Antônio Vieira, acadêmico do 2° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica

Gênero: Drama, Guerra

Duração: 2h 20min

Ano: 2016

Diretor (a): Mel Gibson

Distribuição: Diamond Films

País de origem: EUA

“Até o Último Homem”, vencedor de dois Oscars, é um filme sobre a Segunda Guerra Mundial baseado em fatos reais, que conta a história de Desmond Doss (Andrew Garfield), um jovem adventista detentor de uma fé e moralidade inabaláveis. Ele se recusa a portar armas e a tirar vidas no campo de batalha, servindo como médico e cumprindo seu dever ao salvar vidas no front sem disparar um único tiro.

A trama começa mostrando a infância conturbada de Desmond, que exerce uma forte influência para a sua construção atual como indivíduo. Nesse sentido, é relatado o comportamento abusivo do seu pai, Tom Doss, que, assolado pela sua participação na 1 guerra mundial, se torna agressivo com seus dois filhos e esposa. Em certa cena, uma briga entre Desmond e seu irmão, incentivada pelo pai, quase termina em tragédia. Paralelamente, o cristianismo surge como um refúgio para o garoto, com o sexto mandamento, “não matarás”, servindo como o seu guia moral. Após 15 anos, agora dono de uma personalidade pacífica e entusiasta da medicina, o jovem enxerga na Segunda Guerra Mundial a chance de proteger vidas dentro e fora do campo de batalha.

Ao se alistar no exército como médico, seguindo sua fé, Doss logo enfrenta o julgamento dos colegas de quartel e dos superiores, que o consideram covarde por ele se opor a matar no futuro combate. Porém, determinado, ele busca provar ser um objetor de consciência legítimo, ou seja, que é seu dever religioso não matar, e que, portanto, a obrigação legal de usar armamento não poderia ser aplicada a ele. Depois de muito esforço, sendo influenciado a sair das forças armadas e até ameaçado de prisão, Desmond Doss conhece a realidade da guerra. Sua participação se dá na batalha de Okinawa contra os japoneses, local esse que testa a sua espiritualidade altruísta e redefine o conceito de coragem dos demais soldados aliados.

Ao analisar a trama, é possível perceber a abordagem crítica do roteiro frente as mazelas de uma guerra alimentada pelos estados, como o enfraquecimento dos direitos humanos, exemplificada pelo preconceito contra os japoneses, assim como pelas mortes em larga escala, que se tornam banalizadas. Também há o surgimento de distúrbios psicológicos, visíveis no comportamento do pai de Desmond ao refletir seus traumas na família. Sob essa ótica, o filme se associa à teoria idealista das Relações Internacionais, que acredita na possibilidade de evitar a guerra por meio da colaboração entre os indivíduos para a construção de uma possível paz (SARFATI, 2005).

De acordo com o idealista clássico Immanuel Kant, em seu livro “À Paz Perpétua”, onde elabora um estudo sobre como estabelecer e manter uma paz duradoura, o filosofo destaca:

a razão […] condena absolutamente a guerra como procedimento de direito e torna, ao contrário, o estado de paz um dever imediato, que, porém, não pode ser instituído ou assegurado sem um contrato dos povos entre si […] (p. 40-41).

Nesse sentido, a frase de Kant se conecta perfeitamente com a postura de Desmond, que se recusa a matar. Apesar de sua motivação ser religiosa, ela não difere da visão kantiana racional, que defende a paz e a preservação da vida como deveres superiores aos da violência e da guerra (KANT, 1989).

Além disso, durante o conflito, Doss demonstra compaixão ao prestar socorro a soldados japoneses feridos, colaborando assim para a promoção da paz, que, segundo Immanuel Kant, como mencionado anteriormente, seria efetivada através de um “contrato dos povos” para assegurar a paz. Essa tese é elaborada em seu sexto artigo preliminar para a paz perpétua, onde o filósofo afirma que os estados envolvidos em guerra não podem permitir hostilidades que dificultem uma futura confiança de paz entre si (KANT,1989). Infelizmente, seria necessário a prática altruísta de todos soldados norte-americanos para a efetivação de uma possível paz.

Dessa forma, Desmond Doss demonstra ser um exemplo a ser seguido pelos estados envolvidos em guerra, sendo seus princípios semelhantes aos da ONU, especialmente os presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos. No mais, a obra cinematográfica é original por abordar a Segunda Guerra Mundial sem aquele famoso protagonista inabalável, que elimina os inimigos sem hesitar. Aqui o protagonista é considerado um herói sem usar uma arma.

REFERÊNCIAS:

KANT, Immanuel. À paz perpétua. Porto Alegre: L&PM, 1989.

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.