Julia Castro, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais 

Ficha Técnica: 

Ano: 2020

Direção: Lee Isaac Chung

Distribuição: A24

Gênero: Drama

País de Origem: Estados Unidos

Baseado na história de vida do diretor, Lee Isaac Chung, “Minari” conta a história de uma família de imigrantes sul-coreanos que, após se mudarem para uma área rural do Arkansas em busca de melhores oportunidades, enfrentam diversos desafios para se adaptarem ao novo ambiente. Bastante aclamado pela crítica, o filme explora temas como identidade, pertencimento e as tensões entre gerações.

Ambientada em 1983, a trama inicia com a mudança da família Yi, da Califórnia para uma fazenda isolada no Arkansas. O protagonista, Jacob Yi, sonha em estabelecer uma fazenda e cultivar produtos coreanos para vender a imigrantes asiáticos nos Estados Unidos, acreditando que isso trará sucesso financeiro à família. No entanto, sua esposa Mônica fica insegura quanto à decisão de Jacob, devido às condições precárias da nova casa e à saúde delicada de seu filho, David, que tem problemas cardíacos. 

Para ajudar a cuidar das crianças, a avó Soonja se junta à família, trazendo uma perspectiva diferente e um elo com as tradições coreanas. Aos poucos, David e Soonja formam um vínculo afetuoso, com a avó compartilhando suas histórias, seus ensinamentos e plantando sementes de minari. O cultivo do minari, uma erva asiática resistente, torna-se um símbolo de resiliência e adaptação da família na busca do sonho americano.

A obra cinematográfica oferece uma perspectiva rica sobre diáspora, identidade cultural e migração econômica. Dessa forma, podemos relacioná-lo com a teoria decolonial das Relações Internacionais, a partir dos estudos de Homi Bhabha. Um tema central na obra “O Local da Cultura” é o hibridismo, a manifestação da interação entre a cultura do colonizado e do colonizador, onde ambas interagem para se modificar e criar algo novo, como uma ferramenta de resistência do colonizado, que pode se utilizar dessa mudança como espaço de atuação política (COSTA, 2018). Em “Minari”, esse hibridismo é evidente na adaptação da família Yi, que preserva elementos de sua herança coreana enquanto tenta assimilar os valores americanos. A própria planta minari, que cresce forte e adaptável em terrenos difíceis, é uma metáfora para esse hibridismo e para a sobrevivência dentro do contexto migratório.

No mesmo livro, o autor aborda o conceito de ambivalência cultural, referindo-se à forma como culturas dominantes constroem sua supremacia, mas essa supremacia é, ao mesmo tempo, dependente da diferenciação em relação à culturas diferentes: “o conceito de diferença cultural concentra-se no problema da ambivalência da autoridade cultural, que é a tentativa de dominar em nome de uma supremacia cultural que é ela mesma produzida apenas no momento da diferenciação” (BHABHA, 1998). No filme, os moradores do Arkansas inicialmente veem a presença da família Yi como algo exótico e, potencialmente, desestabilizador, mas também como uma força que contribui para a economia local. Essa dualidade reflete a ambivalência da autoridade cultural mencionada por Bhabha.

Em essência, a obra cinematográfica reflete a teoria pós-colonial, enfatizando o hibridismo, a resistência cultural e as desigualdades estruturais que os imigrantes enfrentam no Ocidente. Em tempos onde debates sobre imigração e identidade cultural são tão relevantes, “Minari” oferece um olhar empático e universal, lembrando-nos do poder das histórias pessoais para transcender barreiras culturais e geográficas.

REFERÊNCIAS: 

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998. 

COSTA, Karla Resende da. Hibridismo, resistência e mudança: um diálogo entre a teoria do discurso de Ernesto Laclau e o pós-colonialismo de Homi. K. Bhaha. 2018. 28 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018.