
Vitória Magno e Thassyane Maria Silva – acadêmicas do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Reemergindo nas últimas décadas como um dos principais atores do Sistema Internacional, a Rússia vem consolidando-se como uma das maiores potências mundiais. Desde o colapso da União Soviética em 1991, o país enfrentou uma grave crise econômica e social durante os anos 1990, que causou uma queda significativa do seu PIB e aumentou a desigualdade e a pobreza (Stiglitz, 2003). Entretanto, a situação começou a se reverter a partir dos anos 2000, impulsionada pela liderança de Vladimir Putin, que implementou uma série de reformas visando à estabilização econômica e o fortalecimento do poder estatal. Logo, o PIB russo, por exemplo, passou de US$ 259 bilhões em 2000 para aproximadamente US$ 2,02 trilhões em 2023 (Banco Mundial, 2023).
Além disso, a condição de ascensão à 4° potência russa tem gerado tensões com o Ocidente, especialmente com a União Europeia e os EUA, que consideram as políticas de expansão da Rússia como uma ameaça aos seus interesses e à ordem internacional.
Vale ressaltar, em primeira análise, à luz do realismo ofensivo de John Mearsheimer, que pode-se analisar a busca do Estado russo pela maximização de seu poder, com uma hegemonia regional como forma de garantir segurança em um sistema internacional anárquico e competitivo onde, segundo o pensador, a busca por sobrevivência e influência – ideológica e econômica – são amplificadores de ações políticas regionais e externas nas relações globais (Mearsheimer, 2001). Sob esse viés, a reestruturação russa consolida uma posição relevante no sistema internacional, haja vista o alto investimento em políticas públicas ao mesmo tempo que redefine a sua relação com antigos membros externos – como a antiga União Soviética – e projeta o seu poder em diversas regiões estratégicas como potência “reermergente”, principalmente na Eurásia e com sua participação no BRICS. (Quadros, 2011; Marques, 2022)
Ademais, seguindo essa lógica, para Mearsheimer, a expansão da OTAN após a Guerra Fria, movendo-se cada vez mais para o leste europeu, foi percebida pela Rússia como uma ameaça existencial, levando Moscou a adotar uma postura mais agressiva para proteger seus interesses e preservar uma zona de influência ao redor de suas fronteiras (Mearsheimer, 2014). Sendo assim, este comportamento torna-se evidente na Guerra Rússia-Ucrânia, que, segundo Mearsheimer, reflete a busca russa por segurança em um cenário de mudança cada vez mais incerto.
É válido evocar, em segunda análise, a Teoria da Estabilidade Hegemônica (1987) que Robert Gilpin faz um reanálise e sugere que uma economia internacional estável “depende” de uma potência hegemônica com o poder de promover bens públicos internacionais como segurança, estabilidade monetária e sistemas de comércio abertos – liberais (Vadell, 2008). No entanto, nota-se em um cenário multipolar emergente, que a Rússia tem desafiado esse pensamento ao demonstrar uma certa resistência mesmo sob as restrições econômicas causadas por sanções lideradas pelo Ocidente.
Logo, para sanar esse desfalque, a Rússia tem aproveitado ao máximo seus recursos naturais – principalmente gás e petróleo – para manter sua posição e projetar poder. Do mesmo modo, pelo que foi observado por Marques (2022), a dependência energética europeia do gás russo torna-se uma ferramenta de poder que Moscou utiliza para pressionar a Europa e enfraquecer sua resistência contra a expansão russa e sua influência político-econômica e ideológica.
Em face dessas sanções, a Rússia aprofundou parcerias com países não-ocidentais, como China e Irã, fortalecendo a cooperação econômica, tecnológica e militar – principalmente com o BRICS, sendo observado, tal posicionamento, em sua ultima Cúpula. De acordo com McCarthy “[…]É esta última mensagem que Putin — e o parceiro próximo e líder mais poderoso dos países Brics, Xi — projetarão nos próximos dias: é o Ocidente que está isolado no mundo com suas sanções e alianças, enquanto uma “maioria global” de países apoia sua tentativa de desafiar a liderança global americana.[…]” (CNN Brasil,2024). Assim, o BRICS é mais que ferramenta econômica, mas também um recurso geopolítico para a Rússia reafirmar seu status de potência global.
Portanto, a reemergência da Rússia impacta diretamente o equilíbrio de poder global. Sob essa perspectiva, a presença russa em áreas de interesse estratégico, como o Oriente Médio, África e Europa Oriental, desafia a influência dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus. Assim, a invasão russa na Ucrânia, por exemplo, destaca o seu papel de ator decisivo em regiões onde há disputas de influência com o Ocidente. Essa projeção de poder russo, segundo Quadros (2011), reflete uma tendência de resistir à dominação ocidental e buscar “paridade” em regiões estratégicas e alcançar, quem sabe, uma nova ordem mundial.
Referências:
Banco Mundial. (2023). Dados sobre o PIB da Rússia. Disponível em: https://data.worldbank.org. Acesso em: 14 nov. 2024.
Gilpin, Robert. The Political Economy of International Relations. Princeton: Princeton University Press, 1987.
Marques, R. L. R. (2022). Pensando a Rússia. CEBRI-Revista, Ano 1, Nº 3, Jul-Set.
McCarthy,Simone. Análise: Ocidente quer Rússia isolada; cúpula dos Brics evidencia o contrário. CNN Brasil. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-ocidente-quer-russia-isolada-cupula-dos-brics-evidencia-o-contrario . Acesso em: 14 de nov. 2024.
Mearsheimer, J. J. A Tragédia da Política das Grandes Potências . Nova Iorque: WW Norton & Company, 2001.
Quadros, B. A Rússia como poder reemergente no século XXI: uma problematização do conceito de “emergente” em perspectiva histórica . Universidade Federal do Paraná e Unicuritiba, 2011.
Stiglitz, J. Globalization and its Discontents. W.W. Norton & Company,2003.
Vadell, Javier Alberto. O desafio do capitalismo global. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbpi/a/W8NLLYYXHZjML9Zths54Pyp/. Acesso em: 13 nov. 2024.
