
Por Lara Lima, acadêmica do 8º semestre de Relações Internacionais na Unama
O dólar estadunidense possui um papel central na economia global desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Contudo, ao longo da segunda metade do século XX, a possibilidade de o dólar perder sua hegemonia como moeda dominante tem sido alvo de estudos internacionais no campo das Relações Internacionais. Muitos pensadores têm debatido acerca dos cenários futuros para o Sistema Monetário Global, e se o dólar seguirá mantendo seu papel de reserva internacional (Cunha et al., 2023).
Segundo o professor de Relações Internacionais da UERJ e cientista político, Maurício Santoro, a moeda desempenha um papel fundamental no projeto político hegemônico dos Estados Unidos. A centralidade do dólar no sistema financeiro global confere vantagens significativas aos EUA. Essa posição privilegiada oferece vantagens, como evitar problemas de balança de pagamento, influenciar as transações financeiras internacionais, como também aplicações de sanções e embargos comerciais (Bordallo, 2024).
A supremacia do dólar como moeda de reserva e meio de troca no comércio internacional continua indiscutível, dada a ampla adoção da moeda e os interesses enraizados em sua preservação. Apesar disso, o debate sobre a necessidade de diversificar o sistema monetário global persiste, especialmente em resposta a eventos como a crise financeira internacional de 2008 e as sanções dos EUA imposta em vários outros países (Martins, 2015). Esses acontecimentos ressaltaram a dependência excessiva de uma única moeda no cenário internacional e incentivam uma discussão mais ampla sobre alternativas viáveis para promover uma maior estabilidade financeira global.
Os Brics simbolizam um grupo com potencial para desafiar a hegemonia da moeda norte-americana. Originalmente concebido como BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), pelo economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O’Neil, em um estudo de 2001, que especulava quais economias poderiam superar as nações mais ricas do mundo até 2050 (Pires, 2011). As primeiras articulações entre os membros ocorreram em 2006, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, devido à crise financeira de 2008, mas seu primeiro encontro oficial ocorreu na I Cúpula em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. Em 2011, a África do Sul foi incorporada ao grupo, formando os BRICS.
Em 2022, o BRICS representava mais de um quarto do PIB mundial, além de 16,1% das exportações e 14,9% das importações globais, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Banco Mundial. Durante a Cúpula de 2023, o agrupamento anunciou a adesão de novos membros, tais quais, Arábia Saudita, Argentina, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã, com exceção da Argentina, que havia demonstrado interesse no grupo, sob a presidência de Alberto Fernández, recusou o convite após a vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais. Com a entrada oficial dos novos membros em 2024, o BRICS passou a corresponder a 70% das terras raras e dos minerais essenciais do mundo e por volta de 40% da produção mundial de petróleo, tendo um considerável peso dos recursos econômicos e geopolíticos, representando uma significativa parcela de 27% do PIB global e 43% da população do planeta (Lopes, 2024).
A adesão de novos membros é um marco importante para o financiamento do New Development Bank (NDB), o Banco do BRICS, fundado na Cúpula de 2014 com o propósito de promover o desenvolvimento dos países membros (Lopes, 2024). Uma das principais prioridades do banco é garantir que 30% dos recursos destinados aos seus projetos de desenvolvimento sejam financiados em moedas locais, a fim de reduzir os riscos associados ao dólar.
Nos últimos anos, o BRICS tem buscado reduzir sua dependência do dólar e essa pauta ficou mais forte após as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia. Essas sanções incluíram o congelamento das reservas internacionais russas e a expulsão do SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), um sistema de mensagens seguras que facilita a rapidez dos pagamentos internacionais, em resposta à invasão na Ucrânia (Bordallo, 2024). Essa medida fez com que a Rússia e seus parceiros comerciais, como os países do BRICS, principalmente a China, Irã e a África do Sul que sofrem com sanções financeiras e comerciais dos EUA, buscassem cada vez mais alternativas para reduzir a dependência do dólar em suas operações financeiras, levando-os a negociar em moedas locais. Nesse sentido, as sanções estadunidenses serviram para aproximar a Rússia da China, as importações russas em yuan, entre 2021 e 2022, passaram de 3% para 20%, um crescimento significativo (Lopes, 2024).
