, mas como um símbolo cultural que transcende seu próprio trabalho e vida, reforçando a ideia da hiper-realidade de Baudrillard, em que um símbolo ganha vida própria e passa a ter um efeito concreto na sociedade.
Ao destinar fundos para a produção cultural no Brasil, a lei perpetua o “simulacro” de Paulo Gustavo — não apenas como um comediante, mas como uma entidade que impulsiona e sustenta a cultura nacional. Assim, a Lei Paulo Gustavo representa mais do que uma homenagem; ela institucionaliza a importância de símbolos culturais que ajudam a moldar a percepção coletiva do público, exatamente como Baudrillard descreve na criação de hiper-realidades que impactam o real.
REFERÊNCIAS
AIDAR, Laura. Paulo Gustavo. Disponível em: https://www.ebiografia.com/paulo_gustavo/. Acesso em: 10 nov. 2024.
BRASIL. Ministério da Cultura. Lei Paulo Gustavo. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/@@search?origem=keyword&SearchableText=Lei%20Paulo%20Gustavo. Acesso em: 10 nov. 2024.
BRASIL. Ministério da Cultura. Quem foi Paulo Gustavo. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/lei-paulo-gustavo/central-de-conteudo/quem-foi-paulo-gustavo. Acesso em: 10 nov. 2024.
CALDAS, P.; MENDES, L. Morre Paulo Gustavo: Humorista deixa legado de personagens e risadas. BBC News Brasil, 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56739386. Acesso em: 10 nov. 2024.
NICOLAU, Victoria. Lei Paulo Gustavo: qual a sua importância para a cultura? Politize, 2023. Disponível em: https://www.politize.com.br/lei-paulo-gustavo/. Acesso em: 10 nov. 2024.
PSICANÁLISE CLÍNICA. Jean Baudrillard. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/jean-baudrillard/. Acesso em: 10 nov. 2024.
RODRIGUES, D. Biografia de Paulo Gustavo. Notícias da TV, 2021. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/bio/paulo-gustavo. Acesso em: 10 nov. 2024.
SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais.