Na Cúpula de 2024, foi novamente debatida a proposta de criação de uma moeda comum para facilitar as transações entre os países do BRICS, com o intuito de aumentar a autonomia financeira. Também foram discutidas plataformas como BRICS Pay, que é semelhante ao SWIFT, destinada a agilizar as transações entre os membros e o BRICS Bridge, uma iniciativa baseada em tecnologia blockchain que conecta os bancos centrais dos países participantes, visando maior segurança nas transações (G1, 2024).
No livro The Political Economy of International Relations (1987), o renomado economista Robert Gilpin argumenta que um Estado hegemônico desempenha um papel crucial na manutenção da ordem global, estabelecendo regras, leis e normas, como também promovendo um sistema econômico aberto (Gilpin, 2002). Os Estados Unidos têm exercido o papel de potência hegemônica no sistema financeiro internacional, principalmente por meio de regras e instituições que moldam as relações econômicas globais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, SWIFT e o dólar como moeda dominante no cenário internacional.
Em sua outra obra, “Global Political Economy: Understanding the International Economic Order” (2001), Gilpin analisa as dinâmicas do sistema econômico internacional, ressaltando o comportamento das potências hegemônicas e os mecanismos que utilizam para se manter. O autor mostra como essas potências se utilizam da interrupção ou à ameaça de interrupção das relações comerciais, financeiras e tecnológicas para expandir sua influência, controlar aspectos centrais da economia global, como sistemas financeiros, comércio e tecnologia. O hegemon usa esses instrumentos como forma de poder, moldando as políticas em seu próprio benefício.
Desse modo, os Estados Unidos têm feito das sanções econômicas uma arma, como também a principal estratégia da sua política externa. Além de exercerem poder, as sanções visam pressionar governos a ajustar suas políticas ou enfraquecer economicamente países-alvo, buscando assim, influenciar o comportamento internacional de outras nações. Entretanto, o uso recorrente das sanções tem incentivado os países a buscarem alternativas ao dólar, como tem ocorrido no BRICS atualmente. O grupo defende a reformulação de regras que ampliem a capacidade de negociação dos países do Sul Global, promovendo novas formas de inserção internacional que venham reduzir a dependência dos mecanismos criados e dominados pelos países do Norte Global, buscando assim uma maior equidade nas relações econômicas e políticas internacionais (Lopes, 2024).
REFERÊNCIAS:
BORDALLO, Emanuelle. BRICS se expande como força antagonica aos EUA e com agenda pela desdolarização. O Globo, 2024. Disponível em: https://archive.is/2024.01.07-144119/https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2024/01/01/brics-se-expande-como-forca-antagonica-aos-eua-e-com-agenda-pela-desdolarizacao.ghtml. Acesso em: 14 nov. 2024
CUNHA, André Moreira; PERRUFO, Luiza; FERRARI, Andrés. Os BRICS e a “Desdolarização”. UFRGS, 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/fce/os-brics-e-a-desdolarizaca. Acesso em: 14 nov. 2024.
EM REUNIÃO com Dilma, Putin defende aumento do comércio em moedas nacionais para escapar de sanções. Globo.com, 22 out. 2024. G1. Públicado em: 22 de Out. 2024 Disponível em:https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/10/22/em-reuniao-com-dilma-putin-defende-aumento-do-comercio-em-moedas-nacionais-para-escapar-de-sancoes.ghtml. Acesso em: 14 nov. 2024.
GILPIN, Robert. A economia política das Relações Internacionais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.
GILPIN, Robert. Global Political Economy: Understanding the International Economic Order. Princeton: Princeton University Press, 2001. Disponível em:https://dl1.cuni.cz/pluginfile.php/264754/mod_resource/content/1/Gilpin_Global%20Political%20Economz.pdf. Acesso em: 14 nov. 2024.LOPES, Gabriel Vera. Como uma eventual desdolarização do BRICS representa oportunidades para Cuba. Brasil de Fato. Publicado em: 5 jul. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/07/05/como-uma-eventual-desdolarizacao-do-brics-representa-oportunidades-para-cuba#:~:text=De%20acordo%20com%20o%20Banco,Mundial%20do%20Com%C3%A9rcio%20(OMC). Acesso em: 16 nov. 2024.
